ter�a-feira, 19 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta sobre um dos melhores livros sobre o México

Um livro que mostra o pensamento desse pais maravilhoso que é o México
09/11/2014 às 08:53
   Rever textos de grandes autores é sempre prazeroso e proveitoso. É uma aliança entre a satisfação de apreciar um bom ensaio, deleitar-se com uma narrativa de categoria, um momento de adquirir saber, de incorporar novos conceitos, ter acesso a novas culturas e também atualizar conhecimentos adquiridos.

   Então, relendo Octavio Paz em "El Laberinto de la Soledad" (O Labirinto da Solidão) (Editora CFE, México, 350 páginas) em espanhol, isso fica ainda mais gostoso. O livro é a alma do México. Creio que poucos foram os autores que retrataram tão bem esse encantamento sobre este país repleto de lutas, de assombrações, de magias, de guerras e de uma religiosidade profunda. 

   Octavio Paz não é um escritor qualquer. El Laberinto foi escrito em meados do século XX e é uma das obras mais importantes sobre o pensamento mexicano com interpretações psicológicas e metafísicas da cultura andina, a individualidade mexicana e seus conflitos com a civilização ocidental.

   "A história do México é a do homem que busca sua filiação, sua origem. Sucesivamente afrancesado, hispanista, indigenista, poncho, cruza a história como um cometa de jade, que de vez em quando relampeia. Querem voltar a ser sol, o centro da vida na conquista ou na independência", cita o autor sem medo dos criticos nativistas.

   Ao comentar sobre os "pachucos" jovens mexicanos que ingressaram e vivem nos EUA é revelador. "Por caminhos secretos e ariscados 'el pachuco' intenta ingressar na sociedade norte-americana mas ao mesmo tempo se veda ao acesso. Desprendido de sua cultura tradicional, o "pachuco" se afirma um instante como solidário e reto. Nega a sociedade de que procede e a norte-americana. Se lança ao exterior não para fundir-se. Gesto suicida por "el pachuco" não afirma nada, não defende nada, exceto sua desesperada vontade de não-ser".

    Os ensaios de Paz e o conjunto de sua obra com seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna e de vanguarda, conferiu-lhe o Nobel de Literatura, em 1990.

   O que representa o México? Qual a síndrome de pequenes que vive o povo mexicano diante do seu vizinho EUA? O que significam a religiosidade, o papel da mulher na sociedade, o homem, a familia e o humor na vida dos mexicanos, uma herança que vem da época da cultura pré-hispânica - dos incas, mayas e toltecas, entre outros?

   A cultura mexicana tem raízes tão profundas e antigas que, nem a colonização hispânica; nem a contemporaneidade com a aldeia global conseguiram modificar alguns costumes da sociedade, ainda muito apegada a sentimentos imútáveis. 

   Para todas essas questões Octavio Paz tem respostas com teses bastante convincentes, bem fundamentadas, vivencidades, algumas delas passíveis de críticas mais ácidas aos olhos da atualidade, como sobre a submissão da mulher mexicana e seu papel na sociedade, mas, ainda hoje reais sobretudo em zonas rurais do país. Ainda é possível ver esse comportamento submisso das mulheres na vida atual .

   Vida e morte se entrelaçam na cultura dos mexicanos Para os antigos povos a vida se prolongava com a morte. A morte não era o final natural da vida, senão a fase de um ciclo infinto. 

   Na opinião de Paz, a "morte mexicana é um espelho da vida. Ambas, o mexicano as ignora". E ressalta: "O mexicano obstinadamente fechado ante o mundo e seus semelhantes se abre a morte? Adula, festeja, cultiva e se abraça a ela, definitivamente e para sempre, mas não se entrega".

   A herança cultural do sacrificio que vem da época dos astecas não é mais pratica, mas, ainda é muito forte na cabeça dos mexicanos.

   Já a vida é, senão, uma metáfora; uma invenção com que a morte, também ela, quer se enganar. Sábia essa observação do autor.

   Paz acentua que "um  mexicano é um problema sempre para outro mexicano e para sí mesmo" e todas suas relações estão envenenadas pelo medo e pelo receio. 

   Parece catastrófico, mas, faz parte da cultura dos mexicanos. Segundo Paz, é revelador que a naturalidade do povo só aflorte nas festas, com o alcóol e diante da morte diante de um caldo de cultura onde, com frequência, os politicos confundem os negócios públicos com os privados.

   Na complexidade do entendimento da sociedade mexicana, a imagem do Deus pai, encarna um poder genérico que foi passado ao patriarca, o pai normal, que, no México, tem uma conotação especial,El macho, el Grande chingón, o que se configura em poder.
 Conceitua Paz: "A palavra chingar com todas essas múltiplas significações, define grande parte de nossas vidas e qualifica nossas relações com o resto de nossos amigos e compatriotas. Para o mexicano, a vida é uma possibilidde de xingar e ser xingado. Humilhar, castigar e ofender; ou vice-e-versa".

   No âmgo da questão estão as relações politicas, o caudilhismo, o espanhonelismo e todo um caldo de cultura envolvendo revoltas, guerras, a conquista do poder e a necessidade de se construir uma sociedade igualitária, ao menos que se possa parecer forte nas relações com o mundo preservando a sua base cultural.

   "El Laberinto de la Soledad" é um dos melhores livros que alguém já escreveu sobre o México, seu povo e sua alma. Um livro que mexe com a cabeça do leitor, que põe o leitor para pensar e que o remete também para seu país, se for brasileiro, por exemplo, no sentindo de enxergar, ver tantas diferenças culturais entre os povos.