Cultura

ENTRE DISCURSO E REALIDDE O CONCEITO "SUSTENTÁVEL" p LILIANA PEIXINHO

* Líliana Peixinho- Jornalista, ativista humanitária, pesquisadora independente.
Especialização em Jornalismo Científico e Tecnológico; Mídia, Meio Ambiente; Responsabilidade Socioambiental.
Liliana Peixinho ,  Salvador | 06/06/2026 às 11:59
   Observem os discursos políticos, empresariais, institucionais, as peças publicitárias na tv, as falas em programas de grande audiência, as palestras, aulas dos professores, podcast, perfis nas Redes SociaIs.

   Tem observado, desde quando?

   Percebe que a palavra "sustentável" é usada no automático?

A vida, planeta afora, em guerras, em fome, em violência, em desrespeito a direitos consagrados, em desequilíbrio social, está sedenta de água limpa, de ar puro, de gente comprometida no fazer de fato, com gestos, não com imagens de faz de conta que faz, em registros de discursos de palcos, em mega eventos programados em marketing institucional de ilusão pública.

Depois de décadas em pautas sobre transversalidade, olhar sobre o todo, para o fazer pontual, local, o dia 5 de junho não é data para comemorar. O cenário é de cobrar, perguntar: o que você, eu, nós, fizemos hoje, no deslocar, cozinhar, comer, falar, comprar, descartar, se informar, escolher, para o bem-viver coletivo?

Imagina uma lente gigante, sobre o Brasil, rastreando cada gota d’água que jogamos fora; cada nascente que secamos desmatando; cada árvore que derrubamos; cada objeto que compramos, às vezes no sacrifício, até sem necessitar e depois descartamos, como lixo. Cada real desviado, mal usado, em nome de projetos propagados como sustentável. É muito recurso ineficiente.

Somos campeões em improvisar. Experts em não planejar. Criminosos em desperdiçar. Tolerantes demais com o “depois eu faço”. E a vida, cansada, em agonia, correria, não suporta mais o faz de conta. E, explode, sucumbe, se acaba de forma indigna.

O Brasil é o paraíso das águas doces da terra. Rios como o São Francisco e o Amazonas, por exemplo, matrizes de sustentação de vida ribeirinhas, são espaços de capital especulativo, produções de commodities questionáveis por modelos econômicos comprometidos com a construção de cadeias de produção, consumo e descarte harmoniosas de ponta a ponta.

Desconexões e fatos

A pesquisa acadêmica em campo Jornalístico minado de desafios, "Proativismo Jornalístico Socioambiental X Discurso Marketeiro Insustentável- Greenwhashing" mostra as "Desconexões do discurso Sustentável', através de exemplos práticos cotidianos.

A mídia é "sensacionalista". Pauta desastre, mas não responde: por que aconteceu? O que poderia ter prevenido? Qual impacto pra gerações futuras?

Sensacionalismo

As respostas servem ao "imediato": justificar, punir pra gerar receita, mas sem aplicar em prevenção. Resultado: Bahia, Nordeste, Brasil vivem uma sucessão de desastres iguais..No capital imobiliário especulativo, crimes ambientais são encobertos. A degradação/contaminação de quase todos os mananciais hídricos de Salvador é ligada direto a problemas de saúde que lotam hospitais e consultórios, com foco paliativo, sem prevenção às doenças evitáveis.

O descaso com patrimônio cultural, arquitetônico e ambiental causa morte e abandono. A cada chuva forte o filme se repete. A coleta de "lixo" é ineficiente*: Não tem valor educativo, deixa rastro sujo. Enquanto isso, dinheiro público reforça empresas/ONGs/instituições em "projetos ditos sustentáveis, só no nome".

A expressão "sustentabilidade" se desvinculou do conceito original por causa do marketing verde/greenwashing agressivo e eficiente no "faz de conta", com dinheiro público". Saúde, saneamento, educação, moradia, segurança-o básico - em discurso de sustentabilidade, é cinismo.
O discurso não atravessa o cotidiano. Fala de Amazônia na COP, mas o manancial da cidade está contaminado e ninguém previne.

Olhar transversal cotidiano

Quando chove forte, a cidade alaga. A mídia corre pra filmar o desastre. Pergunta: "Por que aconteceu?" Só depois. Ninguém pergunta antes: "O que poderia ter sido feito pra prevenir?" Alagamento não é só chuva. É resíduo que o morador joga na rua. É obra inacabada. É bueiro sem manutenção. É planejamento que faltou lá atrás. É casa construída onde era nascente. De descarte em descarte a cidade entope. De sacola em sacola água pesa, invade casa e afoga moradores. Até onde é problema meu, seu, do coletivo? Prevenção é gesto. É separar o resíduo . É cobrar a prefeitura. É não construir na área de risco. É matemática: se cada gesto for de cuidado, a rua não vira rio. Do contrário, é prejuízo de ponta a ponta.

Quando não é enxurrada de água não escoada, é queimada. E queimada não é só fogo. É ar que falta. É chuva que não vem. É solo que vira areia. É saúde que piora. É animal que morre. É clima que desestabiliza o ambiente. Tudo tem a ver com tudo. É transversal. Falta de água não é só seca. É rio que sangra. É energia que encarece. É comida que não planta. É escola sem água pura pra aluno se hidratar e que adoece.
Prevenção é gesto. É fechar a torneira. É consertar o vazamento. É reuso da água cinza. É cuidar de cada nascente urbana. É responsabilidade diária, o tempo todo, porque nunca paramos de viver.

Resíduos separados

Em 1999, depois de uma viagem para países onde observei nas ruas, contêineres para separação de resíduos, como vidro, por cor, sim por cor- verde em um, branco em outro, preto, em outro-; e sapatos, roupas, alimentos,b plásticos seco e úmido, entre outros produtos, entendi ali, nas ruas de Berlim, Viena, Bruxelas, Paris, Amsterdã, Barcelona ... parte de uma inquietação, antiga, sobre a complexidade de pensar e entender como tudo está ligado a tudo.

E, nessa espiral, procurar caminhos para o desafio de colocar conhecimento em prática, como a desconstrução do conceito "lixo", para "resíduo" na proposta de " construção de cadeias de produção, consumo e descarte harmoniosas de ponta a ponta " , nome dado ao que era colocada em prática através do Movimento Ativista AMA- Amigos do Ambiente, com foco na preservação da vida, com ações preventivas.

Lixo Zero, "loucura'

O início, e lá se vão mais de 30 anos, compartilhar a proposta "LIXO ZERO = FOME ZERO= Ambiente 10", uma equação bem simples, foi considerada "loucura' em ambientes resistentes às mudanças de comportamentos sujos.

Eram perguntas assim:

" Que adianta separar em casa, se, lá fora o "caminhão do lixo" mistura tudo?
Com filosofia ética cotidiana, argumentos do tipo:

"A consciência sobre sua atitude em fazer o que acha certo, não poderia ser um bom começo?".

A valorização do "catador" como Agente Público Ambiental, rendeu ganhos como categoria de trabalho e gerou uma indústria que alimenta ciclos de produção suja, como a da matriz petróleo.
Não foi, e não é.

Cultura dos Rs

A desconstrução do nome "lixo" tem alta resistência em ambientes de consumo ostentação, impulsivo, em estética faz de conta.
A cultura do R-Reaproveitar, Resignificar, Reduzir, Racionalizar, Repartir, Recusar, Revolucionar comportamentos sujos, em limpos, é desdém.

Sem alianças Greenwhashing

Alcançar escala é complicado quando se trabalha em conceito, prática independente, sem laços, alianças, "parcerias", "apoios", recursos de rastros duvidosos, de empresas ou instituições. E o julgamento externo de "loucura", reforça desafios no trabalho diário.

Na academia, apresentar o trabalho de pesquisa e de campo minado em desafios, sem financiamento, sem bolsa de estudo, deu liberdade para não fortalecer o discurso greenwhashing, apoiado, inclusive, por instituições financiadas por esse mesmo Mercado.