A realidade da vida de uma comunidade distrital do sertão da Bahia abalado com mortes de jovens numa escola pública
Rosa de Lima , Salvador |
21/02/2026 às 10:41
A Psicóloga da Serra dos Cardeiais, de TF
Foto: BJÁ
Aproveitando o gancho de quatro estudantes mortos numa escola do interior Norte da Baia, o jornalista Tasso Franco, 80, mais acostumado a escrever ensaios e crônicas se aventurou no romance e diria que se saiu bem.
Mesclou ficção e realidade numa obra em que o foco se concentra no fato de que, como o crime aconteceu numa comunidade distrital onde não se conhecia o trabalho de uma profissional de psicologia, a população ficou sem entender o porque das mortes de jovens um deles atirando em três outros e depois de matando. Como esse fato foi acontecer onde menos podia se esperar, num interior remoto distante dos grandes centros e dos Estados Unidos, pais onde costumeiramente acontecem essas matanças em escolas?
Em “A Psicóloga da Serra dos Cardeais (AMAZON, 131 páginas, capa e contra capa ilustrações de Seramov, design gráfico e editoração Tasso Filho, leitura no Kindlle 6 dólares, impresso 7 dólares mais o frete pedido pela Amazon.com) o jornalista vai revelar essa realidade e como foi possível (se é que foi) superar esse trauma muito forte entre as famílias, onde todos se conheciam, para enfrentar essa nova realidade.
Busca, assim, contextualizar o roteiro do romance observando as características culturais da localidade onde acontecerm os crimes, a realidade mística e do senso comum onde as pessoas, de uma forma geral, quando tinham um problema que mexesse com suas cabeças procuravam se aconselhar e se amparar nos mais velhos, nas rezadeiras, nos curandeiros, nos ciganos, no pároco (ou diácono) da igreja católica, enfim, nunca procuravam e se protegiam com a ciência, a psicologia, a terapia ocupacional, até porque desconheciam. Não fazia parte de suas rotinas.
Então, quando as mortes aconteceram e se tornaram midiáticas, até emissoras de TV internacionais apareceram para cobrir o assunto, o governo enviou psicólogas, promotores de justiça, policiais militares e outros técnicos, pessoas que eram estranhas á comunidade e embora tenham sido recebidas com respeito as suas atuações não modificaram a realidade local e muito do que falaram não foi entendido.
O autor, portanto, vai navegar a sua pena por essa trilha: o contraste entre os saberes de uma comunidade que estava sustentada na crença de suas práticas – a reza, a fé, o conselho, o chá, a natureza, etc; e o científico – a psicologia, a terapia, a análise do inconsciente, a ciência.
Isto é: como entender que os crimes foram praticados por um impulso do inconsciente de um jovem e isso nada tinha a ver, como se supunha, como um ato que foi praticado por influência do demônio.
É nesse ambiente que uma das sobreviventes da tragédia, a personagem Alicinha, ao participar de encontros com as psicólogas do governo se interessa pelo falar delas, pelos ensinamentos delas, e resolve ser uma psicóloga, se formar em psicologia.
E, de cara, quando manifesta esse desejo, seu pai (personagem Roque, um marceneiro) se posiciona contra entendendo pelo senso comum, que profissões boas e que dão dinheiro, se ganha muito dinheiro, são as de médico e advogado. Alicinha, no entanto, tem o apoio de sua mãe (Ohana), a qual, a partir do episódio dos crimes passa a ter sonhos com uma cobra gigante que tentava engolir seu marido. E era também um símbolo fálico.
E, na intenção de descobrir o que isso significava procura um tio do seu marido (Damasceno, caminhoneiro, vivido, andado pelo mundo) que, também por senso comum, lhe diz que isso poderia representar um sinal de traição e ela acredita piamente nisso e procura os meios de sua comunidade para tentar resolver esse mistério, uma vez que, nunca passou por sua cabeça a intenção de trair Roque e, também não sentia que seu marido fosse traí-la com alguém.
Os fados, no entanto, são os fados e os sinais de traição aparecem quando ela decide procurar o aconselhamento de uma vidente (cigana Samuelina) quando percebeu que uma cliente da marcenaria estava se insinuando com Roque via Whats-App. Esse é outro ponto de inflexão tratado pelo autor do uso das novas tecnologias numa comunidade distrital onde, em parte, ainda se vivia como na idade média, mas, que também já utilizava os iPhones e a internet.
É nesse caleidoscópico cultural que Ohana impulsionada também pelo inconsciente no dia em que vai se consultar com a vidente (na real, uma bruxa) acaricia o peitoral do motoboy (Marcelo) que a conduz ao povoado do Umbuzeiro e ela percebe (ou descobre) que a traição (ou a tentação para isso) tem duas pernas, o masculino e o feminino, e tanto pode partir do homem como da mulher.
Ora, pois, a essa época Alicinha já estudando psicologia em Aracaju é consultada pela mãe para entender o significado desse impulso e a filha vai falhar-se em termos científicos sobres os impulsos do inconsciente e os estudos de Freud. É ai que a mãe quase pira e contesta a filha e Freud entendendo que um estrangeiro da casa-do-0chapéu (expressão popular que significa morador distante) não conhece, não sabe nada da realidade das mulheres do distrito em que ela habita, e, portanto, suas opiniões são furadas ou de um “maluco”.
Eis, portanto, outro contraponto feito pelo autor para mostrar a distância entre as crenças populares (muito arraigadas nas sociedades distritais, mesmo no século XXI; e a ciência (psicologia, psiquiatria), os estudos e pesquisas cientificas.
O autor busca mostrar esses dois mundos tendo como pano de fundo as mortes dos jovens na escola e vai aproximando os pais de Alicinha da ciência, graças aos estudos da filha, em psicologia, numa faculdade em Aracaju, situação em que poucos de sua comunidade tinham na medida em que formar um jovem distrital numa universidade é pouco comum (ou incomum) e a comunidade continuava a vida na base das crenças.
Nesse pulo do entendimento, Ohana passa a entender que os impulsos sex que tinha fora do contexto Roque, como aconteceu com o motoboy, não representam uma traição e sim algo que emanava do inconsciente e não havia pecado na linha do Equador nisso, mas, também não poderia querer (ou admitir) que Roque aceitasse isso, esse seu novo pensar. E vão vivendo dessa forma, se adaptando as consequências e o ciúme que tinha da cliente de AJU com Roque se esvai na fumaça quando se conhecem e trocam carícias.
E, Roque, por conseguinte, vai admitindo que o mundo estava mudado e ele era um marceneiro do século XXI e essas coisas, essas simpatias, fazem parte do contexto.
O livro “A Psicóloga da Serra dos Cardeais” – como a maioria dos romances – tem uma mensagem muito forte nesse entendimento dualístico da existência de duas realidades onde se misturam crenças populares, saberes de bruxas e ciganos, do povo do sertão; e os saberes científicos da psicologia.
E, claro, o autor vai apimentando o romance com cenas de prazer, encontros imaginativos, sonhos, sexo, rezas, crenças, fé o que deixa a obra bem saliente e prazerosa.