Um pouco sobre a atualidade política de nossa província e sua relação com ambientes da corte
Tasso Franco , Salvador |
31/01/2026 às 18:10
Paulo Fábio Dantas comenta
Foto: rep
O raciocínio desse artigo de Rodrigo Daniel (Lula não está nem ai para a eleição de Jerônimo e só pensa no Senado) é instigante. Considero-o um autêntico repórter por vocação, que tem se afirmado também como um comentarista arguto. É o que vejo acompanhando seus textos sobre a política baiana.
Comecei a ler, com muito interesse também, o livro que ele escreveu juntamente com Vitor Hugo Soares e Victor Pinto, este também um jovem talento do nosso jornalismo político e aquele uma referência das melhores que sempre encontrei nesse meio, tanto quando fui político como desde quando passei a ser um professor nessa área.
Como disse, achei o argumento instigante e também aguda a percepção jornalística da cena política. Embora pense que o título e algumas passagens carregam um pouco nas cores.
A meu ver, não se trata de Lula não estar "nem aí", nem que "largar a mão" de Geronimo seja uma estratégia dele. Se ele puder fazer cabelo e barba, como em 2022, sabemos que fará.
Mas se circunstâncias o obrigarem a escolher entre Geronimo e a eleição dos dois senadores, parece que com toda a razão o artigo supõe que Lula privilegiará a chapa puro sangue ao Senado e aí o escolhido para ser rifado será Jerônimo. No preciso sentido de que, no caso de precisar usar a conjunção ou, Lula não deverá dividir a bola como dividiu em 2022 e desestimular enfaticamente quem queira votar em outro candidato a governador.
Outra coisa: a chapa ao Senado é a prioridade, mas não sabemos até que ponto o PT estadual seguirá esse roteiro sem resistência ou até que ponto hesitará. O artigo trata e estamos falando de interesse eleitoral de Lula. Sabemos que isso não quer dizer que o PT baiano e seus aliados "de esquerda" no governo raciocinam exatamente assim. Mesmo que a chapa senatorial vença, não vai ser simples encontrar lugares para muito gente de casa desamparada, caso percam a máquina estadual.
Então, parece lógico que Lula seja pressionado, pelo partido no estado, a conciliar, racionalmente, os dois objetivos. Não sabemos é se fará isso ou se seguirá seu instinto de sobrevivência na selva.
Do ponto de vista de uma suposta estratégia nacional do PSD, Guilherme Kassab pode ou não ter errado ao filiar Ronaldo Caiado, um conhecido intransigente dotado de ambição política, quando o partido vem se distinguindo pelo oposto.
Mas na Bahia o PSD poderá, com esse movimento, tirar ACM Neto de um acordo principal e compulsoriamente principal com o PL e, assim, conquistar um apoio de peso para Ratinho Jr, o que, para ACM Neto, é importante também, para não ligar sua imagem à de Flavio Bolsonaro.
Lembremos de que acordo bom é o que atende a todas as partes. Esse, se de fato ocorrer, pode ser o caso, desde que não se perca de vista que os focos de ambos são distintos. O de ACM Neto é o governo do Estado, o de Kassab são votos na Bahia para o PSD nas eleições à Câmara e na presidencial.
Por isso Kassab pode "liberar" o PSD estadual, nas eleições aos executivos federal e estadual, para que os esforços hoje concorrentes dos senadores Oto Alencar e Angelo Coronel somem para a legenda, em vez de dividi-la (no caso da eleição a Câmara) e para que se abra, com um acordo entre Coronel e Neto, uma válvula de escape para que o PSD baiano não fique todo fechado com Lula.
Quanto ao Senado, é o foco de Lula (e Coronel atrapalha), mas não o de Kassab, muito menos de ACM Neto.
Pelos motivos acima, Kassab pode dar aval à candidatura de Coronel à reeleição e dissuadir, ou mesmo impedir, Oto de cortá-la pela raiz. Mas não creio que nem ele, nem Neto creiam na reeleição de Coronel. Sequer o próprio Coronel, que pode estar à cata de um aceno a uma posição no Executivo Federal (e vendo, entre Kassab e Otto, quem pode garantir mais) ou, junto a Neto, a uma posição eleitoralmente mais confortável na chapa (a vice, por exemplo) e a promessa de espaço próprio no seu hipotético governo.
De todo modo, ACM Neto deve estar ciente de que a eleição baiana já se nacionalizou. Espera-se que não se distraia com o próprio umbigo e que não repita o erro de 2022, quando se imaginou capaz de capturar a eleição como um sol solteiro, em torno do qual pretendentes aliados girariam como insetos em volta da lâmpada e terminou levando um banho de cuia na lua minguante.