Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA TRAVESSIA, 40 ANOS DE NAVEGAÇÃO, DE WALDY FREITAS

Um roteiro completou para quem deseja fazer essa incrível viagem (por etapas) e mais de 2.200 km pelas caudalosas águas do Rio São Francisco
Rosa de Lima ,  Salvador | 13/02/2026 às 18:45
  A Bahia tem 417 municípios, mais de 2.500 distritos e aproximadamente 6 mil povoados e todos têm história para contar. Esse universo abriga uma quantidade enorme de contadores dessas histórias, causos, lendas, etc, que se utilizam da oralidade e da escrita para dar vida a essas narrativas. Não sei precisar quantos são os escritores baianos – profissionais e amadores – e se existe alguma estudo sobre esse tema. Diria, no entanto, que são milhares, ainda que poucos milhares, talvez 1.000 a 2.000, e a maioria já editou um livro.

  Recentemente, comentamos alguns desses livros como os dos jornalistas José Américo (Personalidades de Ipiaú) e Chico Ribeiro Neto (Museu do Chico); Tanto no Céu quanto na Terra, de Luiz Carlos Facó; A História por trás da História (contos) organizado por Katiana Rigaud; e Soteropolitanos (contos), organizado por Matheus Peleteiro, de certa forma, uma pequena dimensão desse universo.

  Falaremos nesse comentário sobre mais um desses livros escrito pela pena de Waldy Freitas, intitulado Travessia – 40 anos de navegação (Editora Dourada, 177 páginas, designer da capa Davi Serafim, fotografias Lilian Andrade e Cristiano Márcio Pimentel, Camaçari, 2025, à venda portal Hotmart R$20,00) em que o autor narra travessias realizadas no Rio São Francisco, entre Pirapora e Petrolina, 2014-2015; no Baixo São Francisco entre Petrolina/Juazeiro a Piaçabuçu (Alagoas) e Brejo Grande (Sergipe) onde o rio desagua no Oceano, 2015; e no coração da Serra da Canastra, Minas, 2018, da nascente do Rio até a represa de Três Marias.

  Ou seja, uma travessia completa abrangendo os 2.207 km do rio da integração nacional (1.191 NM) e que atravessa 5 estados – Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe – uma enorme serpente, em locais que se assemelha ao mar; noutros corredeiras com pedras e paus, e todas essas viagens foram feitas de jet ski com turmas distintas, amigos fraternos, Waldy o piloto chefe. O livro, portanto, não tem conteúdo literário mais elaborado nem poético, até porque o autor é politico ou ex-politico e empresário.

  O importante a destacar é que se de um roteiro bem sinalizado com as coordenadas geográficas postas em documento, as latitudes e longitudes, citações de trechos onde é possível navegar sem sobressalto; outros que exige coragem, perícia e conhecimento náutico; as incertezas e imprevidências das localidades às margens do rio que serviram de apoio, trecho a trecho, algumas com precárias infra, porém, com populações ribeirinhas acolhedoras.

    Enfim, um traçado em que não se fala somente em navegação, a parte mais técnica, mas também de relações humanas, acolhimento, como é dormir uma modesta pousada à beira rio e desfrutar de um café da manhã com cuscuz e ovos. 

   Ou seja, algo fora da rotina, completamente fora do dia a dia dessas pessoas que participaram das travessias e que também exigiu cuidados especiais, uma logísticas bem organizada, uso de tecnologias, enfim, todo um suporte para enfrentar um rio-mar, traçoeiro, gigante, desconhecido, algo que só pode ser feito por pessoas que tenham além de conhecimentos náuticos, coragem, amor à aventura e estejam prontas para possíveis adversidades, o que, felizmente, pela narrativa de Waldy não aconteceram.

  Mas, só não aconteceram exatamente por isso que falamos acima: - preparos físico e mental, organização, método, recursos financeiros adequados, tudo pensado e posto no papel.

  O próprio Waldy narra na inicial do livro que “a vontade de conhecer o Velho Chico era imensa. Já vinha de muito tempo. Mas qual a informação que tínhamos de sua navegabilidade? Muito pouca. Apenas que era possível a navegação do trecho Pirapora M a Petrolina PE, um total de 1.326 km ou 716 NM. Ainda tinha na cidade de Sobradinho, a tal da eclusa, que não tínhamos informações nenhuma do seu funcionamento. E, depois de Petrolina-PE até sua foz, era possível navegar?

   Na primeira viagem (2014) a expedição foi formada com Waldy (comandante), Bilú – piloto e responsável pela manutenção dos jets; Ghirotti – piloto e responsável por documentar toda a viagem; Wagner e Ivan – experientes pilotos em jets. A infra: duas caminhonetes 4x4 e duas carretas duplas para levar jets (por terra) e foi feito todo o trabalho adicional desde “check-up” dos pilotos, revisão dos jets, vestimentas especiais, protetores solares, peças de reposição para jets; e camburões para gasolina. Com viagem programada para 15 dias integrou mais um personagem, Edésio, de Alagoinhas, amigo de Waldy.

  A viagem por terra se deu a partir de Camaçari, via Feira, Conquista, Montes Claros (MG), Pirapora (MG) e a partida de jets pelo rio dia 21 de julho de 2014, depois de conhecerem o barco vapor Benjamin Guimarães com primeiro percurso até a foz do Rio das Velhas e em seguida até a cidade de Ibaí e depois São Francisco, a turma se hospedando na Pousada Peixe Vivo.

  No dia seguinte navegaram até Matias Cardoso (175 km) e no roteiro até esta localidade estavam Pedra de Maria da Cruz, Januária (da boa pinga) e Itacarambi. Eis o saboroso da viagem: - Em Matias Cardoso – conta Waldy – conseguimos uma casa de uma senhora que nos recebeu, onde conseguimos três quartos para acomodar toda a equipe – ficamos em dupla em cada quarto e no quatro triplo ficou o pessoal de apoio.
  Daí, no dia seguinte, deram um estirão até Bom Jesus da Lapa (199 km) e passaram por Manga, Malhada, Barra da Parateca, Barreiros Grande e Campinho. Em Bom Jesus da Lapa pagaram R$100,00 a um pescador para tomar conta dos jets e ainda foram visitar a gruta do Bom Jesus, ponto turístico da cidade. 

  No quarto dia da viagem chegaram a Ibotirama, depois rumaram para Xique-Xique, Remanso (onde Edésio foi incorporado à comitiva), Casa Nova (eclusa) daí a Petrolina. Para transpor a eclusa tiveram o apoio de Vinicius e Vitinho do Iatch Clube de Petrolina. De Petrolina retornaram a Salvador.
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No capítulo II, Waldy narra a segunda viagem (nunca se navega na mesma água de um rio) com os participantes Waldy, Ghirotti, Wagner, Mário, Maneca e Lustosa em junho de 2015, “praticamente obedecemos ao planejamento da primeira viagem, mudando apenas o roteiro, ao invés do trecho Xique-Xique a Remanso, colocamos Xique-Xique a Sento Sé.

Ainda neste capitulo, o autor narra a terceira viagem de 15 a 31 de maio de 2024 com Waldyr Freitas Filho, Waldy Freitas Júnior (seu filho Cristiano Márcio Pimentel, Osvaldo Batista Ribeiro Júnior, Edmar José da Silva, Flávio Marcelo de Oliveira e Fabricio Paniago Gomes todos pilotos habilitados.

Já no capítulo III, o autor comenta sobre a travessia no Baixo São Francisco navegando do Petrolina até a foz do rio que na margem esquerda, a bombordo, localizada na cidade de Piaçabuçu (Alagoas) e na margem direita a boreste na cidade de Brejo Grande (Sergipe), num total de 718 km ou 387 NM, travessia da qual participaram os três ´pilotos mais experientes: Waldy, Ghirotti e Wagner, o que aconteceu em 2015.

 O primeiro trecho percorrido desse percurso foi até a cidade de Santa Maria da Boa Vista daí até Curaçá e depois Cabrobó, 220 km, uma aventura e tanto, trecho difícil no chamado polígono da maconha, com algum perigo, obrigando, inclusive a retirar os jets da água quando iam dormir nas pousadas.

   Daí seguiram para Abaré (BA), Belém do São Francisco (PE), Petrolândia (Hidrelétrica de Luiz Gonzaga0, Jatobá, Hidrelétrica de Paulo Afonso, canion, Pão de Açúcar (Alagoas), Penedo e Piaçabuçu (Alagoas) e Brejo Grande (Sergipe) onde está o Farol do Cabeço que sinaliza o encontro com o mar encerrando essa fase.

 Por fim, no capítulo IV, Waldy conta a travessia (2018) o trecho da travessia da represa de Três Marias a Pirapora e da nascente, na Serra da Canastra, até a Represa de Três Marias, navegação feita com Ghirotti, Maneca, Ailton e Sérgiio, total de 117 km navegados em caiques.

   O livro é completo, um manual para navegadores e o autor dá dicas de tudo que é necessário pra fazer uma aventura dessa natureza lembrando que se trata de viagens que só deve ser feira em grupo por pilotos experientes, quer seja, de jet, de barco, de lancha ou que tipo de embarcação for. 

  Ao contrário do que diz a canção “Os Argonautas”, de Caetano Veloso, que cita no refrão “navegar é preciso, viver não é preciso”. No mar ou rio, navegar é preciso e viver também.