Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado
Walmir Rosário , Itabuna |
24/01/2026 às 20:15
Tyrone Perrucho
Foto: Júnior Trjano
Na sede da Ceplac, na rodovia Ilhéus – Itabuna, Tyrone – ou melhor, Perrucho – eraum “boa praça”, sempre disposto a contar uma boa piada, ou simplesmenteproduzir situações inusitadas, sempre de forma discreta, disfarçada ou dissimulada.Nada que comprometesse ou que tivesse a intenção de prejudicar um colega, e sima finalidade de alegrar o ambiente. E não foram poucas as vezes em que arquitetouboas safadezas, no bom sentido.
Certa feita, um ceplaqueano se apaixonou pelas novelas da Globo e iniciou aprodução de várias, enviando os roteiros para o departamento da Vênus Platinada.Grandes pacotes com as sinopses eram postados nos Correios à vista de todos.Entretanto, não chegava uma simples resposta, nenhuma avaliação, um pedido demudança, ou que parasse de mandá-las por falta de interesse da emissora.E esse tratamento indelicado, beirando ao desprezo, começou a afetar o pretensofamoso novelista da Global, que passou a sofrer com a solidão que sentia em seumundo intelectual.
Centenas de páginas eram enviadas, e mesmo com o custoelevado cobrado pelos Correios, e nenhuma reposta. E isso passou a afetar otrabalho do colega, que foi diagnosticado como depressivo.Certo dia, sem qualquer aviso-prévio, eis que chega um envelope postado no Rio deJaneiro e entregue pelos Correios ao nosso promissor autor de novelas, tendo comoremetente o Departamento de Novelas da Rede Globo. Nosso colega escritor quasemorre de emoção e, com as mãos trêmulas, abre o envelope, e não acredita no quevê: uma correspondência analisando, meticulosamente, sua última obra.
E mais, muitos elogios pelos trabalhos enviados e os pedidos de desculpas dianteda demora do contato, culpa da monumental quantidade de sinopses recebidadiariamente e que levavam tempo na análise. Sim, eles eram criteriosos e cadaproposta era lida por três profissionais gabaritados, o que levava muito tempo naobservação. Mas teria valido a pena, pensou, e já se via fazendo parte da galeria debrilhantes intelectuais televisivos brasileiros.Em tempo, finalmente, o sucesso tinha chegado.
Agora, bastava arregaçar asmangas, pedir a antecipação das férias vencidas à Ceplac e estender noites a dentropara fazer uma criteriosa revisão, conforme solicitavam os dirigentes da Globo.Após longos 45 dias de trabalho, nosso colega novelista envia um novo pacotepelos Correios, com as recomendações de rapidez, pagando uma verba extra aonovo serviço lançado: o Sedex.Agora era só aguardar a aprovação. Planos para o futuro davam voltas com arapidez de um avião supersônico em seu cérebro.
Em determinados momentospensava solicitar uma licença sem vencimentos à Ceplac, quem sabe se desligar devez, pois sabia que não daria conta dos afazeres na instituição e na Rede Globo.Teria que chefiar um grupo de redatores para dar conta da nova novela global.Enquanto imaginava o sucesso de sua obra em todo o Brasil e, quem sabe, noexterior, chegou a consultar amigos e chefes sobre a possibilidade de sua saída da Ceplac, seus novos planos, mas tudo com muito cuidado.
E como o tempo não para,nosso colega começa a se impacientar com a demora da contratação. Três meses enenhuma correspondência, nenhum contato, sequer as informações pessoais parao envio da passagem aérea para o Rio de Janeiro.
Mas como nesse mundo de meu Deus nada fica permanentemente em segredo,algumas pessoas tomam conhecimento que as correspondências da Rede Globo,apesar do carimbo de postagem do Rio de Janeiro, teria sido realizada em Itabuna,parte dela na sede regional da Ceplac. Mas como explicar o carimbo dos Correiosnuma agência de uma das grandes avenidas do centro do Rio de Janeiro?Amarrando as pontas, os colegas chegaram à conclusão de que tudo não passavade uma singela brincadeira de Perrucho (Tyrone), que teria resolvido dar umempurrãozinho no sentido de recuperar a autoestima do colega ceplaqueano.
Aproveitando a viagem de outro colega ao escritório de compras da Ceplac, no Riode Janeiro, teria pedido para que fizesse a postagem. Na verdade, a intenção eratornar a correspondência um medicamento eficaz no combate à depressão docolega.Apesar de alguns colegas explicarem ao futuro novelista que a correspondênciateria sido uma simples molecagem de uma pessoa que o admirava, o “intelectual”ceplaqueano nunca acreditou nessa versão, pois possuía todas as provas materiaisenviadas pelos dirigentes da Vênus Platinada.
E ele não perdeu a esperança econtinuou a dedicar parte de suas noites às novelas que fariam retumbantesucesso. De forma dissimulada, (Tyrone) Perrucho sempre lhe perguntava quando suas novelas iriam ao ar, mas elas nunca apareceram na telinha da Globo.