quarta-feira, 24 de julho de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

Mulher do Rasta compra adega, mas faltam vinhos para estrear

Que dilema! Emergente classe C diz que só inaugura a adega com um cabernet sauvignon e o Rasta responde que não sabe falar francês
18/07/2016 às 19:54
   Quase todo santo dia falo para minha esposa, dona Céu, que ela tem que desistir dessa mania de tentar querer ser parecida com as ricas, porque sendo uma pessoa da classe C Emergente é igual a periquito e 'nunca vai chegar a ser papagaio'.

   Mas ela não me ouve, não desiste. E eis que apareceu aqui em casa com uma adega para 24 garrafas de vinho comprada no Mercado Free, fiado, isso em 24 meses, ou seja, em dois anos, o que remete o fim das prestações para o ano eleitoral de 2018.

   - Que tal! gostou? - perguntou-me mostrando a peça já instalada num canto da nossa varanda, como uma espécie de troféu.

   - Gostar eu gostei. Agora, quero saber quem vai pagar a conta e quem vai abastecer essa adega, com vinho custando os olhos da cara - respondi.

   - Isso é o de menos porque o que não faltam hoje são promoções na internet da venda de 'vinos' baratos - já falando vinho em espanhol - e, quem sabe, você pode pedir aos seus amigos umas garrafas.

   - É louca! Com que cara vou chegar pra doutor Zéu, pro conselheiro Souza ou pra doutor Maurício de Tebas pedindo um vinho? Nem morto.

   - Eles são pessoas de poses, de muitas garrafas de 'vino' e não vão nem sentir se ofertam uma ou duas 'botellas' - lá veio ela de novo falando em espanhol.

   - Posso até consultar Badu, o intelectual de bigode, nosso conselheiro, onde encontrar boas promoções de vinhos, agora, pedir vinhos aos graúdos, nem pensar.

   - Então se vire porque a adega já está na varanda, me comprometo a pagar as prestações mensais, agora, o vinho, se você quiser beber tem que comprar.

   - Que tal adquirir um garrafão daqueles de 'Sangue de Boi' de cinco litros e desdobrar com um pouco d'água da Embasa e colocar em garrafas de litro? - perguntei.

   - 'Sang de bouef' - respondeu-me em francês - você tome com seus amigos pobres la na Cantina da Lua, lá no Restaurante de Alaíde do Feijão, porque aqui em casa só entra marcas de 'Mendoza arriba' - esnobou.

   Saí pra trabalhar no Pelô ciente de que a mulher havia incorporado o espírito da bonança, da classe alta, da 'zelite', e sabendo que doutor Mauricio de Tebas havia ido a Mendoza falei com o assistente dele, doutor Zéu, pra dar-me umas dicas onde pudesse comprar um terralis do mais barato.

   Enquanto doutor Zéu não respondia, pois, estava em afazares, liguei para Badu a fim de ouvir também uns conselhos.

   - A última de dona Céu é que ela comprou uma adega fiado e quer que eu compre os vinhos - comentei com o conselheiro.

   - Nada mais justo. Só não queira colocar latões de cerveja na adega nem os licores de Cachoeira que não são adequados.

   - Até pensei nisso e com certeza teria o apoio da irmã dela, dona Rilza Cervejão, a qual como o próprio nome já diz adora uma gelada. 

   - Deixa de ser bronco e compra uns chilenos, uns italianos, uns portugueses - sugeriu Badu.

   - Que chilenos! Não posso comprar nem um chinelo quanto mais chilenos. A não ser que você mande aí de Brasília alguma sobra dos grandes do Jaburutu ou consiga uma emenda parlamentar para me ajudar - sugeri.

   - Você é louco! Isso dá cana. Doutor Morro está de olho em tudo. E o doutor Lavaroscki mais ainda. 

   Resolva sua parada por aí e passe bem. E mais: diga a dona Céu que no verão prepare uma moqueca que voltou por aí pra saborer um pescado e baforar um cubano.

   - Tá bom, desligei o fone.

   Nisso liga-me doutor Zé dizendo que doutor Mauricio de Tebas sugeriu uma lista dos Mendozas e pediu que anotasse num papel porque os nomes eram dificeis. 

   E soletrou: Carmelo Patti, Clos de Chacras, Cobos, La Azul, Rucan Male e Alta Vista, os tops de linha.

   Berrei no telefone: - Você tá louco com esses tops.

   - Mas tem também os mais em conta: o Goulart, o Trapiche e o Trapézio na faixa de R$25,00 a garrafa.

   - Aí menos mal, mas, ainda assim passa do meu bolso. Muito grato por seus conselhos.

    Nem falei se dr Tebas poderia mandar uma das suas 700 garrafas para mim. 

   Quando cheguei em casa, de mãos vazias, Céu inquiriu: - Trouxe quantas garrafas? 

   - Nenhuma,  respondi. Mas tenho umas dicas e uma lista dos vinhos de Mendoza.

   - Fale lá.

    Narrei os títulos e sugeri que comprassemos fiado meia duzia de trapézios e uma barra de mortadela.

    Céu olhou-me de baixo pra cima, de cima pra baixo, colocou as mãos nas 'cadeiras', rodou a baiana e zangou-se:  - Eu não só mulher de circo para tomar um vinho desses e muito menos esposa de padeiro pra comer pão com mortadela. 

   Resultado: a adega esta fechada até hoje porque ela disse que tenho que comprar um tal de cabernet sauvignon, como se eu soubesse falar francês. 

   Eu! heim! Fui tomar meu 'rabo de galo' e assistir a novela Velho Chico sozinho no sofá.