ter�a-feira, 26 de outubro de 2021
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

Mulher do Rasta do Pelô procura doença e está com zumbido

Bem que a irmão dela, dona Rilza Cervejão avisou: - Não vá procurar doença minha filha. Quem procura acha.
14/10/2013 às 10:18
Quando a gente era pobre nunca tinha feito um "chek-up" médico na vida. Pra falar a verdade, a gente sequer tinha ouvido falar nessa palavra inglesa, quanto mais ficar mexendo no corpo procurando doença. 

  Na moral, quando eu tinha uma dor de barriga pedia a dona Céu pra ir no quintal pegar cinco folhas de boldo ela fazia um chá forte, eu tomava o produto morno numa caneca de alumínio, dava três ou quatro ventos, ia ao banheiro e ficava bom. Se fosse dor de cabeça ia na farmácia da Freitas Henrique de Baixo comprava um melhoral e pronto. Tanto que aqui em casa tenho pé de romã, pé de abacaté, pé de boldo, pé de bucha, pimenteira, roseira, para essas serventias.

   Depois que viramos classe C emergente, graças ao nosso "Rei Sol" dona Céu invocou que deveria fazer um "chek-up" (até dobrou a língua para pronunciar esse nome e fica dizendo para eu ouvir que "dona Tati já fez", que "Tina Copo também já fez", que sua tida dona Perfume "já fez foi dois" que eu disse: - Já que você quer vai no ZVida ou SUS e faz. 

   Só lembrei a ela um conselho de sua própria irmã Rilza Cervejão que esse negócio de procurar doença não era com ela. E sendo pessoas quase da mesma idade, mulheres 4.0 em diante, preferia era comer sua moqueca de bacalhau na casa de mãe com, claro, um cerveja bunda de foca.

   O certo é que dona Céu fez os tais dos exames, ainda me disse uns leros que não iria ao SUS coisa nenhuma por isso é que pagava seu plano de saúde no ZVida (passou foi o cartão do plano no meu nariz) e apareceu logo com duas enfermidades que nunca teve, um tal de zumbido no ouvido e arritmia no coração. 

  Eu bem que avisei porque antes dela fazer esses exames não sentia nada, comia de tudo, tomava sua gelada, saboreava seu acarajé, já experimentou até vinho argentino, vinho branco chileno, e agora me aparece com essas coisas dizendo que não pode comer isso; que não pode comer aquilo, que está é me deixando zonzo. 

   Daí que liguei para meu conselheiro de todas as horas, Badu, o intelecutal de bigode pedindo uns pitacos.

   - Zumbido é besteira. Eu mesmo ouço um galo cantar toda noite. Agora, a arritmia cardíaca acho bom ela procurar mais de um médico para ter um diagnóstico preciso", respondeu Badu pelo telefone direto de Floripa.

   - Isso ela já fez por sugestão de Dr. Zéu, o qual embora seja advogado diz que conhece do ramo médico mais do que muita gente, e o resultado foi que um médico disse uma coisa e outro disse outra - comentei explicando que o zumbido da abelha em seu ouvido também perturba muito.

   - É isso mesmo. Os médicos adotam duas ou três correntes clínicas e nunca se sabe o que eles querem - aduziu Badu.

   - Um  mandou que ela tomasse bloqueadores para que o coração não ficasse disparando e outro passou foi um livro chinês dizendo que ela só deveria comer folha, deixasses de tomar café, deixasse de comer carne e ovos, jogasse os remédios fora, que iria ficar boa do coração e do ouvido - expliquei.

   - Compadre...eu se fosse você consultava um acadêmico para tirar essas dúvidas. Por que você não procura o Dr Martins, lá da Feira, o homem é bom nesse negócio do coração - recomendou-me Badu.

   - É uma. Vou falar com ele.

   No dia seguinte coloquei dona Céu para falar com Dr Martins e aí a confusão aumentou. 

   O doutor ao invés de procurar saber a densidade da arritmia da mulher fez foi perguntar por mim, "de como estava a saúde do Rasta" e quando dona Céu disse que eu estava com umas placas de gordura nas artérias, ele respondeu que "era bobagem" e que o caso dela, sim, era mais grave, com "20% de chances mairoes" dela ir conversar com os anjos do além.
Ainda assim, o doutor acadêmico recomendou que ela seguisse a linha tradicional tomando os remédios, os tais bloqueadores, e que comesse seu peixinho, sua moquequinha de arraiá, seu acarajé com pimenta.

  Que coisa! A mulher só não empirulitou porque classe média emergente já sabe usar a internet e pesquisou sobre o assunto, foi fundo sobre a matéria, colocou uma pomada branca nos ouvidos com o adjutório de dona Tati, e me chamou foi pra ir a terça da benção no Pelô, tomar uns gorós na Topázio e assitir a um show folclórico de maculelé.

   E assim fizemos, nos divertimos à mancheia e voltamos para casa numa alegria enorme. Nem a arritmia voltou nesta noite memorável; nem minhas placas de gordura incomodaram, subi foi a ladeirinha de casa sem me cansar e ainda fizemos aquela noite de lua de mel.

  Só não foi melhor porque a gente ainda não tem dinheiro para ir a Noronha. Mas um dia a gente chega lá.