Cultura

AS BRIGAS DE RUAS NO MEU TEMPO DE MENINO E 'GUERRAS' DE TRAVESSEIROS

Ninguém ficava 'inimigo' do outro por essas porradas que aconteciam sempre em casa, com as 'guerras' de travesseiros e nas ruas
Tasso Franco , da redação em Salvador | 10/10/2020 às 08:05
Briga de rua
Foto: Seramov
  O jornalista Tasso Franco publicou neste sábado no aplicativo wattpad a 23ª crônica do seu novo livro "No Meu Tempo de Menino" (1945/1954, Serrrinha/BA, falando das brigas de rua e das 'guerras' de travesseiros. Leia abaixo e as demais crônicas no wattpad.

  AS BRIGAS DE RUAS E AS ‘GUERRAS’ DOS TRAVESSEIROS ERAM ROTINEIRAS

     
  Criança briga por qualquer bobagem. Se o irmão pega o biscoito que seria para ele tem-se um pega. Sempre sobra para a mamãe que se torna uma mediadora do conflito. Se o irmão pega o velotrol da irmã ela cai no berreiro, dá xilique, há outro pega e a mamãe, mais uma vez apazigua. 

  Era assim o tempo todo em casais que tinham mais de três a quatro filhos, no meu tempo de menino. É provável que seja até os dias atuais. Não tenho muita certeza porque os meus dois filhos já estão grandes e eu integro o MSN, o Movimento dos Sem Netos.

   Uma outra briga que a gente participava era a 'guerra dos travesseiros'. Creio, também, que toda família que tem muitos filhos já passou por esse momento. Lá em casa, a 'guerra' era feita no quarto dos meninos, meu e do meu irmão, mas também participavam as meninas e meus primos Franklin e Leonor, esta última agregada um tempo lá em casa. 

    Ninguém sabia quem começava a 'guerra'. O certo é que, uns cinco a seis meninos reunidos no quarto, alguém jogava o travesseiro no outro e aí a 'guerra' começava, cada um usando suas armas, os travesseiros. Em instantes, com a algazarra no quarto, minha mãe batia na porta e mandava acabar a brincadeira.  

    - Abram a porta, vamos, gritava ela.

    Alguém abria a porta e os outros ficavam deitados nas camas se fingindo de 'mortos' aparentemente dormindo. 

   - Vamos parar com essa brincadeira, já - reclamava e voltava para a sala.

      Era ela dar as costas e a brincadeira recomeçava ainda mais forte. Ela então voltava e acabava de vez com a farra. 

    De vez em quando alguém saía chorando pela sala diante de uma 'guerra' mais esquentada e ia parar no colo da mamãe. Ou mais grave, um travesseiro furava e o enchimento sujava o quarto.

    - Eu sempre digo a vocês para pararem com essa brincadeira, pois, daqui a pouco alguém vai ferir os olhos, advertia.

    Outras brigas no meu tempo de menino aconteciam na Praça da Usina, nos jogos de gude e nos babas. 

    Menino, desde pequeno, não gosta de perder. Quando a gente perdia um baba e alguém viesse abusar, charlar, aí tinha pega. Briga de tapas e de lutas. Ninguém sabia dar murros no estilo boxe e sim dar tapas e pegar o outro pelo pescoço. Eventualmente tinha uma mordida numa orelha do outro, mas, o nosso código de ética não permitia esse tipo de ação. Quem assim o fizesse era recriminado.

    - Ele mordeu, gritava o ferido. E a briga era apartada.

     Chutar nos ‘quimbas’ também era uma tática ofensiva das mais cruéis. Todos usavam calções folgados sem proteção para o “lindo” e os “bagos”. Daí que, nas brigas eram pontos vulneráveis. 

    As brigas de tapas nos babas eram eventuais. Normalmente as partidas começavam e terminavam numa boa. Alguém poderia se ralar ou ferir um dedão no pé no decorrer do jogo. E só. 

    Quem mais sofria era o goleiro, pois, o campo do largo da Usina era uma lixa. Ninguém queria pegar no gol e a solução era o rodizio. A cada gol sofrido o goleiro era mudado. Se o menino deixava a bola passar de propósito para sair do gol, tinha briga.

   - Ele tomou o 'frango' de propósito e vai permanecer no gol, gritava alguém.

    O goleiro reagia: - Eu não sei pegar no gol e a bola passou por debaixo de minhas pernas sem eu querer.

    Nessas discussões, às vezes, tinha porrada.

       No jogo de gude os competidores tinham que lançar a gude com o braço colado no lado direito do corpo e a mão na altura da cintura. A gude ficava entre o polegar e o indicador. Tinha que ser jogada sem que o menino abaixasse o corpo ou estirasse o braço. Quem acertasse na gude do outro levava-a como prêmio. Quase sempre, quando alguém agia estirando o braço ou inclinando o corpo tinha pega.

   - Você acertou na minha gude mas estirou o braço. Não vale - reclamava um dos competidores.

   -  Não estirei o braço coisa alguma. Você tem que pagar a gude - respondia.

    - Não vou pagar nada. Você tá roubando - esbravejava o competidor.

    - Não estou roubando nada sêo porra. Ladrão é você - rebatida.

      Pronto, começava a porrada.

     Dois outros jogos eventualmente também resultavam em brigas: ferrinho e pião. Ferrinho era um jogo que se usava um pequeno ferro de 20 a 25 cm com ponta afiada e se arremessava no solo úmido, com uma linha demarcada que cercava o adversário em armadilhas. E o pião era um objeto robusto que se lançava usando-se um cordão ensebado. 

    Outra brincadeira que representava mais uma luta do que uma briga de criança era a cabana em que um menino corria atrás do outro até derrubá-lo no chão, antes que ele chegasse a um ponto demarcado. 

    Às vezes tinha porradas. Mas, na maioria das vezes, uma disputa de força, tipo luta romana, sem conflitos. Era na base da força bruta, sem técnica, pois, não havia em Serrinha academias de nada. O único esporte praticado com alguma técnica era o futebol.

   Nessas brigas de meninos ainda lembro dos embates de badoques ou fundas em que se trocavam 'tiros' usando-se pequenas pedras e até gudes. De vez em quando um acertava o coco do outro formando um galo. O rei do badoque era 'Bacalhau' um menino que morava no Largo da Usina, ao lado da casa de Sêo Neco.

    Tinha também as disputas ou 'brigas' de turrões - bolos de barro - que eram arremessados uns contra os outros, isso quando a Igreja Nova começou a ser construída, nos anos 1950, e ao cavarem os alicerces ficaram rumas de barro na praça. A gente se divertia nessas pequenas montanhas. E era inevitável uns jogarem as bolas de barros contra os outros.

    Já maiorzinho aconteciam discussões acaloradas e até brigas na porta do cinema no dia das matinées, domingo à tarde, na troca de revista e na fila para a compra dos ingressos. Menino tem arte.

   Não me recordo de nenhuma briga por causa de namoradas. A gente poderia ter até ciúme e 'marcar' uma pessoa, mas, nunca brigava, até porque, diferente dos dias atuais, ninguém falava em namoro no meu tempo de menino. A gente só veio se interessar pelas meninas, pra namorar, quando já estava no ginásio.

    Pois é, no meu tempo de menino, as 'brigas' - se é que podemos chamar assim - eram essas. Inocentes. Ninguém ficava inimigo de outro. Tinha uma rusga no baba num dia e no outro dia já estava todo mundo se falando e brincando de novo. 

   Com os irmãos, então, a disputa por uma bolacha se encerrava antes mesmo de concluído o café da manhã.