ter�a-feira, 19 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta "Sonho Grande", de Cristiane Correa

Trabalho duro e persistente, ousadia, coragem e modernidade
06/04/2014 às 13:54
  Livros sobre empresários de sucesso são comuns no mundo da literatura acerca de economia e negócios. Normalmente retratam cases em primeira pessoa e/ou relatos a jornalistas revelando como conseguiram suas proezas e maravilhas de marketing no mundo da riqueza. Um dos mais famosos e emblemáticos é a biografia do presidente e fundador da Sony, Akio Morita. Sua empresa multinacional representa uma máquina de inovar, uma marca que nasceu em 1947, se mantém dinâmica ate os dias atuais e continua sendo top de linha mundial.

   Em "Sonho Grande - como Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira revolucionaram o capitalismo brasileiro e conquistaram o mundo", de Cristiane Correa, prefácaio de Jim Collins (Editora Primeira Pessoa/Sextante, 242 pag, RJ) essa acertiva não foge à regra, salvo que os relatos não estão em primeira pessoa, mas, fruto de entrevistas e análises das vidas dos três bambas da economia brasis. 

   Gratificante no livro é o registro de que se trata de um grupo de brasileiros que conseguiu se tornar multinacional. Não é pouca coisa. 

   A rigor também não representa uma biografia, pois, os três brasis ainda estão vivos e suas trajetórias em movimernto. O que chama a atenção no trabalho de Cristine é o modelo de disciplina adotado pelo trio, bastante assemelhado em austeridade e persistência a outros grandes do empreendedorismo mundial, revelando que, sem trabalho duro e obstinado, sem conhecimento do mercado, não há êxito, salvo alguma coisa esporádica, um lance de oportunismo. 

   O importante, no entanto, está na persistência, na solidez dos negócios, na coragem de assumir riscos calculados e na visão mercadológica global.

   Sem esses artibutos, sem entender que a aldeia global também é Brasil, Lemann, o líder maior do triunvirato, Telles e Sicupira não teriam alcançado tanto êxto. Veja que, recentemente, Lemann, apontado pela Forbes como o empresário mais rico do país e um dos maiores do mundo, aos 75 anos de idade, optou por comemorar seu aniversário com um seminário na Universidade de Harvard, nos EUA, levando para esse evento algumas cabeças pensantes do Brasil.

   O título do livro "O Grande Sonho" se encaixa bem na personalidade dos três. Revela que, nesse meio, como tanto se fala em sonhos, objetivos, metas, desejos, a meritrocracia é fundamental, daí que o padrão do Garantia, a base do grupo, foi da eficiência com os funcionários se tornando acionistas. Longe da burocracia e de um emprego fixo e duradouro, todos tinham que participar, correr riscos, demonstrar eficiência e, para tanto, nada melhr do que serem sócios dos negócios. 

   Diz-se que o olho do dono é que engorda o gado. Mas, para isso, o camarada tem que acordar cedo, trabalhar muito e ser capacitado. E o rebanho todo tem que atuar em sintonia. Pouco adianta o dono da boiada apenas trabalhar com afinco. Toda peãozada também precisa participar, dividir acertos e riscos.

  Esse trio criou um marco no capitalismo brasileiro e isso não aconteceu por acaso, num lance de sorte ou porque ganhou na loteria. Nada disso. Jorge Paulo Lemann nesceu no Rio, em 1939, e em 1961 já havia concluido em três anos, o curso de economia em Harvard. Sicupira  e Marcel também nasceram no Rio, em 1948 e 1950, respectivamente, e vão trabalhar juntos no corretora Garantia, no início da década de 1970. Daí pra frente, sempre, uma trajetória de muito trabalho, até que o J. Morgan compra a corretora e Lemann decide criar um banco de investimentos fundando o Garantia, em 1976.

  Em 1982, o Garantia compra a Lojas Americanas e Beto Sicupira deixa as funções do banco para comandar a varejista. Em 1989, por 60 milhões de dólares o Garantia adquire a cervejaria Brahma e Marcel se afasta do dia a dia do banco para tocar a empresa. Em 1993, o trio funda o GP Investimentos a primeira empresa de private equity do Brasil. Em 1994, o Garantia tem 1 bilhão de dólares de lucro, mas, abalado pelos efeitos da crise asiática de 1998, é vendido do Credit Suisse por 675 milhões de dólares.
Em 1999, a Brahma compra a rival Antarctica e funda a Ambev. O trio vende todas as ações do GP Investimentos e criar o 3G fundo cujo objetivo é investir em empresas norte-americanas. Em 2004, a belga Interbrew compra a Ambev formando a Inbev, e Lemann, Beto e Marcel se tornam com o passar do tempo os maiores acionistas individuais. Em 2006, a americanas.com, braço do comércio eletrônico das Americanas, compra o Submarino, fundado pelo GP Investimentos em 1999.

   Em 2008, um dos saltos mais ousados, a InBev compra a americana Anheuser-Busch, fabricante da Budweiser, símbolo do capitalismo norte-americano, por 52 bilhões de dólares. A nova empresa batizada de AB Inbev é a maior cervejaria do Planeta. Em 2010, por 4 bilhões de dólares, o 3G compra o controle mundial da Burger King e, em 2013, adquire a Henz por 28ilhões de dólares em sociedade com Warren Buffet.

   Pois é, esses garotos do surf, das praias cariocas, da pesca submarica são o exemplo de que o sonho grande é possível.