quarta-feira, 24 de julho de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

MULHER do Rasta vai ao samba pra Xangô com traje do inverno baiano

Mulher do Rasta e amigas se dão bem sambando de botas
27/06/2016 às 11:09
  Bastaram uns pingos de chuva e dona Céu, minha digníssima, tirou suas botas de cano longo do armário e mais o casaco de lã estilo espinhos e partiu para enfrentar o inverno de Salvador. Tomei aquele susto inicial, mas conhecendo como conheço minha esposa, relevei. 

   Na saída de casa, no entanto, pilheriei: - Vai pra Suiça encontrar Paulo Coelho?

  - Só não digo que vou encontrar sua senhora mãe porque não sou parente daquele Vieira Lima da lingua afiada.

   Cai na gargalha e avancei: - Você tá parecendo uma árvore de natal.

  - Você não vê que está chovendo, que a cidade amanheceu gelada. Não sou eu que vou trabalhar usando tênis pra molhar meus joanetes. Depois irei ao Samba Junino do Marujo com minhas amigas Andrea Lady Lú e Kaline Berimbau e preciso me apresentar de forma decente.

   - E onde vai ser esse samba?

   - No Engenhjo Velho da Federação. Lhe aguardo por lá, na praça da casa do poeta - frisou.

   Não adiantei mais em comentários porque sei como é o 'inverno baiano' da soterópólis. Quando os primeiros sinais de chuvas e ventos aparecem, frio que não assusta nem um casal de pombos na Praça Municipal, as mulheres se empavonam dos pés à cabeça e a gente tem vontade de sorrir aos vê-las nas ruas, nos shoppings, nos consultórios e asism por dia.

   Fiquei na minha e deixei dona Céu ir numa boa mesmo sabendo que sentiria calor logo mais e marcamos de nos encontrar poir lá.

   Porque em Salvador o sol é o dono do trono e até o prefeito só inaugura obras, como aconteceu na Ladeira do Cacau, com tempo firme. Com chuva, nem pensar. Não tem guarda-chuvas na Prefeitura, se supõe.

   Ao dirigir-me ao trabalho - o Pelourinho em termos de turismo está numa decadência de dar dó - liguei para nosso conselheiro de todas as horas, Badu, o intelectual de bigode, para saber como andava o tempo em Brasília e falar do 'inverno' baiano.

   - Aqui a temperatura só está alta no Congresso Nacional e nos Palácios da Alvorada e Jaburu, com delações sobre roubalheiras que parecem não ter fim. No mais está clima ameno, temperatura baixa com o sopro de vento que vem do Pantanal.

   Então, comentei que, no nosso 'inverno' a cidade já estava repleta de mulheres com botas canos longos e sambas juninos.

   - Você está brincando comigo. Inverno baiano em Salvador só pode ser piada de Painho, aquele personagem do saudoso Chico Anysio. Se ainda fosse em Conquista ou no Morro do Chapéu, tudo bem. Mas, em Salvador, só rindo.

   Falei sério e comentei sobre o traje de dona Céu e os prováveis de suas amigas baianas. E mais disse que, no São João, a capital fica vazia mas tem festa no Pelô. E com a lei da zabumba, muitos forrozeiros baianos tocam por lá, mas, quem leva o grosso do capilé são os artistas nacionais.

   - E você vai tocar seu tamborim nalgum lugar?

   - Vou repicar no Samba Junino do Marujo onde encontrarei as madames por lá.

   - Tenha boa sorte, afiança Badu e leve um leque para abanar essas moças quando calor começar.

   Sorri. Lá pela boca da noite me dirigi ao Engenho Velho da Federação. O local tava repleto de juninos por todos os lados e o Samba do Marujo com nego Bobo botando para quebrar. 

   Peguei meu tamborim e entrei na roda e lá fui-me no embalo da canjica e dos licores. Adiante, deparei-me com dona Céu e suas amigas sambando de botas de cano longo. Andréia, salvo engano, já estava com soa botinha comprada em Karmélia nos dedos das mãos, com os pés inchados, descalços, de tanto sambar.

   Aproxime-me e falei: - Que aconteceu?

   - Bota vagabunda. Comprei ela e mais três pares de sapatos numa promoção e não aguentou um samba junino. Feriu meus pés.

   Dona Céu suava em bicas com seu capote de espinhos já amarrrado na cintura. Não arreliei com medo de receber uma mão de amendoins na fuça. E Kaline, também de botas, sambava na ponta dos pés feito uma bailarina.

   Repiquei o tamborim nos ouvidos de dona Céu para ela se animar, mas, pouco adiantou.

   - Quer me deixar surda. Estou pegando fogo de calor e essas botas não servem pra sambar - comentou.

   - Eu avisei que você ia se dar mal com esse traje do 'inverno baiano' - aduzi.

   - Pouco importa. O importante é que eu e minhas amigas abafamos e recebemos elogios como o 'trio de botas sambador' e isso é o que vale.

   O samba junino seguiu adiante até altas horas em homenagem a São João, em noite de Xangô, o trio encapotado sambando e cantando, saboreando pacotes de amendoim e espigas de milho cozido.

   Quando chegamos em casa, Céu estava 'morta', literalmente. Pegamos um Uber e, a essa altura, Céu com as botas em mãos e os joantes inchados, fomos para a Caixa D'Água, bairro onde moramos. 

   Desceu do carro mancando e feliz da vida. No lusco-fusco do samba surrupiaram seu casaco de espinhos que estava amarrada à cinta e nem notou.

   - Cadê meu casaco - murmurou já sentada no sofá de casa com os pés postos numa bacia de água morna? - perguntou.

   - Ficou no Engenho Velho, disse sorrindo.

   - Que alguma madame faça bom uso dele - compadeu.

   Ligo a TV e uma reportagem mostra imagens de São Joaquim, lá em Santa Catarina, nevando.

   Dona Céu soloneta, cansada do samba junino, confunde as bolas e diz: - Olha aí vai nevar em Salvador nesta noite. Meu casaco de espinhos fará falta.