ter�a-feira, 19 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA analisa livro de Roberto Macêdo sobre MARTHA VASCONCELOS

Martha Vasconcelos mora atualmente em Salvador
14/06/2015 às 23:23
 O tema Miss é sempre palpitante e, provavelmente, ao longo dos anos quando os concursos eram mais sedutores à população, ocuparam um espaço enorme na midia impressa, no rádio e na televisão. Ainda hoje, mesmo com os concurso sem despertar aquele interesse que havia no passado mobilizando diferentes esferas da sociedade, do governador ao maquiador, ainda atrai as atenções dos brasileiros e de povos de outros países.

  Isso sem lembrar dos filhotes que os grandes concursos Miss Universo, Miss Mundo, Miss Brasil, Miss Bahia, produziram e se multiplicaram. Vemos agora, até mesmo a Policia Militar do Estado promovendo um Garota Base Comunitária para elevar a autoestima das garotas dos bairros considerados mais violentos de Salvador. O Beleza do Ébano é também um concurso de Miss. A Escolha da Rainha do Carnaval tem o mesmo formato de um concurso de Miss.
  
   Então, a propósito dessas linhas iniciais o jornalista Roberto Macêdo escreveu um livro intitulado Martha Vasconcelos (Coleção Gente da Bahia, edição Assembleia Legislativa do Estado, EGBA, 695 páginas) uma biografia daquela que foi a baiana Miss Bahia (1968), Miss Brasil (1968) e Miss Universo (1968) e encantou o mundo das pessoas que acompanhavam esse tipo de evento com sua beleza, sua sinceridade, com uma baianidade que fez com que Martha, ainda hoje, quase aos 70 anos de idade, seja essa pessoa simples e encantadora.
  
   E Roberto Macêdo, profissional da imprensa que acompanha, analisa e estuda esses concursos fez um trabalho primoroso, detalhista, utilizando-se da linguagem jornalística e de centenas de fotografias que fazem com que o livro, aparentemente volumoso para ser lido, se torne agradável, fácil de ser lido e entendido.
 
    Evidente que não é um trabalho para ser 'devorado' num final de semana de leitura, nem muito menos em dois ou três dias. Requer um pouco mais de paciência, calma, porque o livro segue uma linha, sem rodeios, sem surpresas, analisando a vida de Martha desde criança até os dias atuais. Mais completo do que isso seria impossível.
  
   Além do mais, não se trata de um livro de fofocas ou que traga algum sensacionalismo. Nada disso. Roberto segue ao pé da letra o que foi publicado na imprensa sobre Martha, entrevistou dezenas de pessoas do circulo de amizade da Miss, e foi o mais fiel possivel em seus relatos.
   
   Antes disso, peregrinou pelos caminhos da ancestralidade de Martha, nascida numa tradicional família baiana, filha de um promotor de Justiça durão, Ivo de Sá Vasconcelos, natural de Ilhéus; e de uma dona de casa mais liberal, Irene Góes Cordeiro de Almeida Vasconcelos, originária de Feira de Santana, gente da classe média alta, bem situada na sociedade, com princípios rígidos quanto aos bons costumes, a moral, o cumprimento do dever, o zelo pela formação dos filhos, traços bem característicos da sociedade dos anos 1940/1960, gerações que experimentaram o tradicional e as mudanças que aconteciam no mundo, exatamente na década de 1960, do surgimento dos Beatles, de João XXIII, de um liberalismo mais consentido. 

    E foi também, a década que aconteceu um golpe de Estado no Brasil e o ano do Ato Institucional que fechou o Congresso Nacional e acabou com as eleições democráticas no país (1968).

   O mundo das Miss's, no entanto, era outro. Não tinha que estar discutindo essas questões de natureza política. Dr Ivo, ainda assim e diante do liberalismo que abriu as portas para a juventude a partir dos anos 1970, não dava tréguas a Martha e só deixou-a participar dos concursos de Miss depois de muitos apelos. 

   A beleza de Martha era tanta, seu charme, seu ecanto, sua vivacidade de garota bricalhona e seu amor aos país e à familia, que o promotor não teve alternativa. E lá se foi a menina Martha brilhar nas passarelas da Bahia, do Brasil e do Mundo.
   
    Nada escapa aos olhos de Roberto Macêdo: as amigas de infância, as tias, os colunistas, os amores, as decepções, as virtudes, a força de vontande, o sorisso, a determinação, toda uma vida de Martha que passa por seu primeiro casamento, a chegada dos filhos, a separção, o encontro de novo amor, a vida de mártir na martaona de ser Miss Universo e os compromissos comerciais dos patrocinadores, até os dias atuais.
 Um trecho depoimento: "Ser Miss Bahia é bom, ser Miss Brasil é melhor ainda, mas, ser Miss Universo nem tanto. Apesar da grande honra, da fama, do charme, da sensação de sentir-se glamourosa e atrair as atenções de todos, no final das contas, o título de Miss Universo não passa de um contrato de trabalho como outro qualquer, talvez até mais duro. Podemos nos iludir com um eufemismo, somos uma espécie de 'embaixatriz da Boa Vontade', que deve saber cumprir bem sua missão', revela Martha.
  
     E o que pouca gente sabia, as pressões sofridas por Martha durante o reinado de Miss Universo, os compromissos empresáriais, as viagens cansativas, quase a levaram a renunciar a coroa. E veja que tudo isso se passou quando seu noivo morava em Salvador enquanto ela percorria o mundo divulgando marcas e grifes. Não fosse sua firmeza de caráter, a sua formação familiar, e aí palmas para doutor Ivo e dona Irene, ela teria mandado todo mundo às favas.
   
   Mas cumpriu a missão com estoicismo, com altivez, voltou para a Bahia sem que a estrela da fama subisse à sua cabeça, casou-se com o mesmo noivo da província, teve filhos, constituiu familia e seguiu sua vida adiante, aí sim, dona de sua cabeça para divociar-se, encontar um novo amor, ter a coragem de ir morar nos EUA para estudar psicologia, formar-se e trabalhar, até que esse novo amor faleceu e ela, firme como sempre, encontrou-se de novo com a Bahia, onde vive e mora na atualidade.
   
   Essa é a Martha que Roberto Macêdo descreve com sua pena. Uma bela história, digna, perfeita. O leitor vai se deliciar com os momentos dessa sociedade baiana, os costumes, as tradições, a familia, as Miss e o poder e assim por diante. Um retrato da sociedade dos anos 1960.

   Outro dia lí numa mensagem do facebook uma sobrinha da tia Martha chamando-a para ir comer uma comidinha de boteco e ela, espontânea, respondeu: - Vamos combinar para ir lá nesse boteco.
    
   Grande Martha Vasconcelos lindona ainda nos dias atuais, por dentro e por fora.