Matéria publica pela Folha de SP deJOÃO PEDRO PITOMBO, MARINA PINHONI E NICHOLAS PRETTO
DOM MACEDO COSTA, BA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Da Redação , Salvador |
18/10/2026 às 20:39
Flávio perde para Lula no NE, mas diferença de votos diminuiu em relação a campanha de 2022
Foto: REP
Na rodovia que leva ao centro de Dom Macedo Costa, município de 4.407 habitantes do Recôncavo Baiano, bandeiras verde e amarelas estão penduradas nas portas das casas. Um comitê instalado na praça central, junto à prefeitura, distribui adesivos a apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL).
A cena era inimaginável em 2022, quando Lula (PT) chegou a 71,5% dos votos na cidade contra 23,5% de Jair Bolsonaro (PL). Mas o cenário eleitoral local foi reconfigurado: Lula ainda ganhou em 2026, com 59,3% dos votos, mas Flávio chegou a 35%. Uma diferença que era de 48 pontos caiu para 23,7.
O cenário se repetiu em outras cidades nordestinas. Levantamento da reportagem aponta que a diferença de votos entre Lula e os candidatos da família Bolsonaro caiu em 98% dos municípios do Nordeste, comparando os primeiros turnos das eleições de 2022 e 2026.
A região segue como principal reduto do petista, que teve 21,5 milhões de votos nos nove estados nordestinos. Mas Flávio cresceu comparado a Jair e chegou a 10,4 milhões de votos, um avanço de 18,3%.
A diferença de Lula frente aos Bolsonaro teve uma queda maior em cidades pequenas e médias com influência do agronegócio. A queda de Lula e ascensão de Flávio também aconteceram em municípios que passaram a ser comandados por prefeitos de oposição do PT.
Foi o caso de Caldeirão Grande, de 13 mil habitantes, no sertão baiano, onde o prefeito Pedro Henrique Bezerra (PP) apoiou Flávio Bolsonaro e o ajudou a ampliar sua votação comparada à do pai.
Há quatro anos, Lula teve quase 79,5% na cidade, ante 15,5% de Jair Bolsonaro. Agora, o petista teve 68%, contra 28,5% de Flávio. Assim, a vantagem que era de 64 pontos percentuais caiu para 39.
O cenário foi parecido em localidades com a influência do agronegócio. A vantagem petista caiu em municípios como Formosa do Rio Perto e Baianópolis, produtoras de grãos no oeste do estado, e em Barra da Estiva, cidade da Chapada Diamantina conhecida pela produção de morangos.
Em Dom Macedo Costa, no Recôncavo, o prefeito Tote Fróes (União Brasil) apoiou Flávio no primeiro turno e agora trabalha para ampliar o percentual de votos do aliado na cidade.
“Graças a Deus a gente fez um bom trabalho. E também tem o desgaste do PT, são 20 anos no poder e tudo tem um limite, né? Agora está na hora de mudar”, afirmou o prefeito. Ele foi eleito para a prefeitura em 2024 após um ciclo de oito anos de gestão do PT na cidade.
Prefeito de 2017 a 2024, o agente comunitário de saúde Guito (PT) afirma que o crescimento de Flávio na cidade foi impulsionado pelo poder econômico do adversário. “Esse grupo político tem muito dinheiro. A gente não tem recurso e fez uma campanha de porta em porta, conversando com as pessoas”, afirma.
Dom Macedo Costa é uma cidade com as contas públicas fortemente dependentes de transferências governamentais. Em 2025, a prefeitura teve receita de R$ 35,1 milhões, sendo R$ 1,1 milhão com a arrecadação com impostos e taxas municipais.
A base da economia é a pecuária, a agricultura de subsistência. Ao todo, 850 famílias da cidade são atendidas pelo programa Bolsa Família.
Na zona urbana, o eleitorado é mais conservador. O mecânico Manuel Fróes, 40, que trabalha com venda de autopeças, votou no PT até 2006, quando passou a se alinhar com candidatos da direita. Era uma minoria entre os eleitores de Dom Macedo Costa, mas agora vê uma cidade mais dividida.
“O que falta é gente com peito dizer assim: "minha posição é essa". Porque o petista tem a posição dele, bota a bandeira dele, a estrela, e sai. A direita também tem que botar a sua bandeira”, avalia.
Na comunidade Pinga Fogo, na zona rural da cidade, eleitores do PT têm adesivos do partido colados na parede de suas casas. A lavradora Jacilene Oliveira dos Santos, 38, diz que o voto em Lula é uma escolha consolidada na família, associada à redução da pobreza.
Ela demonstra preocupação com eventuais cortes de benefícios sociais e diz que os mais jovens não compreendem os efeitos de um possível retorno da família Bolsonaro à Presidência: “Essa mocidade é inocente, não sabe nem o que é a vida ainda. Temos que olhar pelos nossos filhos.”
No mesmo povoado, a dona de casa Eliete Bahia, 45, votou em Flávio Bolsonaro por desejar mudanças nas políticas de segurança pública. Beneficiária do Bolsa Família, ela diz não temer que o programa seja interrompido caso Lula deixe a Presidência: “Quem entrar, continua tudo a mesma coisa”.
Na casa vizinha, Mércia Pires Oliveira, 40, tem uma bandeira do PT hasteada na porta de sua casa, mas votou em Flávio Bolsonaro no primeiro turno o petista da família é o marido dela. Agora, diz que vai votar em branco. “Não quero me responsabilizar por nada que aconteça”, afirma.
No centro da cidade, o comitê do União Brasil que fez campanha para o candidato ao governo ACM Neto foi transformado no quartel-general de Flávio Bolsonaro. Na quarta-feira (14), o prefeito recebeu deputados aliados e prometeu engajamento na campanha.
Ao todo, somente 9 dos 417 prefeitos da Bahia apoiaram Flávio no primeiro turno. Agora, o número de gestores municipais aliados passa de 40, aponta o presidente estadual do PL, João Roma, ex-ministro de Bolsonaro.
O melhor desempenho de Flávio Bolsonaro dentre os nove estados do Nordeste foi em Alagoas, seguido do Rio Grande do Norte e da Paraíba.
A cidade do Nordeste em que o cenário político mais mudou em quatro anos foi Baixa Grande do Ribeiro, município de 13 mil habitantes no sul do Piauí. Lá, a diferença entre Lula e os Bolsonaro caiu cerca de 29 pontos percentuais em quatro anos.
Ao contrário de 2022, a eleição deste ano teve uma militância mais ativa dos grupos de direita, que organizaram carreatas acompanhadas por paredões de som e marcadas por um clima de festa.
“A juventude da cidade se mobilizou bem na campanha. Na eleição passada não houve isso”, afirma o contador Martins Josenilton, 40, um dos organizadores dos atos em favor do PL.
Baixa Grande tem a economia ancorada na produção de soja e é comandada por um prefeito do PT, mas de perfil centrista. O abastecimento de água é apontado como principal problema da cidade moradores criticam a privatização da estatal de água conduzida pelo governador Rafael Fonteles (PT).
Ao todo, Flávio Bolsonaro venceu em 15 cidades nordestinas que Jair não havia vencido há quatro anos. Dentre essas, a que teve maior diferença comparada ao cenário de 2022 é Balsas, cidade do sul do Maranhão ligada ao agronegócio.
Lula, por sua vez, ampliou sua margem de votos em apenas 30 das quase 1.794 cidades nordestinas. A maior ampliação da diferença em favor de Lula aconteceu em São Julião e Pedro Laurentino, ambas no Piauí, além de municípios do sul da Bahia como Itaju do Colônia e Pau Brasil.
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