Cultura

SALVADORES, CONTO 15: A ARCA DE NOÉ NA AVENIDA MILTON SANTOS (TF)

Você pode ler todos os contos no www.wattpad.com gratuitamente
Tasso Franco ,  Salvador | 14/09/2026 às 10:37
A arca de Noé em Salvadores
Foto: Seramov
15
A ARCA DE NOÉ NA AVENIDA MILTON SANTOS

  Chove sem cessar no maio sombrio de Salvadores. Lembra em sentido figurado o dilúvio do tempo de Noé. Deus para purificar a Terra que havia criado a inunda em 40 dias de chuvas – dia e noite - e salva-se a família Noé e os bichos que levou para sua arca. O novo mundo do tempo antigo começa nesse momento com a reprodução desses descendentes.

 Diante leitura do encardido livro do filósofo italiano Giambattista Vico intitulado “Ciência Nova” entre uma página e outra anotando observações com um toco de lápis em pés das páginas, o homem das letras Tolentino Guimarães Alfaia, observava sentado na cadeira posta ao lado da janela do seu apartamento, em Ondina, a chuva que caia sem cessar há uma semana, o que deixava-o praticamente imobilizado, sem poder ir a fisioterapia no vizinho bairro do Rio Vermelho, sem exercitar-se na musculação, sem dar uma caminhada na areia da praia da Paciência e comprar peixe fresco na colônia de pescadores Z4. 

   A esposa ativa, agitada, preparando-se para ir esmaltar as unhas e avisando ao velho – nosso personagem amigo leitor é um quase ancião e não o provoque, nem o chame assim, porque ele vai dizer como já disse a alguém que dessa forma o tratou que “ancião é a pqp” – que a diarista de limpeza geral e cozinheira de forno e fogão, a senhora Verônica Luiza Inácia, profissional atenciosa, cuidaria de si na sua ausência, prepararia um frango assado na chapa, salada grega, feijão e macarrão estilo popular amarelado - como gosta - e que passasse bem até o seu retorno. Mandou-lhe um beijo de longe com o beicinho para cima.

  - Ouviu o que dona América falou?

  - Vá catar cavacos – ralhou Tolentino Guimarães ao ser questionado pela diarista Verônica – e continuou lendo Vico tentando entender as interpretações que produziu sobre o tempo de Noé, o princípio universal da história para todos os povos e todos os tempos, a evolução da civilização e humanidade com base na orientação da Providência Divina. 

     Emparedou a serviçal:  - Verônica! O que achas do dilúvio de Noé?

   A diarista parou o fazer por instantes, pensou um pouco e respondeu: - O padre Abreu, da igreja do Barradão - bairro onde mora – disse certa ocasião que mudou todo o mundo, mas não entendi bem, pois, seria alguma coisa vingativa de Deus diante da corrupção que havia. E ele também sempre disse que Deus é uma personagem do bem. Portanto, no meu entender não iria matar ninguém afogado. O padre garante – no entanto - que houve o dilúvio e só sobrou Noé, sua família e os bichos.

  - E essa chuva que cai em Salvadores é novo sinal disso. Deus vai mandar matar todo mundo de novo?
  - Não saberia dizer ao senhor. Sigo os ensinamentos do padre Abreu, mas acho difícil que isso aconteça. Agora, os prédios são muito altos e tem bilhões de pessoas na Terra. Deus não iria fazer isso novamente, ainda que a corrupção tenha aumentado muito, segundo dizeres do padre Abreu que, pra mim, é um sábio, um bom observador.

  - O que você achou desse escândalo do Banco Mastério, do Vorcarium, e tudo que se fala de um filme que ele financiou para um grandão, de um apartamento que teria dado a outro grandão e tanta roubalheira que há neste país?

  - Nunca ouvi falar nesse Vorcarium e muito menos nesse banco Mastério. Na verdade, só tenho conta num banco por causa do Pix. Agora, toda hora os locutores falam na televisão sobre furtos envolvendo esses grandões, isso ouço todos os dias, mas, não ligo porque sei que não dá em nada. Recentemente pegaram um desses graúdos com malas contendo mais de 50 milhões em espécie e o possante já está solto. Só espero que não roubem nosso Pix.

  - Você sabe o que significa a sigla Pix e quem foi o engenheiro que a criou?

  - Pix é Pix, um pagamento rápido. O senhor faz um Pix e cai o dinheiro no meu Pix. E eu compro minhas frutas com Pix no verdureiro do Barradão que recebe em Pix e a gente não usa mais dinheiro vivo. O mais não interessa. Como vou lá saber quem foi que criou isso, o certo é que funciona.

   - Ora, minha filha, Pix tem muita tecnologia. Foi um engenheiro cearense o Mont’Alverne Duarte que criou com base nos pixeles da internet, pontos luminosos de uma tela gerando um sistema de pagamento instantâneo sem cobrar juros como nos cartões.

  - Lá vem o senhor querendo complicar as coisas, como sempre. Fica lendo esses livros malucos para querer dar explicações em tudo. A campainha está tocando vou ver quem é.

   A senhora Verônica vai até a porta e observa pelo olho mágico que se trata da jovem Sol. Abre a porta e a cumprimenta com entusiasmo: - Você está linda com essa barriga truncada.

   – É trincada minha querida amiga, negativada. 

   – Ah! Isso é uma humilhação. 

    – Cadê o “véi”? - Está lá na cadeira de balanço lendo um livro e apreciando a chuva. Antes mesmo que Guimarães perguntasse “quem chegou”, Sol se aproximou onde ele estava e sapecou-lhe três beijos nas faces. 

  - Como atravessou esse dilúvio – inquiriu a neta.

   - Nadando, brincou Sol, vim para assistirmos o jogo da seleção de futebol.

   - Seja bem vinda, América foi fazer as unhas, Verônica colocou uma galinha no fogo e vou ligar para a madame trazer uns espetinhos de frango e carne maturada para a noite.

   A chuva não parava. Guimarães olhava trechos da antiga Ademar de Barros, hoje Avenida professor Milton Santos, onde mora, vendo também fiapos da Oceânica em direção ao Rio Vermelho com poucos carros trafegando e minguados pedestres que se dirigiam a uma clínica de imagem, outros clientes com passos apressados em direção a Padaria Flor da Ondina e ao mercadinho Rede Max com trechos ensopados d’água. A rua adjacente, a Macapá, que mais parece um tobogã de paralelepípedos, inundada.

  - Explicava a neta apontando para a imagem em bronze do professor Milton Santos, quando era a antiga Ademar inundava tudo, virava um lago, mas esse atual gestor de Salvadores deu um jeito e a drenagem é perfeita, mas só nessa principal, as laterais são lagos.

  A senhora Verônica, que tudo escutava a conversa de olho no padre (avô e neta) e outro na missa (na frigideira com a galinha já temperada e sendo assada) se meteu na conversa e disse que, lá onde mora, numa travessa do Barradão tá uma lagoa maior do que a de Pituaçu.

   A certa altura, ainda sem América presente, o almoço foi servido. Sol estranhou a cor da galinha posta à mesa parecendo que tinha uma porção exagerada de mostarda, de um amarelo ouro à vista, estilo pato laqueado, e Guimarães se serviu à gosto com salpicos de pimenta mexicana. 

   – Eu é que não vou comer isso advertiu Sol a Verônica – vou por uns nugetts de frango na fritadeira elétrica Air Frye e meu avô aprecie essa galinha turca ou russa, sei lá que modelo é esse. 

  Guimarães levantou o olhar para Sol e comentou que estava muito boa com gosto de peru de Natal.
    – Oxé, vô, provei um pouco dessa galinha e está parecendo mais de bozó. 

  – De bozó, não, interveio Verônica, foi feita com cominho, mostarda e alho poró. 

   Guimarães deu um pequeno arroto seguido de discreta flatulência.
                                                       ***
   A chuva diminui um pouco quando a madame América chegou com as unhas esmaltadas. Sol achou lindas. O “véi” disse que estavam maravilhosas, mas, as dos pés insossas. América repeliu: - tom neutro para descansar seu analfabeto.
 
   O jogo do Brasil estava pra começar. Sol apareceu vestida com a camisa amarela e Guimarães elogiou: - Gostei muito dessa camisa e dessa gargantilha com as cores nacionais. 

  – Oh! Passado: não se diz mais gargantilha e sim choker. 

  - Se tá cobrindo a garganta é gargantilha, ponderou Guimarães dizendo que Verônica acabara de sair e deixara um belíssimo frango laqueado no forno. 

   – Vá comer algo que o jogo começa em instantes. Sol desaconselhou. Quando América abriu o forno e retirou o papel laminado que encobria o laqueado se assustou e se arrepiou – Deus me livre de comer um negócio desse, frisou. – Guimarães acudiu: - esse frango turco está delicioso.

   O jogo começou. Quinze minutos depois de dada a partida a “canarinho” não tinha chutado uma bola em gol. – Os meninos parecem caranguejos ... 

   - É a nova tática do “Mister”, ponderou Tolentino Guimarães.

  - Afinal de contas que coisa foi essa que Verônica aprontou: - Parece um galo de bozó.

    - Só ela poderá lhe responder essa pergunta – comentou Sol – explicando que não teve coragem de apreciá-la.

   Estavam nesse papo, a chuva retornara com força, quando o locutor da Cuzé deu um pulo da cadeira que estava sentado comemorando o gol canarinho, contra do zagueiro do Haiti.

  Sol quis saber do “véi” se ele conhecia a música de Valoso “O Haiti é Aqui” e este respondeu cantarolando o trecho “o Haiti é aqui” dando acordes no bandolim. América sorriu e depois tossiu sem parar. 

   - Foi outro gol – pilheriou Tolentino olhando para a esposa em ritmo de tosse, na real, um engasgo que sofrera com o galo laqueado da Verônica. 

  A chuva pinicava na janela do apartamento e a seleção venceu o primeiro jogo rumo ao hexa. Nisso passou a arca de Noé na Milton Santos. O “Veí” estava emocionado e deu pra perceber um casal de girafas na proa da embarcação e mais um elefante a lançar jatos d’água com a tromba.