Política

KOTIRENE: "NEGROS ESTÃO SENDO EXTERMINADOS NA CIDADE DO SALVADOR"

Audiência foi na AL
| 28/05/2008 às 09:01

  Das 6.308 pessoas que foram assassinadas em Salvador e Região Metropolitana, nos últimos anos, 92,7% (5.852) eram negras. O número foi divulgado ontem pela manhã (27/05) pelo deputado estadual Yulo Oiticica (PT/BA), que presidiu uma audiência pública "Em Defesa da Vida e da Liberdade da Juventude Negra" na Assembléia Legislativa promovida em conjunto pelas comissões de Direitos Humanos, Educação e Promoção da Igualdade.

  Os números demonstram uma realidade há muito tempo denunciada por entidades de defesa dos direitos dos negros na Bahia e no Brasil. Os afros -descendentes são os mais vitimados pelas ações de grupos de extermínio na capital e provavelmente em todo o Estado, soberetudo porque são a maioria da política e a mais pobre.

  A audiência contou com a representação da promotora Márcia Virgens, de Adriana Fernandes da Associação dos Parentes e Familiares de Presos, Carla Kotirene do Fórum Baiano de Juventude Negra, Hamilton Borges e Marcelo Rocha do Movimento Negro Unificado (MNU), a diretora do Departamento de Crimes contra a Vida, Isabel Alice Pinho, do Secretário Estadual de Promoção da Igualdade Racial e de Gênero, Luiz Alberto, do Secretário Municipal de Reparação Racial, Sandro Correa, da coordenadora da Secretaria de Relações Institucionais, Maísa Andrade, assim como os deputados petistas, Bira Coroa e Fátima Nunes, além de entidades da sociedade, como o Ministério Público, o Colégio Estadual Almirante Barroso e o Grêmio Mártir de Pau da Lima. 


  PLANO ESTADUAL

  No final do encontro, os participantes tomaram uma série de encaminhamentos, dentre eles o compromisso de apoio dos deputados à implementação de um Plano Estadual de Políticas Públicas para Juventude e um trabalho em conjunto em prol da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigue a atuação dos grupos de extermínio na Bahia.
 
  Durante a audiência, o deputado Yulo Oiticica ressaltou a existência de Projetos de Lei de sua autoria que tramitam na Assembléia Legislativa, como o PL 15.593 de 20 de junho de 2006, que dispõe sobre a obrigatoriedade da publicação da divulgação dos índices de violência e criminalidade do Estado da Bahia, o PL nº 14.759 de 13 de julho de 2005, que propõe auxílio e assistência às vítimas da violência, o PL nº 12319 de 04 de maio de 2001, que proibi a Revista Vexatória nas visitas aos internos, entre outros.      


  Quem abriu as discussões foi a coordenadora do Fórum Baiano da Juventude Negra, Carla Kotirene, que foi ovacionada por mais de 300 jovens de escolas públicas de comunidades da periferia de Salvador e bairros como Pau da Lima, Liberdade e Cidade Baixa. "Os negros estão sendo exterminados em Salvador. Estamos vendo todos os dias nos jornais o verdadeiro genocídio da população negra", denunciou. De acordo com a coordenadora, os jovens foram convidados à plenária pelo Fórum Baiano da Juventude Negra. "A idéia é mobilizar os jovens negros da Bahia. Politizados, eles podem lutar por seus direitos. Cobrar políticas públicas de combate ao extermínio de negros", disparou.


  RELATÓRIO

  Durante o evento, o deputado estadual Yulo Oiticica demonstrou dados de relatório de sua autoria que indicam que, das 1.022 pessoas mortas em ações praticadas por grupos de extermínio, 977 eram negras. "E o pior é que muitos crimes são praticados por policiais militares e civis, o que reforça ainda mais a necessidade de um grupo de investigação específico", analisou.


  O deputado criticou a incorporação de equipe especializada em combater extermínio à Delegacia de Homicídios, ocorrida em abril deste ano. "Precisamos de um grupo especializado nesse tipo de investigação. Um grupo diferenciado que tenha sido montado, sobretudo para investigar a própria polícia", observou, ao defender a manutenção do Gerce - Grupo Especial de Repressão a Crimes de Extermínio.

"Os negros continuam sendo as principais vítimas de violência na Bahia.

  Eles são assassinados todos os dias em todo o Estado e o governo fecha os olhos para esta realidade", reclamou Hamilton Borges, coordenador do Movimento Negro Unificado - MNU. Os alunos presentes aproveitaram a oportunidade para se pronunciar. "As mortes de nossos colegas negros acontecem todos os dias. Rezamos para não sermos os próximos", lamentou o jovem Ricardo dos Santos, 14 anos, que assistia à sessão.