A violência é um tema que merece uma análise mais aprofundada de todos os atores do Carnaval
Tasso Franco , Salvador |
01/03/2026 às 18:36
A revista da PM nos portais está superada do ponto de vista tecnológico
Foto: BJÁ
O CARNAVAL DO FUTURO
Alguns leitores têm me pedido para comentarmos sobre o que vai acontecer no Carnaval de Salvador daqui a 10/20 anos e decidi fazê-lo tomando como marcos temporais os anos de 1999 (quadricentenário de Salvador) e 2030 (ano que os cientistas estão cravando como o fecho da primeira fase das mudanças comportamentais da computação e teremos mais computadores e robôs operando no mundo do que humanos) e o ano longínquo de 2049, quando a cidade completará 500 anos de existência.
O que vou escrever são possíveis tendências com bases nas observações desses marcos temporárias (1999-2026) já passados e que apontaram algumas dessas mudanças, e algo entre 2030-2049.
A primeira tendência que está se consolidando é o avanço da comunidade LGBT que se expandiu para LGBTQIAPN+ e pontos que no passado marcaram espaços de ocupações dessa comunidade – escadarias da Praça Castro Alves, áreas da Faísca, Beco do Off, Beco das Cores – deixaram de ser atrativos segregados e a cidade como um todo foi ocupada. Ou seja, o Carnaval de Salvador ainda não é um Carnaval Gay, no todo, mas tende a ser vendido assim (já está sendo) nalgumas praças mercadológicas do país, pois, essa comunidade além de ser mais educada tem o que se chama de PIB médio. Pode gastar (e gasta), fora estadia e translado dos seus estados R$1.000,00 a R$2.000,00 por dia num bloco sem lhe fazer falta. É um negócio que vai avançar na direção da camarotização (dupla BC).
O beijo, também chamado de beijo roubado que havia no passado recente, entre homem x mulher (e o Gandhy trocava colares por coladas) resultou em nome de bloco e músicas, agora, se mantém noutra esfera homem x homem (mais acentuado) e mulher x mulher, com as variações da tabela LGBTQIAPN+
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A segunda tendência é a expansão dos camarotes com as prestações de serviços usando as novas tecnologias. Será admissível que na década 2030-2040 alguns desses camarotes tenham helipontos para drones e carros voadores que deixarão os clientes nas plataformas dos camarotes. Hoje, há uma prestação de serviços em automóveis blindados e seguranças uniformizados entre hotéis e camarotes; e ou residências e camarotes.
A camarotização do Carnaval se iniciou na Rua Chile, se ampliou para Av Sete e ganhou uma nova dimensão exatamente a partir de 1999, na Barra, com o pioneirismo da dupla Licia Fábio/Daniela Mercury. Nessa época Daniel puxava um bloco e passava no camarote na hora do JN dando um show e divulgando a novidade para o país.
Esse modelo evoluiu com enormes camarotes que proporcionam shows/festas exclusivos para seus clientes. Quem quiser olhar a passagem de um trio que olhe, mas, não precisa mais. Ou seja, o modelo Licia/Daniel se aperfeiçoou para Glamour/Salvador, etc, com bailes.
Do ponto de vista da história essa é uma tendência retrô moderna. Ou seja, o Carnaval da Barra começou nos clubes a partir da implantação do Bahiano de Tênis, 1919; e, ao contrário do que se diz, não foi só da elite: havia o Democratas e o Palmeiras, da turma do PIB baixo. Nos anos 1980/1990 com a decadência dos clubes (não necessariamente por causa do Carnaval) o Momo ganhou as ruas da Barra (a Banda do Habeas Copus completou 48 anos) e, já a partir de 1999/2000 ficou misto rua/clube no modelo camarote.
A diferença é que, nos balles dos clubes as famílias compravam mesas e a festa era nos salões, mas no Bahiano de Tênis a festa foi para as quadras de tênis e havia locais para famílias chamados camarotes.
Essa tendência da camarotização tende a se acentuar devido a violência praticada pelos foliões nas ruas. Quem pode pagar diz: - Lá não vou naquele furdunço, me machucar. E como há um público disposto a isso, o folião de maior PIB, os empresários entram em cena.
Entra, portanto, em jogo, a lei do mercado. Nesse jogo, inclusive, pode se configurar (mais adiante) movimentos da economia do compartilhamento, que já vem acontecendo nos camarotes que não têm empregados tradicionais, fixos, e sim contratados no sistema co-working e de autonomia compartilhada (co-freelancing). Ou seja, terminou o Momo, cada qual recebeu o seu devido, estmos quites. Essa é uma tendência a se acentuar e vimos, no Carnaval 2026, marcas como iFood, Mercado Livre, Zé Delivery, em destaques.
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Outra tendência em ascensão é o Carnaval pipoca ou sem cordas que nasceu exatamente como movimento mais livre, de puder pular o Momo fora das cordas dos blocos chamados de elite (outra designação errônea, pois, nem todos eram de elite), movimento inicialmente dos artistas, e que foi encampado pela Prefeitura e pelo Estado.
Esse Carnaval, no entanto, por ter se tornado politico (e onde a política entra a cultura sai pela porta dos fundos), cresceu, inchou (não evoluiu, pelo contrário) e virou um pacotão engessado, sem identidade. E até os blocos afros, que entraram nessa onda estatizante, foram engolidos pela multidão e desapareceram ou não conseguiram passar mensagem alguma em 2026.
Ora, a estatização do Carnaval não saberia dizer se seguirá adiante ou não, pois, pode entrar um novo governador e dizer que não vai bancar essa farra com o dinheiro público; o mesmo com o novo prefeito. Trata-se, em síntese de um Carnaval que, aparentemente é democrático, aberto a todos, gratuito, porém, quem paga a conta é folião. Dinheiros do Estado e da Prefeitura são de impostos dos contribuintes, dos pobres e dos ricos. Mas, passa-se a ideia de que é um Carnaval para o povo, gratuito e democrático.
Mesmo o folião de baixíssimo PIB se comer um sanduiche no Carnaval de R$10,00 estará pagando de ICMS R$1,70 que vai para a conta SEFAZ/Carnaval. Ele paga sem sentir e ainda é enganado. E os artistas embarcaram de cabeça nesse processo, pois, não precisam organizar blocos, ter escritórios, vender carnês, etc, e só receber a gaita governamental. Os artistas, em suma são os que mais estão ganhando com isso.
E onde está a democracia desse Carnaval? Onde está a cultura com uma multidão pulando e se socando, brigando como se estivesse num rinque de boxe?
A fantasia do folião pipoca é bermuda, sunga e tênis, sem camisa. Só faltam colocar luvas. E as mulheres também entraram nesses boxes coletivos e a PM sem ter alternativas de controle amplia a violência com os cassetetes, chamados neste 2026, de “bastões educativos”.
Isso não é Carnaval: é o sepultamento da cultura carnavalesca e mede-se o artista Y ou X pela quantidade de gente. – Olha, fulano puxou uma multidão.
Ou se muda essa tendência ou quem perderá com isso será Salvador, não tenho dúvida disso. No circuito Barra-Ondina só num dia os postos de saúde da PMS atenderam mais de 200 foliões com bocas e narizes quebrados e atingidos por socos.
Outro detalhe é que as empresas privadas estão fora esse circo e investem nos blocos com cordas e camarotes (ampliaram os investimentos sobretudo no Salvador, no 2222, no Licia/Brown, Harém, Glamour) e deixa que as estatais se encarreguem disso. Ora, a BahiaGás, que é uma estatal, que vive dos impostos, gastou R$7 milhões nessa farra. A BahiaGás não é empresa de cultura. Ganhou o que com isso? Nada. Supostamente, favoreceu a marca governo. Se fizer uma pesquisa e perguntar se alguém viu isso no Momo, certamente o número será baixo.
Marca se fixa e se vê numa coisa grandiosa como foi o caso da Brahma que além de estar em todos os cantos dos circuitos trouxe Carlo Ancelotti como garoto propaganda e encheu a TV de vídeos propaganda. Mas, não cabe a Brahma cuidar da cultura; nem da BahiaGás e sim de outros atores, o que não aconteceu.
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Uma coisa puxa a outra: falemos, pois, da violência. O Carnaval está sendo caracterizado por sua violência e as redes sociais da internet que não têm fronteiras espalharam para o Brasil e Ocidente-Oriente milhares de imagens mostrando essa violência. Alguém da India ou da China, mercados emergentes do turismo, se interessariam em vir para o Carnaval? Duvido.
E se no Brasil, os outros estados já aprenderam a fazer o Carnaval de rua, especialmente Minas e SP que eram dois mercados que mandavam muitos foliões, não veem mais. Pelo contrário: levaram nossos artistas como fizeram com Ivete Sangalo, tendência paralela (vide new economia Gig ) a crescer.
Como enfrentar esse problema? O tema é bem antigo desde o tempo em que “Os Apaches” era o bloco terror e a SSP já experimentou de tudo, inclusive de jaulas contêineres. Nos últimos anos, a PM (que é quem usa 30 mil homens e está mais a frente desse combate) adotou a estratégia de não prender mais foliões e foliãs porradeiras e separa as brigas com os bastões educativos. Ou seja, dispersam as porradas. É um enxugamento de gelo permanente e a imagem da cidade vai para o espalho via What’s App, YouTube, etc.
Educar essa massa de 1 milhão de foliões é impossível salvo se houvesse um trabalho em grande escala durante todo o ano. Ninguém vai fazer isso. Entender porque o baiano ficou tão violento! Não conheço estudo sobre a matéria.
Essa tendência fica em aberto. Tende a seguir adiante, mas, não saberia dizer o que vai acontecer com ela.
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Alinhamos, portanto, algumas tendências do Carnaval pelo menos até 2030. Como tantas mudanças tecnológicas em andamento é quase impossível se prever algo a médio e longo prazos. Por exemplo: a revista dos foliões nos portais da PM está tecnologicamente ultrapassada. Há, hoje, sistemas eletrônicos que permitem fazer essa revista automaticamente, como os que funcionam os aeroportos. E, inclusive com medidores (da quantidade de gente, o que em Salvador, no Carnaval, é chutado).
É possível que tenhamos no decorrer da década de 2030-2040 um trio elétrico comandado por artistas robôs tocando guitarras, bateria, surdos e cantando. Quando Alok veio pela primeira vez para o Carnaval foi uma surpresa o som eletrônico comandado por apenas um man num grande trio. Em 2026, pouca gente deu atenção a Alok. As pessoas são movidas por novidades e querem o trio robô.
Também será viável um palco no mar cercado de lanchas e foliões brincando o Carnaval. Vimos, em 2026, crescimento do número de lanchas no mar da Barra.
Quanto aos blocos afros foram engolidos pela multidão e perderam visibilidade. Também precisam reciclar seus temas e enxergar a África moderna e não somente a África ancestral. Ou seja, a Bahia (Salvador) fala mais da África do que a África da Bahia. Cairo, maior cidade da África, 20 milhões de habitantes e muito cantada na Bahia (o Egito) não manda um folião para o Carnaval.
Tem como mudar essa relação? Tem, mas precisa de muitas análises e participações de universidades que estão distantes do Momo como o homem da lua.
Sobre a organização dos desfiles, quem entra primeiro, etc, cabe ao COMCAR. E sobre mobilidade, direito e ir e vir dos moradores onde acontecem as festas são assuntos relacionados a PMS e MPBA, equacionáveis.
Sobre a superlotação dos dois circuitos principais Dodê e Osmar cabe um estudo mais detalhe e controles.