Cita o autor que a primeira síntese do tempo – embora não seja originária – estabelece o “tempo como presente, mas como presente que passa
Rosa de Lima , Salvador |
09/05/2026 às 10:45
Gilles Deleuze
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Creio – natural que assim seja – que a maioria dos meus leitores nunca ouviu falar em Gilles Deleuze e confesso que ler os seus escritos é um ato de bravura uma vez que esse filósofo francês, considerado ícone dos movimentos libertários de 1968, é complexo no entendimento de suas teses filosóficas. A filosofia por si - os conceitos, o processo de criação, os comparativos dos pensamentos, etc – exige muita atenção dos leitores. E, de fato, exercício para os estudiosos dessa matéria.
A filosofia, no entanto, é o caminho, é a luz, e Delleuze (1925-1995) viveu momentos efervescentes do século XX (II Guerra Mundial; Paris, 1968; Movimento Feminista, etc) e é considerado um filósofo contemporâneo dos mais influentes, 30 livros publicanos, professor da Universidade Sorbonne (Paris), de Lyon e Vincenees.
O livro de Gilles Deleuze que vamos comentar se intitulada “Diferença e Repetição” (EDITORA PAZ E TERRA, 420 páginas, tradução de Luiz Orlando e Roberto Machado, 2025, 7ª edição, R$95,00 nos portais da internet) que é considerado sua obra básica para se entender a filosofia contemporânea onde o pensamento dito moderno nasce da falência da representação, assim como da perda da identidade e da descoberta de todas as forças que agem sobre a representação do idêntico.
No prólogo conceitua o autor que “o mundo moderno é o dos simulacros. Nele, o homem não sobrevive a Deus, nem a identidade do sujeito sobrevive à identidade da substância. Todas as identidades são apenas simuladas, produzidas como um ‘efeito’ ótico por um jogo mais profundo, que é o da diferença e da repetição”. Defende, pois, pensar a diferença em si mesma e a relação do diferente com o diferente.
Situa que a diferença “é o estado em que se pode falar de uma determinação () Da diferença, portanto, é possível dizer que ela é feita ou que ela se faz, como a expressão “fazer a diferença () o pensamento faz a diferença, mas o pensamento é o monstro () Tirar a diferença de seu estado de maldição parece ser, então, a tarefa da filosofia da diferença”.
O Autor submerge e analisa os conceitos aristotélicos, de Duns Scot, Espinoza e Neitzeche e a univocidade do ser. Isto é, definições dos tipos de diferenças que reportam entre ser neutro indiferente. Para o autor, Espinoza opera um progresso considerável e ao invés de pensar no ser unívoco como neutro ou indiferente, “faz dele objeto de afirmação pura”.
Quanto a repetição cita Humes e a célebre tese que “a repetição nada muda no objeto, mas muda alguma coisa no espirito que a contempla” e contesta: “como a repetição mudaria alguma coisa no caso ou no elemento que se repete, visto que ela, de direito, implica uma perfeita independência de cada apresentação? () A regra de descontinuidade ou de instantaneidade na repetição é assim formulada: um não aparece sem que o outro não tenha desaparecido () Como seria possível dizer ‘o segundo’, ‘o terceiro’ e “é o mesmo’, visto que a repetição se desfaz à medida que se faz?”
Para o autor extrair da repetição algo novo, extrair-lhe a diferença, é o papel da imaginação ou do espírito que contempla em seus estados múltiplos e fragmentados. “Do mesmo modo, a repetição, em sua essência, é imaginária, pois só a imaginação forma aqui o ‘momento’ da vis repetitiva (força repetitiva), do ponto de vista da constituição, fazendo com que exista aquilo que ela contrai como elementos ou casos de repetição”.
Cita que Plotino diz: “Ninguém determina sua própria imagem nem goza dela a não ser voltando para contemplar: para aquilo de onde se procede”.
No entendimento de Deleuze “a síntese do tempo constitui o presente no tempo. Não que o presente seja uma dimensão do tempo. Só o presente existe. A síntese constitui o tempo como presente vivo e o passado e o futuro como dimensões desse presente. () Todavia, essa síntese é intratemporal, o que significa que esse presente passa”.
O que se pode observar na concepção deleuziana é que o ser é integral – presente, passado e futuro – tem que se entendido dessa maneira e, embora o presente se esgote e se passe, não se encerra. Daí que a repetição está inserida na necessidade onde se acumulam as reservas humanas e suas necessidades, as reações e outros sentidos.
Cita o autor que a primeira síntese do tempo – embora não seja originária – estabelece o “tempo como presente, mas como presente que passa. O tempo não sai do presente, mas o presente não para de se mover por saltos que se reconhecem parcialmente. () O hábito é a fundação do tempo, o solo movente ocupado pelo presente que passa. Passar é precisamente a pretensão do presente. () O fundamento do tempo é a memória”.
Bem, não vamos aprofundar essa questão uma vez que nossos leitores não irão entender, análises do atual presente ao passado, como salvá-los de nós, o que está em Proust e sua obra, no cogito de Descartes e em Bergson, pois, creio, que o importante é entender Gilles Deleuze como um analista e contestador de muitos conceitos filosóficos que existiam e perduravam e ele abriu novas portas para os debates e afirmações de teses mais contemporâneas.
Deleuze, de fato, é complexo e matemático e também não vamos falar da repetição e o inconsciente além do princípio do prazer e os objetos virtuais e o passado, a ideia do prazer obtido e a ideia do prazer a ser obtido e as aplicações passada e futura.
O autor situa que os personagens paternos não são os termos últimos de um sujeito, mas os meios termos de uma intersubjetividade, as formas de comunicação e do disfarce de uma série a outra, para sujeitos diferentes, na medida em que essas são determinadas pelo transporte do objeto virtual.
“Demarcar alguma coisa ou alguém é uma ilusão. O falo, órgão simbólico da repetição, não deixa de ser uma máscara por estar oculto. É que a máscara tem dois sentidos. Dá-me, imploro, dá-me...o que, então? Outra mascara”.
Creio que é um bom exercício para se entender a importância e a natureza do ser a leitura de Gilles Deleuze. Quebra-se a cabeça, mas clareia muita coisa.