A fonte de Catarina Paraguaçu, a mãe do Brasil, vive abandonada na Graça
Tasso Franco , da redação em Salvador |
11/11/2016 às 11:54
Monumento ao Caboclo na Praça 2 de Julho que o povo chama Campo Grande
Foto: BJÁ
Já comentamos neste site que a cidade do Salvador não valoriza suas personagens históricas - salvo exceções - e o exemplo mais notório do que falamos é que a capital primeira do país, fundada a partir de 29 de março de 1549, não tem um memorial dedicado ao seu fundador, o português Thomé de Souza. O advogado Ademir Ismerim, que não é historiador, vem lutando há anos para implantar esse memorial, sem êxito.
Ismerim fez levantamentos preliminares, participou de discussões, esteve em Vila Franca de Xira, Portugal, onde estão sepultados os restos mortais de Thomé numa tumba abandonada, há promessas do poder público através da Fundação Gregório de Mattos em ajudar nessa tarefa, mas, até agora nada feito.
Não é só Thomé de Souza que foi desprezado pelo poder público e os segmentos institucionais da Cultura no Estado, ainda que haja uma estátua do portuga em frente a Câmara de Vereadores e a praça matriz da cidade tenha o seu nome. Vários outros também assim o foram. Luis Dias, o mestre-de-obras construtor (o equivalente a arquiteto na época) não tem seu nome associado sequer a um beco; o Ouvidor Mor, Pero Borges (Justiça), Antonio Cardoso de Barros (Fazenda) e o capitão mor Pero de Góis (Armada), pior ainda. São desconhecidos.
Francisco Pereira Coutinho que foi o primeiro donatário da Bahia e fundou a Vila Velha do Pereira, no Porto da Barra, só é lembrado porque tem o nome de um restaurante; e o Diogo Alvares, o Caramuru, que morou no morro da Barra (atual propriedade dos Mariani) foi homenageado com uma praça mambembe no Rio Vermelho; e sua esposa Catarina Paraguaçu, que deveria ter nome e estátua no Largo da Graça onde fundou a primeira igreja do Brasil, sesmaria que foi doada aos beneditinos, tem uma fonte abandonada enquanto o largo recebeu a estátua de Dr. Patterson, um médico que viveu na Graça.
O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia que poderia rever algumas dessas questões não gosta de polêmica e vive em silêncio promovendo seminários e palestras.
Olha só a mudança que fizeram nos festejos ao 2 de Julho. Quando as tropas de Lima e Silva invadiram Salvador na manhã do 2 de julho de 1823 na guerra da Independência, batalha que não houve porque Madeira de Melo fugiu na madrugada com sua Divisão Auxiliadora e alguns comerciantes portugueses, na passagem do Exército Libertador pelo Terreiro de Jesus houve um "Te Deum", missa lovatória. E assim seguiu sendo feito ao longo dos anos e nas comemorações a data da independência.
Quando chegou no governo Antonio Imbassahy, na Prefeitura de Salvador, diante de protestos que ocorriam na chegada do cortejo ao centro histórico com vaias às autoridades e sobretudo a ACM, a Fundação Gregório de Mattos antecipou o "Te Deum" para 1º de julho, mudando a história, e continua assim até hoje.
Um dos motivos que levaram a essa mudança foi um bafafá com a presença de Lula na boca da saída da Cantina da Lua e chegada ao Terreiro, atritos com a Policia e agentes da Casa Militar do governo.
Recentemente, segmentos da sociedade, com base numa personagem de ficção de Ubaldo Osório, historiador de Itaparica, avô de João Ubaldo Ribeiro, o qual criou um personagem que teria dado uma surra de cansação em soldados portugueses, virou heroina ao 2 de Julho. Imagina! se alguém iria dar uma sova em soldados portuguesas armados de mosquetões.
A rigor, as lutas pela independência em Itaparica não existiram. A guerra ao comandante português Madeira de Mello foi uma guerra de cerco. Os víveres que abasteciam Salvador via Pirajá/Estrada da Rainha e por mar através do Paraguaçu até o cais na Ribeira do Góis foram bloqueados em Itaparica e em Pirajá.
Daí que Madeira foi ficando sem suprimentos e fugiu para Lisboa na madrugada de 2 de Julho.
Maria Quitéria, a heroina do 2 de Julho, teve o mérito de alistar-se no Batalhão do Periquitão, o tio de Castro Alves, mas, não lutou porque esse batalhão não participou de nenhuma batalha. Portanto, Maria Quitéria não deu um tiro sequer. Foi condecorada por Dom Pedro II depois que participou da Guerra do Paraguai, como enfermeira.
E Joana Angélica, outra heroina, teve morte casual em fevereiro de 1822, numa refrega que houve no Forte de São Pedro entre soldados portugueses e uma tropa brasis. Os portugueses desceram pela rua do Convento da Lapa, alguns quase bêbados, e tentaram invadir a clausura do convento. O capelão Luis Anselmo (nome de bairro na capital) recebeu uma coronhada e desmaiou e a freira usou o corpo para impedir a invasão sendo morta por uma baionetada. Não teve nada a ver com a guerra da Independência, mas, ela entrou no rol das heroinas da Independência.
Ainda sobre a Independência foi erguido um monumento aos heróis da Independência no Campo Grande e a Praça passou a se chamar 2 de Julho. A reverência maior é para a figura do caboclo, em tese, respresentação de Caramuru, que era português e não caboclo; e a cabocla, que tem carruagem no desfile mas não está no topo do patamar é a representação de Catarina Paraguaçu, que era tupinambá e não cabocla. O caboclo é a mistura do negro com o tupinambá.
Mais curioso, ainda, é que ninguém chama a Praça 2 de Julho e sim Campo Grande, que era o antigo Outeiro Grande da época de Thomé de Souza. A praça Inocêncio Galvão, lá depois do Mocambinho e uma das bocas de saída da rua da Forca, é que é chamada de Largo 2 de Julho. Entenda um barulho desses.
Salvador tem dessas maluqiuices. A Avenida Paralela chama-se oficialmente, Luiz Vinna, mas, muita gente só a trata de Luis Viana Filho que era filho de Luiz Vianna, ambos ex-governadores da Bahia. Até nos documentos oficiais da governadoria, da Assembleia, da SEC, da Sefaz, lê-se nas correspondências CAB, Av Luis Viana Filho.
Quer mais: a Av Sete de Setembro, que completou 100 anos em 2016, vai da boca da Praça Castro Alves ao Farol da Barra e no seu percurso tem 9 nomes: Ladeira de São Bento, Relógio de São Pedro, Praça da Piedade, Mercês, Praça do Campo Grande, Corredor da Vitória, Ladeira da Barra, Porto da Barra e Farol da Barra.
Tudo isso é Av Sete, mas, o trecho mesmo que a população chama de Av Sete é entre o topo de São Bento e o Relógio de São Pedro; e da Igreja de São Pedro até a entrada das Mercês.
Tem muito mais e depois em conto.