Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Walmir Rosário , AJU |
13/01/2026 às 19:27
Plantação de milho em Poço Verde
Foto: WR
Rever os conceitos faz um bem danado para quem quer se manter na onda, auferindo resultados positivos. Por mais que façamos certo, sempre tem algo em nossa vida ou nossos negócios que precisa ser acertado. Afinal, como diz a piada, relógio que adianta não atrasa. É o tal de adiantar o passo após as reflexões, já
transformadas em ações presentes e futuras.
Num simples apanhado, o Sul da Bahia não vai mal: o cacau se recuperando em genética, sanidade e preço de comercialização; o comércio se mantém estável, passando pelas mudanças de sempre, resistindo bravamente; os serviços a mil por hora, principalmente na área da saúde privada, com profissionais qualificados e equipamentos de ponta.
Não sei se estaria sendo coerente comigo mesmo se afirmasse que estamos apenas a um pontinho acima da mesmice, tendo em vista que grandes investimentos não são direcionados para o Sul da Bahia. Prova disse é a população estável, com índices bem abaixo de outras regiões da Bahia, mesmo possuindo terras férteis, chuvas em abundância e infraestrutura considerável.
Não nos faltam faculdades e universidades, embora, em minha opinião, ainda um pouco distantes dos setores produtivos, sem dar régua e compasso para fazer a economia prosperar. Como se tal não
bastasse, nossa antiga fonte de desenvolvimento científico – devidamente comprovada – a Ceplac, é hoje carta fora do baralho.
Nossa tão sonhada indústria de informática, implantada em Ilhéus, não prosperou como planejada, embora ainda contribua para o crescimento – e quem sabe –, um dia para o desenvolvimento. Não conseguimos implantar um aeroporto internacional (gargalo para informática) e somos sobressaltados constantemente com a paralisação da construção da Ferrovia Oeste-leste (Fiol).
A Fiol e o Porto Sul – irmãos siameses –, e atual esperança nossa de desenvolvimento, sofrem com as paralisações decorrentes da política governamental e das empresas mães. Os motivos são os mais díspares possíveis, que vão desde as dificuldades econômicas do mercado internacional, as mudanças societárias e até desconfiança na política governamental.
E nós sul-baianos, já acostumados às dificuldades, simplesmente aguardamos que as bênçãos dos céus desçam por aqui para solucionar problemas que não foram criados pelos religiosos ou nossos santos padroeiros. Esperar por ações de nossos representantes políticos é tarefa impossível, pois não os
colecionamos nas muitas eleições por décadas passadas.
Se olharmos para o passado, quem sabe poderíamos nos espelhar em nossos ancestrais, os sergipanos, que há mais de um século deixaram suas cidades assoladas pela seca para construir a civilização cacaueira, grapiúna. Aqui enfrentaram as matas fechadas e inóspitas, enriqueceram, criaram praticamente toda a
infraestrutura de uma nova região.
Não custa lembrar que a economia da região cacaueira prosperou em níveis cada vez mais crescentes, apesar das dificuldades de então. Criaram um mercado forte, cujo produto por eles comercializado era pago ao produtor mesmo antes de entregá-lo. Comércio bem diferente do restante da atividade agrícola, cuja liquidez inicia geralmente após os 30 dias da entrega.
Como bons descendentes de sergipanos – caatingueiros dos bons –, visitamos nossos parentes, passamos férias em Aracaju, local em que encontramos sul-baianos nas ruas como se em Ilhéus ou Itabuna estivéssemos. Só que desprezávamos o campo, há anos em plena transformação. Pois bem, aos poucos começamos enxergar as mudanças, realizadas de forma silenciosa.
Há muito os sergipanos descobriram que, se tinham capacidade de fazer crescer negócios em outras regiões, também poderiam prosperar em sua própria terra, já bastante conhecida. No campo, resistiram às secas, criaram tecnologias para conviver e superar as dificuldades. Nas cidades, desenvolveram pequenas indústrias, notadamente de confecções, redes e o turismo.
Hoje todo o Brasil está perplexo com a capacidade de superação do sergipano, na cidade ou no campo. Silenciosamente, desenvolveram gado de leite e corte de alta qualidade, animais criados com comida
de qualidade; e todas as espécies de produtos agrícolas, com produtividade de fazer inveja aos centros mais avançados.
Se antes se deslocavam em cima de caminhões pau-de-arara para se livrar da seca e ganhar a vida no Sul da Bahia, hoje plantam cacau numa região antes impensável. Não acredito que essa virada histórica saiu apenas de um papel num gabinete qualquer, mas sim da vontade de viver bem na sua própria terra, construindo sua própria e nova história.
Se antes o Sul da Bahia “importava” os sergipanos como simples mão de obra para implantar a cacauicultura, bom seria fazermos o caminho inverso, desta vez para beber da sabedoria dos nossos
parentes em todas as áreas da economia. Por certo, voltaríamos com um novo cabedal de conhecimento para impulsionarmos nossa região. Também aproveitem o passeio, pois o sergipano continua
sendo um excelente anfitrião.