ter�a-feira, 19 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA analisa o livro de Theodoro Sampaio sobre a cidade do SSA

Theodoro Sampaio faz uma abordagem desde a geografia da localidade, o gentio, a lingua tupi, os primeiros habitantes do povoamento e a fundação da cidade até o governo Mem de Sá.
26/07/2015 às 20:39
 Os fatos históricos comportam muitas versões a depender da visão de cada analista ainda que a realidade histórica em sí, a fonte primária, quando bem documentada e testemunhada é precisa, imutável. Na história da cidade do Salvador, por exemplo, é inquestionável que a esquadra de Thomé de Souza aportou no Porto da Barra, então Vila Velha do Pereira, em 29 de março de 1549. Há dúvidas, no entanto, quanto a posição das embarcações, quais os primeiros portugueses da armada que desembarcaram e o momento em que Thomé pisou no sólo baiano, ao que se diz no dia 31 de março.
 
   A história é uma matéria fascinante. Nela repousa todo conhecimento de nossa origem e só aqueles que lêem e estudam a história são capazes de entender a Bahia, os baianos, os brasis. Um dos melhores estudos e livros sobre esse período inicial da colonização portuguesa no Brasil intitula-se "História da Fundação da Cidade do Salvador" (obra póstuma), de Theodoro Sampaio, editado pela Tipografia Beneditina Ltda, em 1949.
 
   Trata-se de uma obra rara, mas, acessível a estudiosos no IGHB, na Biblioteca do Mosteiro dos Beneditinos, na Biblioteca Central e em mãos de alguns abnegados. A edição que chegou à minha leitura foi editada graças ao então secretário da Educação, Anísio Teixeira, e contém o saber da história e dissertações da geografia do estado. 

   Para facilitar a vida dos nosssos leitores eis alguns dados sobre Theodoro Fernandes Sampaio (1855/1937). Nasceu em Santo Amaro, filho da escrava Domingas da Paixão do Carmo e do padre Manuel Fernandes Sampaio. Ainda em Santo Amaro estuda as primeiras letras no colégio do professor José Joaquim Passos. É levado pelo pai, em 1864, para São Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde estuda no Colégio São Salvador e, em seguida, ingressa no curso de Engenharia do Colégio Central.

   Formou-se em 1877, quando volta a Santo Amaro e revê a mãe e os irmãos, comprando, no ano seguinte, a carta de alforria de seu irmão Martinho, gesto que repete com os irmãos Ezequiel (1882) e Matias (em 1884). Por ser filho de branco, Sampaio nunca fora um escravo.

   Em 1879 integra a "Comissão Hidráulica", nomeada pelo imperador Dom Pedro II, sendo o único engenheiro brasileiro entre estadunidenses. Foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (1894); membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (1898), que presidiu em 1922; sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1902).

   Seu livro traz, inicialmente, estudos relacionados com a geografia - onde se situa a Bahia - com aspectos do solo - a terra e o homem, abrangente a todo estado. Comenta sobre a paisagem, os tipos brasileiros - o vaqueiro, o garimpeiro, o tropeiro, etc - dedicando, também, um capítulo sobre o gentio - tupinambás, aymorés, tapuias, etc, a herança cultural e linguística deixada por esses povos - a caça, a pesca o meio de vida - até chegar ao 4º capítulo correspondente ao primeiro livro.

   Sobre a ídole dos tupinambás, povos nativos do território de Salvador, revela que "a hospitalidade amiga e mui afável era a regra entre os selvagens tupinambás. O recebimento em pranto, no meio de lágrimas, nunca deixavam de o fazer, salvo quando reinava entre eles alguma malicia contra o visitante e lhes queriam fazer algum traição". 

   Essa herança cultural é importantíssima para entender, inclusive, a malemolência e esse jeito de ser dos baianos. Narra Sampaio: "Dissemos como os tupinambás eram desamoráveis e descaridosos para com os seus enfermos, ainda que parentes seus, como praticavam a antropofagia como vingança e como se orgulhavam, se prisioneiros, de receberem a morte em terreiro. Mas, como todos os povos tinham eles seu pudonor, os seus pontos de honra, coisas que consideravam de uma nobreza e dignidade".

   Essa influência tupinambá entre os baianos, hoje, descuidada e imperceptível, tem um grande significado. Observa Sampaio que "boa parte da diferença que aqui se nota entre o português puro e o português falado no Brasil, vem de procedência tupi". Infelizmente, hoje, poucas pessoas falam tupi. O Paraguai, nosso país vizinho, é bilingue. Preserva o guarari.

   Nas origens do descobrimento o autor trata dos franceses nas terras baianas e da decoberta da Baía de Todos os Santos na missão exploradora que teria sido comandada por Gaspar de Lemos - há quem diga que foi comandada por André Gonçalvas, e ainda Christovão Jaques ou D. Nuno Manoel -  tendo como cartógrafo Américo Vespúcio. O autor comenta sobre o primeiro navio francês que visitou a Baía de Todos os Santos - de Binot Paulmier ou algum dos de Jean Denis - e chega a Diogo Alvares, o Caramuru, "o qual, ao que parece, desde 1510 ou 1511 aqui vivia entre os selvagens e era até ignorado pelos portugueses, como se vê no 'Diário de Pero Lopes de Souza', de 1530".

  Adiante, Sampaio revela que, em 1535, "quando aqui se refugia a tripulação espanhola da nau capitânea Simão de Alcáçoba, naufragada em Boypeba e socorrida por Caramuru" este ainda era ignorado por Portugal. Uma imagem da Virgem resgatada neste naufrágio e descoberta no canto de uma cabana de uma selvagem provocou visões repetidas na índia Catarina Paraguaçu, a qual construiu uma casa de barro (depois capela) dedicada a Nossa Senhora da Graça, primeiro oratório que se ergueu no povoamento. 

   A história segue e pelos fins de 1535 chega a Bahia o donatário Francisco Pereira Coutinho para povoar a sua capitania onde havia mil índios e 9 europeus, entre eles, Diogo Álvares. "Não se sabe ao certo quanta gente conseguiu trazer da primeira leva nem a importância da expedição, que, por conjecturas, se supõe composta de sete embarcações com uns 400 homens - colonos, artífices, empregados d'armas".

   Fundou a Vila Velha do Pereira e o principal arruamento a dentro era o Caminho do Conselho (Ladeira da Barra) onde se situava a casa (torre) local que reunia os oficiais, próximo da morada de Caramuru. As dessavenças entre os grupos dos franceses e o donatário resultram a morte de Pereira e, posteriormente, em 1549, o reino decidiu colonizar o Brasil de vez com a instalação de um governo geral.

   Mas é certo que, quiçá antes da colonização de Pereira Coutinho havia uma Aldeia dos Franceses que "precederam os porgutueses na ocupação das terras da vizinha e atual cidade do Salador". Em petição do Conselho e Câmara da cidade de 21 de maio de 1552 ao primeiro governador geral do estado do Brasil se vê que o povo, tendo necessitado de pastos baldios para o seu gado, solicita as terras da Aldeia dos Franceses até o Rio Joanes.

   "Que Diogo Alvares habitou por algum tempo a Aldeia dos Franceses não é cousa impossível, antes até natural, dadas as suas amistosas relações com estes e quiçá como agente do seu comércio, e muito provável é que o apelido Caramuru , pelo qual o selvagem o conheciam, conforme a sua qualidade de náufrago, copartícipe dos sucessos que derama origem a aldeia localizada à margem da ribeira, na linguagem dos naturais, se chamou Caramurugipe.

   O certo é que Caramuru teve uma importância enorme na pré-colonização. 

   No capítulo sexto, Sampaio cuida então da Fundação da Cidade do Salvador . "Compunha-se a armada de Thomé de Souza de três naus: a de Nossa Senhora da Conceição, a de Nossa Senhora d'Ajuda e a do Salvador, com mais duas caravelas - Leôa e Rainha e o bragantim São Roque".
Comandavam essas naus: Thomé de Souza a NS da Conceição; Antonio Cardoso de Barros - Provedor da Fazenda Real - a NS d'Ajuda; Duarte de Lemos, a do Salvador; Pero de Góes, donatário da Paraiba do Sul e agora capitão mor do mar da Costa, no comando da Leôa; Christovão Cabral, a Rainha; e Francisco da Silva e Gregório Fernandes o bragantim.
Vieram ainda com Thomé seis jesuitas sob o comando de Manuel da Nóbrega e padres seculares - estes últimos esquecidos pela história. Sampaio revela - o que pouca gente sabe - que, dos 320 soldados da armada, havia 'flamengos, castelhanos, italianos, galegos, portugueses e alguns homens de côr'.
Entre os funcionários não fidalgos o autor cita Pedro Borges, nomeado a 15 de janeiro de 1549, Ouvidor Geral do Brasil; Christovão de Aguiar, almoxarife do armazém e mantimentos; padre Manoel Lourenço, prior da igreja em Salvador; Jorge de Valadares, físico e cirurgião, o primeiro médico que clinicou na cidade; Braz Alcoforado, tesoureiro dos defundos. A lista é grande e nomeados calafates, pedreiros, vaqueiros, carreiros, boticário e assim por diante.

   O autor descreve como foi erguida a fortaleza, os baluartes e as portas da cidade, a formatação inicial da cidade com a Rua Direita dos Mercadores ao lado do palácio, a primeira e mais importante da cidade; o regime municipal a Câmara e seu termo com sessões ordinárias semanais que começavam às 8h; os costumes e a vida desregrada e a reação da igreja, inclusive resultando na morte do primeiro bispo dom Pero Fernandes Sardinha.

   O autor descreve a cidade até o tempo de Mem de Sá, os primitivos muros derrubados, a fundação da Santa Casa de Misericórdia, o nascimento do Colégio dos Jesuitas, a conquista do Recvôncavo e as revoltas do gentio. Aproxima-se a fatos pertinentes ao inicio do século XVII.

   Livro fantástico, leitura obrigatória para quem deseja conhecer os primórdios da história de Salvador.