sexta-feira, 03 de dezembro de 2021
Colunistas / A Boa Mesa
Dom Franquito

BACALHAU A NEGREIRA DO ARMAZÉM SÃO THIAGO COMO NO TEMPO DE D. PEDRO II

Armazém São Thiago (Bar do Gomez), Rua Áurea, 26, Santa Tereza, Rio
22/07/2011 às 09:02
Foto: BJÁ
 
   O bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, tem um quê de nostalgia da velha capital brasileira com seu casario imperial, ruas calçadas a paralelepípedos, bonde, motorneiros, músicos nas ruas, jabuticabeiras e mangueiras à vista, e uma infinidade de restaurantes e lojas com produtos de artes.

   De repente, se bobear. o camarada se bate com o duque de Bragança ou a condessa de Sorocaba numa das ruas.

   Uma maravilha. Sempre com gente por todos os cantos, as calçadas repletas de produtos artesanais e filas nos barzinhos, é um local para se curtir sem pressa, sem essa de dar uma voltinha e voltar logo para casa.

   E lá estive com meus filhotes para uma tarde de domingo observando cada cantinho, comprando pequenas peças, e, claro, apreciando à boa mesa.

   Imaginem onde fomos parar! No Armazém São Thiago, 92 anos de tradição, mais conhecido como Bar do Gomez, na esquina da Rua Áurea, um local repleto de peças antigas, quadros, fotos, um sallom ao estilo bodega de Espanha com tapas variadas e uma carta de branquinhas de dar inveja a qualquer mineiro de Alfenas.

   O São Thiago começa em San Cristobal quando Jesus Pose Garcia chega ao Rio, 1907, para trabalhar como balconista numa casa de secos y molhados. Com o tempo, comprou o ponto e homenageou São Thiago de Compostela, o galiciano milagreiro.

   Ao falecer, em 1971, aos 84 anos de idade, passou o ponto a José Gomez Catorne, o Sêo Gomez, e a familia segue à frente da casa até os dias atuais.

   Quem nos atende foi o garçom Canetinha, justo apelido por usar inúmeras canetas no avental com a marca da casa, ostentando um pimpão à estilo Itamar Franco, ágil como um puma, já nos servindo um par de Bohêmias tal a nossa sede.

   E, evidente, nesse clima parisiente tropical, acolhemos uma rodada de bolinhos de bacalhau especiais, logo de entrada para amainar a nossa gula.

   Canetinha percorria o salão como um bailarino do Bolshoi e nosotros, admirados com a barulheira dos clientes, à moda carioca, o Flamengo vencendo um jogo no brasileirão, ficamos ali saboreando o petisco com admirável prazer.

  Adiante, quando mais um gol foi marcado pelo dentuço gaúcho, Canetinha nos presenteou com uma rodada de popetas italiana, pão, parmesão e ricota amassada e não deixamos grão sob grão tal a nossa volúpia. Por pouco, Carol, que nos acompanhava, não perde um dedo diante de uma garfada de Agapito.

  A zoeira seguia e entre tantas branquinhas, Maria Izabel, Indiazinha, Rainha do Vale, Januária, Beija Flor, Nega Fulô, Santa Rosa, Musa, Magnífica, Maria da Cruz e Magnífica de Soleira, solicitei a Canetinha uma Velha Januária que pimpão ma trouxe num pires, rodeada de azeitonas e gelo.

  Ora, diante de tal preciosidade, completamos à tarde, la belle de jour, com uma bacalhau a negreira e saimos satisfeitíssimos.

  Na saída ainda nos encontramos com a condessa de Barral, a gloriosa amante de dom Pedro II.

-----------------------------------------------------
Armazém São Thiano (Bar do Gomez)
Rua Áurea, 26, Santa Tereza, Rio
Desde 1919
Aceita todos os cartões
Preço médio do prato (tira-gosto) R$25,00
Pingas com preços entre R$10, e R$30, a dose