Cultura

SALVADORES, CONTO 13: RUAS QUE CHORAM, GRITAM E PEDEM SOCORRO (TF)

Diaólogo de dois especialistas em "Nada" ou Sêo Nada como queiram, ambos niilistas, num bar da Mourara
Tasso Franco , Salvador | 26/05/2026 às 09:25
Se essa rua fosse minha eu mandava ladrilhar
Foto: SERAMOV

“Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhantes
Para o meu
Para o meu amor passar”

(Canção de domínio público de origem portuguesa gravada em 1930 por Mário Lago e Roberto Martins; Villa-Lobos incluiu arranjos da melodia em seu álbum Cirandas Cirandinhas, 1920.

- As ruas cantam, choram, sorriem, ficam alegres e tristes, são a alma de uma cidade e do seu povo e fico possesso quando vejo diariamente no meu caminhar pelo centro de Salvadores o que fazem com ruas e praças que, quando menino jogava bola e empinava arraias, brincava de guerreô, rapaz paquerava as meninas do Largo do Relógio no Carnaval, curtia o Beco da Maria Paz, orava nos conventos da Lapa e da Piedade, lia jornais no Instituto Geográfico e Histórico; e, hoje, as ruas Joana Angélica e Junqueira Ayres, os Largos da Piedade e do Relógio de São Pedro, a Avenida Sete são o inferno de Dante ponderava com sua voz aveludada de barítono o arquiteto Eustáquio Lourenzo ao professor Gildálio Chapadista Xavier apreciando uma cerveja gelada no Flor de Lis bar da Mouraria que frequentam há milênio, onde choram lágrimas de crocodilo, atualizam conversas, sorriem e bufam.

  - Ora meu ilustre arquiteto – ponderou o professor Chapadista Xavier pedindo a jovem Thais uma codorna frita para beliscar – as ruas são do povo e o que está acontecendo por lá, eu que também passo por elas quando vou ao Gabinete Português de Leitura ou a Livraria Paulinas é que foram ocupadas pelo populacho e o povo tem direitos plenos e, como dizes, é a alma da cidade e tem seus encantos, seus ebós, seus abre caminhos e buscam sobreviver nelas vendendo verduras, frutas, legumes, hortaliças, roupas falsificadas, clones de perfumes que dizem ser de França e Japão e temos que entender essa balburdia.

  - Uma coisa – meu profeta – é a sabedora popular, a cultura popular, isso temos que respeitar e há o Boteco do Galdino no Beco das Flores, adjacente a Joana, organizado com mesas e cadeiras, pé de balcão de fórmica decente onde se vende moqueca de jaca, torresmos, agulhinhas, isso, sim é respeito à cultura. Outra coisa é a desordem, a esculhambação, o destempero, pois, também somos gente e me recordo que no Carnaval de sessenta, salvo engano nessa data, me fantasiei de pescador, como um tupinambá, eu que nunca fisguei uma piaba; e noutra ocasião fui vestido de guarda noturno usando um apito para chamar a atenção das minas. No fundo eu estava querendo ser povo, o que é muito difícil para um classe média acostumado a usar meias.

  - Concordo, o Carnaval é a festa da transgressão, da inversão – do pobre ficar rico e do rico ficar pobre – e não essa coisa engessada que vemos nos dias atuais um trio elétrico atrás de outro e cantores gritando que o seu tem mais gente do que todos, que há milhões de pessoas nas ruas amontoadas, o momo perdeu a graça, perdeu o charme, estão destruindo nossos saberes populares, os mascarados, os caretas, e sou do tempo das batucadas com os negros em fila entoando lundus e batuques, do Gigante de Bagdá, do Barroquinha Zero Hora, e hoje só se fala em camarotização, harmonização, merchadising e outras bobagens mais e as ruas foram invadidas por hordas de blocos amortalhados e foliões pipocas malhados usando bermudas e tênis cuja diversão é lutar boxe.

   - Isso, meu distinto, é o reflexo da decadência cultural de Salvadores e se as ruas que têm sonoridade, que têm religiosidade, que têm amor pra dar, choram, sofrem, não nos resta esperanças. Veja que a minha Elza, que nunca colocou um Astória nos lábios, que é santa de corpo e alma, foi a missa no Convento Franciscano Menor da Piedade e ao passar na Joana, em frente a casa do direito, a sede da OAB, gostou de umas pinhas que estavam sendo vendidas por um jovem senhor, se aproximou da banca apreciou-as, tocou-as, quis saber se amoleciam e o distinto disse que sim, um jovem robusto que lhe pareceu educado, e comprou 5 unidades e cheiro-as para sentir o odor e depois agradeceu e tirou um lenço para passar no nariz e deu uns dois arrepios na narina e o jovem vendo aqueles gesto disse a ela que, não o levasse a mal, pois, se a “madame quiser” – assim a tratou – temos um pó pureza à venda, preço justo, e Elza agradeceu a oferta e destacou que compra seus pós de arroz na Caldas, na farmácia mais tradicional da Sete, e partiu para casa. Vês, portanto, a que ponto a ousadia dessas pessoas chegou.

   - Vivemos nesse mar de impunidade meu angular arquiteto - homem do traço e compasso -  e a prática é relevar, infelizmente ou felizmente, não saberia dizer qual felizmente, as ruas são a extensão de nossas casas e elas nos chamam diariamente, não vivemos sem elas, é impossível morar na selva de concreto sem a sua existência e temos que relevar todas essas coisas, mas, admito ser uma agressão, uma injustiça com uma cidade tão bela e abençoada pela natureza de Kirimurê, essa baía que é um mar e pinta nossa cidade de belezas.

  -  Já leste o afro francês Dimitri Ganzelevistch em “Minha Vida de Jasmim e outras crônicas”, ele fala da Praça da Sé como queria que fosse e confessa que acompanha há um quarto de século as macaquices estéticas na praça avó da cidade que diz deveria ser o “Ágora sagrado de nossa capital”, a pólis grega, o ponto de encontro, mas está esticada iguais a essas madames que puxam a pele do rosto tentando ficar mais bonitas e ficam tortas, o cinema Excelsior até hoje fechado, colocaram uma fonte d’água que não funciona, o piso quebrado, o monumento ao bispo Sardinha encardido, cães e gatos residindo nos alicerces da antiga Sé Primacial que foi derrubada pelas picaretas do progresso no governo Juracy.

   O professor mordeu a coxa da codorna frita que lhe servira Thais, a garçonete, pediu outra cerveja, jogou uns ossinhos da ave no canto do prato e fuzilou: - Eu conheço pessoalmente algumas cidades da Europa, poucas é verdade dado que meus caraminguás são parcos, e o que pude observar com a minha adorável e amada esposa Geralda - permita colocar o nome dela nesta prosa-  porque temos algumas fotos nesses locais - puxou pela memória - naquela Fontana de Roma que agora me esqueci o nome, onde se jogam umas moedas, a velhice é uma miséria a gente vai esquecendo as coisas – pigarreou -; em Valencia, na Espanha; em Lisboa, nossa querida cidade mãe e as fontes funcionavam as águas jorram no inverno, no verão, na primavera em que mês for e aqui na nossa Salvadores, não tem jeito, na cidade das dores, dos queixumes, as fontes são secas, só funcionam no dia das inaugurações com a presença do alcaide e da banda da Bomba, a da Piedade é um mictório. Respirou e prosseguiu: - a fonte da Sé é um amontoado de ferro exposta; a do Campo Grande uma bacia de limos. Será que não tempos técnicos capazes de fazer funcionar uma bomba d’água?

   - Técnicos e especialistas frequentando a “Viúva” temos até demais e se fala tanto em sustentabilidade, em meio ambiente, em resiliência, agora inventaram uma tal de ESG, que nem sei pronunciar o enunciado das palavras porque é em inglês, que se traduz em ambiente social e governança, uma conversa fiada das mais nobre e a fonte da Piedade e os mendigos ao seu redor é um bom exemplo, de que, na prática a teoria dos engravatados e das mulheres e tailleur é outra, e o candidato a alcaide em campanha promete que vai usar a Inteligência Artificial para colocar essas fontes a funcionar, que a IA vai acabar com a desordem nas ruas do centro e eu diria, de antemão, que estou propenso a votar nesse candidato e espero que ele ganhe para ficar desmoralizado, mais um político desmascarados, porque com o povo ninguém pode, nem IA, nem ESG, nem ECOturismo, em PNUD, e até o prédio da OAB, monumento romano dessa city foi embrulhado pelas barracas de lonas dos camelôs e pelos fios da Coelba Neoenergia, empresa espanhola que cuida da nossa luz que lembra uma música carnavalesca de 1954, de Victor Simon, chamada “Vagalume” que canta assim sobre o Rio de Janeiro ser uma cidade que nos seduz, “de dia falta água/de noite luz” homenagem ainda hoje válida para a Embasa e a Coelba e que cai como uma luva pra Salvadores.

  - O magnifico arquiteto está ácido – balbuciou o professo Chapadista Xavier – mas tens razão no que dizes.  Ademais, se o gestor da “Viúva” quiser aqui na Ladeira de Independência tem um mecânico,  Eládio eletricista, que não tem PhD de zorra nenhuma e nossas universidades parecem que estão fazendo rifas de mestrados e doutorados criando um monte de sábios para as galáxias e aumentar os proventos salarias com penduricalhos, que, esse mestre dos fios coloca todas essas fontes para funcionar com jorros d’água e de luzes e que assim seja porque na Piedade minha Elza, ao sair da missa em São Pedro, viu um morador de rua que agora os doutos chamam de “em situação de rua” soltando um barro na praça, um coco fedorento da zorra e quem passava por perto tinha que tapar o nariz, mas, ele, o dono, o autor da insigne obra, pouco estava se lixando para isso e protegia sua jiboia com um pedaço de pano para que não escrevesse algum poema na grama.

   Nesse exato momento em que discursava sobre esse ato secular em praça pública, onde praticava a céu aberto sem os cuidados que os antigos tupinambás que lá viveram tinham na hora do serviço e se entocavam numa baixada entre os matos, os sinos do São Bento tocaram a hora do rancho e o aprumado professor, não tão aprumado mais assim porque na hora em que se levantou estalou as juntas das pernas, disse que chegara a hora de partir para casa – evidente que não era partir para o além, e desceria o Paraiso para chegar a Avenida Sete e depois atravessaria o Mocambinho a partir do São Bento de Baixo até chegar em sua residência no Areial de Cima para almoçar, sem passar pela Joana, pela Piedade e pelo Relógio, de fato o inferno dantesco. Levava consigo nesse momento da travessia uma bíblia em mãos à moda Isidório.

   Já o arquiteto Eustáquio, morador da Rua da Mangueira, ao lado da casa da educadora Anfrisia, contornou a praça da Mouraria e num pulo chegou em casa.