Cultura

CARTA A ZÉ CERQUEIRA, MEU TIOZINHO AMADO, p CLAUDIA CERQUEIRA ALMEIDA

Uma carta de amor da sobrinha para o tio
Claudia Almeida Cerqueira , da redação em Salvador | 29/03/2026 às 18:54
Leitura feita por Claudia durante o velório e despedida a Zé Cerqueira
Foto: BJÁ
  CARTA A ZÉ CERQUEIRA

Cláudia Cerqueira Almeida

Meu tiozinho amado,

Coisa boa é saber que você aproveitou a vida!

Você dançou, vibrou, tomou muito banho de mar, promoveu festas épicas, subiu diversas vezes no palco para ser aplaudido! Um verdadeiro rock star! Você brilhou!

Lá atrás, na minha adolescência, tentou me transmitir mensagens, tentou me ensinar uma nova postura frente à vida. Só que, naquela época, eu não entendia o seu dever de casa.

Depois que meu filho Gui nasceu, também nasceu uma nova história entre nós. Nos reconstruímos. E foi lindo e extremamente verdadeiro. Abandonamos o padrão professor e aprendiz e começamos a trocar ideias e dicas de vinhos, viagens e filmes. Trocamos vivências preciosas sobre a Síndrome de Down e, desde então, não teve mais jeito: o amor havia se instalado entre nós!

Eu amava te apresentar aos meus amigos como o meu tio mais culto. O mais inteligente. Aquele que sambava com as palavras e, quando as unia, fazia nascer textos incríveis! Quanto orgulho eu sinto!

Ainda no hospital, você me chamou no cantinho e disse: “Eu queria mesmo era comer um sarapatel.”
Peço desculpas por não ter lhe atendido, mas havia uma enfermeira alemã perto de nós!

Recentemente, você me disse três coisas que vou guardar pra sempre.

A primeira foi:
“Cláudia, ensine a Maitê a gostar de ler. Será a leitura que a separará dos tolos!” E assim fiz! Conselho de gênio a gente não desperdiça. Comprei 10 livros novos pra Maitê ler e depois me contar como cada história a impactou. Muito obrigada por isso!

A segunda coisa que recentemente ouvi de você foi brutalmente apaixonante. Ainda no hospital, olhando em meus olhos, sussurrou baixinho:
“Eu demorei pra te amar. Te amei muito mais no final do que no início. Até entender que você é inteira e eu te amo por isso!” Meu Deus, tio! Nem um momento difícil freia seu talento! Como você é incrível, cara!

Por fim, o meu abacaxi azedo, aquele que não aceitava ser interrompido enquanto falava; aquele que não gostava de encontros com mais de seis pessoas porque dizia perder a qualidade nas trocas; aquele que coava o melhor cafezinho do mundo; aquele que, quando me indicava um filme e eu dizia não ter gostado, logo retrucava: “então você não entendeu nada”.

Esse carinha complicado e perfeitinho me pediu para que escutássemos duas vezes a sua música favorita dos Beatles. Chama-se Because.

Peço silêncio a todos vocês, pra que possamos sentir seu amor e seu excelente gosto musical.

Abacaxi, eu te amo daqui até a eternidade. Logo mais, nos encontramos!