ter�a-feira, 19 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta o livro "Os cães nunca deixam de amar"

Uma comovente história de uma advogada norte-americana portadora de câncer de mama triplo negativo, um cão 'beagle', igualmente com câncer e um namorado inexperiente
21/12/2014 às 10:25
Um cachorro que ensinou a dona a amar. Parece uma história óbvia como é a maioria desses livros de literatura sobre cães. E são muitos os existentes no mundo, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, onde essa cultura de adoração aos cães é mais antiga e até fantasiosa. 

  Há quem dedique mais tempo e atenção a cães do que a filhos e muita gente não consegue distinguir um dos outros. A obsessão com os cães, às vezes, chega ao fanatismo e transforma casos em debates acalorados, filmes e séries de TV. Viram objetos de marketing.

   Em "Os Cães Nunca Deixam de Amar", de Teresa Rhyne (Editora Universo dos Livros, 310 páginas) a autora, uma advogada norte-americana bem sucedida profissionalmente, narra uma dessas aventuras. Após dois casamentos fracassados, a adoção de um cão e a conquista de um novo namorado, Teresa permanecia em dúvidas com o amor. 

  E, nessa nova fase com namorado mimado pela familia (Chris), não tinha a mínima ideia se esse romance seria duradouro ou como os demais que já tivera. Passageiros. Um drama complementar. Ademais, havia a questão interpessoal, entre ela e o novo namorado diante da presença do beagle, cão doce e extremamente amoroso que era sua terapia, afeiçoada a dona. O seu aconchego. 

   Essa relação a três, (sentia tanto afeto ao cão; quanto ao namorado) na cabeça da advogada, poderia atrapalhar ou impedir  que tivesse um amor mais denso com Chris. De repente, 'Seamus' - o nome do cão - tem um câncer e a doutora Teresa fica aflita entre os deveres de sua profissão e os cuidados ao animal, se vira nos 30 entre a profisssão e a correria para salvar o bicho, enfrenta a antipatia dos seus vizinhos por ela e pelo animal que latia assustadoramente quando a advogada ia trabalhar e o deixava em casa sozinho. O 'amor' a 'Seamus' era tanto que resistia em deixá-lo num hotel para cães.

   Complete o cenário com um Chris, aparentemente disperso no amor como a maioria dos jovens norte-americanos que está à procura de se firmar primeiro na profissão para só então decidir casar-se, mas este passa a acompanhar o drama da namorada e a entedê-la melhor. 

   É aí que o enredo da história vai se completando: uma avogada experiente, divorcidada duas vezes, madura; um namorado jovem, inexperiente, tentando encontrar seu espaço na sociedade e, ao mesmo tempo, 'in secret'  'apaixonado' pela advogada; e um cão que era o 'filho' que Teresa nunca teve do seu útero, mas, que, na realidade, afetivamente era um 'filho' e assim o tratava, conversava com ele como se fosse gente, o que aliás acontece com muitas donas (e donos) de cães e cadelas.

   Quando foi diagnosticado a mastocitose cutânea canina - um câncer no ânus - 'Seamus' dissera para ela ainda na clínica veterinária: 'Me leve para casa, mamãe! Vamos pra casa! Eu quero ir pra casa! A casa é legal. Me dê comida! Estou com fome mamãe! Aqui está o nosso carro! Nós estamos indo para casa! Eu amo a nossa casa! A comida está em casa! Auuuuuuuuuuuu!!! 

   E ela tentava acalma-lo falando com ele - 'calma Seamus, calma! Tenha um pouco de paciência.  
Não é fácil escrever sobre cães e seus sentimentos e isso Teresa consegue fazer sem piegusimo, com expressões contidos, embora, às vezes, algumas de suas narrativas parecem exageradas. Pode ser a impressão que temos desse tipo de comportamento de uma profissional norte-americana, nós, que temos uma cultura diferenciada e não estamos acostumados a levar um cão para fazer uma tomografia, viajar 100 km para internar um animal numa clinica especializada em câncer e assim por diante.

   Quando parecia que não haveria um equilibro de comportamento entre os três personagens, e Teresa temia que Chris a largasse, que Chris entedesse que ela estava mais preocupada com o cão e seu câncer do que com ele, ela sequer notava que o jovem a amava, eis que a doutora Teresa descobre que é portadora de um câncer de mama triplo negativo, daqueles mais violentos.

   Como diz o próprio titiulo do livro "Os cães nunca deixam de amar", parece que o animal compreende o sofrimento de sua dona com a doença fatal, um câncer de mama dos mais violentos, a relação entre os três se aprofunda e o enredo caminha para um final feliz.

   É claro que até encontrar a felicidade com as curas das doenças do animal e dela e ter a percepção do amor de Chris e vice-versa, a autora leva o leitor aos corredores de hospitais veterinários e humanos, descreve em detalhes os tratamentos que foram aplicados, o comportamento de médicos tanto os veterinários quanto os humanos, a doutora Patricinha Fresca, o doutor especialista Karam, cauteloso como todo bom médico, e a narrativa fica bastante interessante para o leitor porque ele se insere no contexto da história como se estivesse também participando de tudo aquilo, que estivesse ajudando a curar o animal e a advogada, se envolve de tal maneira que o livro se torna inseparável.
 Nesse aspecto, a narrativa passa a ser didática. A quantidade de informações que a autora passa aos leitores (as) sobre o câncer de mama e as formas de tratamento são surpreendentes e interessantes para os leigos nessa matéria.
Narrar história com cães, salvo as relacionadas à ficção ou a literatura infantil, é uma tarefa complicada. Exige sentimentos à flor da pele, equilíbrio, sensatez, e isso a doutora Teresa faz muito bem, com criatividade, descrevendo uma história que não é usual - dois cânceres numa mesma familia e um caso de amor - fazendo com que os leitores acompanhem o desfecho da história até o final, com prazer.

   Para quem está acostumado a conviver com cães, então, o livro é uma maravilha. É daqueles que se compra vendo a capa exposta numa livraria e não se arrepende. Comprar um livro pela capa, sem uma referência maior, é também uma arte, um bom sentido. E quem se der aos cuidados de ler "Os cães nunca deixam de amar", vendo aquele beagle lhe olhando na capa, vai adorar o livro. Puro amor.