É praticamente impossível entender esses destinos do ciclo vida e morte sobretudo quando se parte de modo inesperado, num acidente, ainda jovem e atuante, um político que pela trajetória inicial teria uma carreira brilhante e certamente alcançaria posições mais relevantes na política estadual. O trabalho de Joandina busca exatamente manter a chama Paulo Jackson viva, pulsante nos ideais da politica baiana para que não haja retrocessos, e as bandeiras que empunhou sejam preservadas e vibrantes.
O ex-deputado morreu antes de conhecer a ascensão do petismo na Bahia ao poder máximo, o que só vai acontecer no ano de 2007, com a eleição de Jaques Wagner governador, em 2006, porém uma coisa puxa a outra e Wagner não veio do nada; assim como Paulo Jackson só conseguiu se destacar na Casa Legislativa graças ao seu trabalho na oposição ao “carlismo” – poder dominante de ACM – e por seu trabalho de base na difusão e expansão do petismo no interior do estado, em regiões distantes do centro do poder, como Caetité (sua terra natal), e médio São Francisco a partir de Carinhanha.
Esse trabalho de base, aliado a sua luta no SINDAE – Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente da Bahia – para manter a Embasa e sua estrutura na condição de estatal evitando uma provável privatização – lhes renderam uma ascensão política que estava bem estruturada, ainda que não tenha sido um dos fundadores do PT na Bahia (1982) só se filiando a este partido em 1990.
Sua carreira política partidária, portanto, é curta - como parlamentar vai de 1993 a 2000 e contando-se o tempo de sindicalista – eleito pela primeira vez delegado junto a Federação Nacional dos Engenheiros 1977, aos 25 anos de idade; e de estudante em Caetité onde já atuava na política e fundou o Centro Estudantil Cultural de Caetité (CECA), 1975, fecha em pouco mais de duas décadas que vai de 1975-2000.
O que faz, então, Paulo Jackson ser tão querido e lembrado na Política?
Quem comenta é Guilherme Menezes, quadro histórico do PT, ex-deputado estadual e federal, ex-prefeito de Vitória da Conquista: “Ele tinha um cuidado muito especial com o processo legislativo e nós precisávamos de alguém assim, já que éramos uma minoria”. A deputada federal Alice Portugal (PCdoB) acrescenta que PJ “foi um líder inconteste de opiniões firmes e em alguns momentos sectárias. “Ele era incorruptível, incapaz de beneficiar individualmente de qualquer estrutura que fosse duvidosa do ponto-de-vista moral. Essa coerência dava muita segurança e construção oposicionista e, desde a sua morte, ele fez a faz muita falta à Bahia”.
Há, no livro, inúmeros depoimentos sobre a trajetória de PJ não só no campo da politica partidária, mas, sobretudo na sua atuação sindical em defesa da água como vida numa época em que o consumo da água potável de qualidade no interior do estado (e na capital) ainda era precário. Movimento sindical que cresceu pós redemocratização do Brasil (1984) e PJ se engajou com dedicação e amor à causa pública.
Em 1983, JS participa do congresso de fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) sendo diretor estatual (1992-1994) e um dos criadores do Comando Nacional dos Trabalhadores em Saneamento. Marcelo Fernandes, um dos sindicalistas dsquela época, colega de PJ, diz que “nessa época a maioria dos sindicatos era controlada por pessoas ligadas à repressão e o movimento para a tomada do Sindicato dos Engenheiros começou a partir da iniciativa de jovens engenheiros, que tinham em PJ uma das principais lideranças”.
Daí para a carreira politica partidária foi uma questão de tempo e ao optar por um partido politico preferiu o PT, no momento em que um grupo de amigos – segundo a autoria – “o colocou contra a parede, tendo em vista a necessidade de um bom nome para concorrer ao legislativo baiano”.
Em depoimento a autora, Manoal Barreto lembra que “foi esse grupo de pessoas, que tinha forte identidade com o que o PT defendia, que fundou o comitê de campanha da primeira candidatura”.
Naquela época, as principais tendências do PT na Bahia eram a Articulação, que veio a se chamar de Campo Majoritário, grupo ao qual pertenceram Zezéu Ribeiro, José Sérgio Gabrielli e, em determinados momentos, Paulo Jackson; Democracia Socialista, cujo principal líder era o vereador por Salvador, depois deputado federal, Walter Pinheiro; e a Força Socialista cuja principal liderança era o deputado Nelson Pelegrino.
Também em depoimento a autora, Gabrielli lembra que, dentro do PT, PJ sempre foi uma liderança muito respeitada e sempre tomou posições equilibradas e nos encontros nacionais e estaduais foi balizador de opiniões. “Em alguns momentos, teve diferenças com a corrente dele, chegando a expressar isso, o que foi importante para conduzir o partido a tomar decisões”.
Para Zezéu Ribeiro, PJ “foi um grande companheiro, daqueles com quem se pode contar em todas as horas. Foi ele quem introduziu no PT da Bahia discussões referentes às questões ambientais. Ele tinha enorme capacidade organizativa e um compromisso com a construção do PT, tendo contribuído muito”.
Ao assumir o mandato como deputado estadual PJ foi combativo oposicionista ao carlismo sobretudo em defesa da Embasa e da água como bem público e morre no auge de sua carreira política, quando estava em ascensão.
Para o ex-depuado Haroldo Lima PJ marcou muito sua passagem pela Assembleia Legislativa com a “consistência dos seus argumentos, ele estuava muito e tinha dados sobre os temas. Era um deputado extremamente preparado e atuante, presente em todas as batalhas, sem perder a ligação com suas origens”.
O livro da historiadora Joalina é completo sobre a personalidade de Paulo Jackson, contém alguns erros nas colocações mais gerais da politica baiana como situar que Waldir Pires foi candidato a governador da Bahia em 1982 derrotado por João Durval, falhas que podem ser corrigidas numa nova edição, mas, nada disso tira o mérito do seu trabalho, denso, bem estruturado, com muitos depoimentos, a atuação legislativa de PJ inclusive nas comissões temáticas da casa, sua vida estudantil em Caetité, a formação de sua família (quando faleceu deixou esposa e dois filhos menores), a atuação sindical, enfim, um amplo apanhado sobre um dos parlamentares que se destacaram na oposição ao carlismo, o poder dominante de ACM.
O esforço para manter viva a trajetória de Paulo Jackson é grande sobretudo da Associação do Movimento Paulo Jackson, na luta para manter de pé o Parque Ecológico PJ, em Caetité, em eventos simbólicos do PT na Bahia um trabalho árduo de preservação de sua memória, hoje, feito mais por seus familiares e alguns abnegados amigos. A Assembleia e o PT também têm feito suas partes. A galeria da Casa Legislativa tem o seu nome.