ter�a-feira, 19 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta sobre a "Formação do Brasil Contemporâneo

"Uma análise estrutura da vida social, política e comercial do Brasil no período da colonia que vai de 1546 a 1822.
19/07/2015 às 12:52
O sociólgo Fernando Henrique Cardoso em "Pensadores que Inventaram o Brasil" cita um punhado de escritores num total de dez, entre os quais está Caio Prado Jr com sua obra intitulada "Formação do Brasil Contemporâneo" (Colônia), originalmente editada pela Livraria Martins Editora, SP, na década de 1940,reeditada pela Companhia das Letras, em 2014, com posfácio de Bernardo Ricúpero e uma entrevista com Fernando Novais.

   O livro é um dos clássicos da literatura brasileira ao lado, sobretudo, de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freire; e Raizes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e aborda diferentes aspectos do Brasil Colônia que modelaram a sociedade brasileira e se constitui na matriz do entendimento do que foi o Brasil, visto até o ano de 1942, quando concluiu sua obra, mas, com sinalizações que remetem até os dias atuais dado os reflexos que o sistema colonial imprimiu no país e ao seu povo, ainda hoje, perceptível em alguns segmentos da sociedade.

   A obra de Caio Prado Jr, portanto, embora escrita no início da década de 1940, antes da II Grande Guerra Mundial, em muitos aspectos continua atual e merecedora de uma leitura detalista, uma vez que a base do que prevaleceu na colônia - comércio, escravidão, grande propriedade rual e monocultura exportadora - é imutável, é história, não se altera. 

   Outros autores podem ter visões diferenciadas de Prado Jr e até enfocar temas especificos como foi o caso de Gilberto Freire, o qual se dedicou a familia patriarcal, mas, a essência do que foi a colônia está no livro de Caio.

   O autor contextualiza seu trabalho em capítulos abordando inicialmente o sentido da colonização, em seguida os povoamentos na capital e nos núcleos do interior, as raças; a vida material - economia, grande lavoura, agricultura de subsistência, mineração, pecuária, produções extrativas, arte e indústira; comérco com suas vias de comunicação e transporte; e a vida social - organização social e politica e administração.

   De certa maneira, o autor procura dar um enfoque didático à sua obra, certamente para que as pessoas pudessem ter uma melhor compreensão de suas teses, e o livro serviu de base de estudos para muitas gerações (e ainda serve até hoje), embora, como os temas se completam e tratam de um ciclo fechado (a colonização) pode-se ler os capitulos como se queira que a compreensão poderá ser até mais dificil, porém, é a mesma.

   Quem lê a obra de Caio - o autor escreveu apenas um livro sobre a colonização - prefere, no entanto, o modelo que ele adotou, didaticamente, e os leitores vão ficando a cada capítulo mais interessados em saber onde ele deseja chegar, que conclusões retira do seu trabalho. Caio era marxista de carteirinha e sua obra tem um viés nessa direção, embora, imperceptível, dada a seriedade e profundidade com que tratou cada capítulo, sem direcionar para quaisquer sentimentos ideologizantes.

   Sintomática a sua afirmação - talvez a mais polêmica - quando diz que a única organização real na Colônia foi a escravidão. O autor deixa bem claro que a Coroa portuguesa só se interessava pelo lucro imediato sem se preocupar com o desenvolvimento e a organização social e sem dotar o país de uma infra que pudesse tornar seus produtos mercantis mais competitivos e rentáveis. 

   O Brasil - induz Caio - seria outro se o tratamento dado pelos colonizadores aos nativos (exceto segmentos da igreja católica) e aos africanos e seus descendentes que chegaram e se multiplicaram tivesse ocorrido com um mínimo de atenção com a ducação, com a cidadania.

   "A escravidão sumária e a exploração brutal do índio pelo colono o jesuita opôs a segregação, o isolamento dele. E na que se acendeu em torno desses extremos inconciliáveis, ambos contrários aos interesses gerais e superiores da colonização, e que cada vez mais se afirmavam nos seus excessos, fruto natural das paixões desencadeadas, não sobrou margem para outras soluções intermédias que teriam possivelmente resolvidos o caso". 

   Segundo Caio esse ciclo durou dois séculos - 200 anos - até que Portugal enfrenta a situação e impôe, com as reformas pombalinas de Sebastião José de Carvalho e Melo, marquês de Pombal  - emancipação e a educação laica para os indios, entre outras, e coloca o interesse geral da colonização acima dos interesses particulares. E a legislação pombalina aceitou a tese jesuítica da 'liberdade dos índios, da necessidade de educá-los e os preparar para a vida civilizada, e não fazer deles apenas instrumento de trabalho nas mãos ávidas e brutais dos colonos, do que já resultara o extermínio de boa parte da população indígena no Brasil",   conclui.

   O caso do negro é, para o historiador, mais simples. "Uniformizado pela escravidão sem restrições que dese o inicio de sua afluênbcia lhe foi imposta, e que ao contrário do índio nunca se contestou, ele entra nessa qualidade e só nela para a formação da população brasileira. Não surgiram problemas nas suas relações com os colonos brancos: nos dois séculos e meio que decorreram da introdução dos primeiros africanos até o momento que ora nos ocupa, a situação foi sempre a mesma". 

   Comenta ainda o autor: "A mestiçagem, signo sob o qual se formou a etnia brasileira, resulta da excepcional capacidade do protugês em se cruzar com outras raças. É a uma tal aptidão que o Brasil elevou a sua unidade, a sua própria existência com os característicos que são os seus. Graças a ela, o número relativamente pequeno de colonos brancos que veio povoar o território pôde absorver as massas consideráveis de negros e índios que para ele afluiram ou nele já se encontravam, pôde impor seus padrões e cultura à colônia, que mais tarde, embora separados da mãe pátria, conservará os caracteres essenciais de sua civilização".

   Observação complexa e diferenciada da colonização espanhola nas Américas e também nos Estados Unidos e no Canadá. O caso brasileiro foi impar, específico, agravado com o ócio, a vadiagem, a caboclização e o modelo puramente mercantil imposto pela Corte.

   E como a colônia seguiu seu destino adiante? Essa seria a pergunta a ser feita uma vez que de positivo e estruturante, na visão de Caio, pouca coisa resultou. 
Sem organização estruturada no seu comércio atolado em dízimos e na cobrança frequente dos impostos, com uma industria nascente mambembe e uma atividade produtiva sem vias de transporte regulares até em função do tamanho do país, continental, ademais à crescente urbanização, o país foi-se erguendo a golfadas, sem um planejamento, sem estudos e análises, sem as reformas necessárias.   

   A colonização, portanto, na visão de Caio foi mal conduzida durante séculos e vai sofrer a influência dos movimentos de independência proporcionados pelo espírito francês, especialmente na Bahia e em Minas Gerais, terá uma forte influência da Maçonaria e da Igreja, duas instituições relevantes, e se encerra sem um Norte, sem um prumo mais adequado para o Brasil.

   O autor, no entanto, só deixou como legado um livro sobre a colonização e não avançou no Brasil pós esse perído. Mas, o que escreveu e deixou para a posteridade é uma leitura obrigatória para todos os brasis que desejam entender o Brasil.