ter?a-feira, 02 de junho de 2020
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

VELHINHOS LIGARAM O F*DA-SE

O senso de coletividade também se mostra ausente quando este senhor bravateiro leva para sua família o vírus ou a possibilidade de contágio
27/03/2020 às 19:45
  O fim do mundo se aproxima e, ao que tudo indica, todos aqueles filmes sobre o apocalipse que vi no cinema e na TV erraram feio. No lugar de zumbis, extraterrestres, monstros, teremos idosos enlouquecidos pelas ruas, correndo com seus carrinhos de compras e baralhos, carregando pilhas e mais pilhas de papel higiênico e fardos de água mineral. Será matar ou morrer. 

  Sinceramente, achei que o fim dos tempos seria mais glamouroso. Pensei em Matrix, com a Inteligência Artificial nos usando como baterias do sistema, ou no Exterminador do Futuro viajando pelo tempo para matar o líder da rebelião da raça humana. Porém, terei que me contentar com uma "gripezinha", aniquiladora de idosos, estes os verdadeiros rebeldes da pandemia. 

  Diante dos prognósticos e da ausência de lideranças empáticas o suficiente para cuidar das nossas vidas, me resta observar o pior e o melhor que o ser humano tem a oferecer quando defrontado com a proximidade da morte. Não é um privilégio brasileiro esses comportamentos completamente insanos. Tenho amigos na Europa e nos EUA que me relatam casos bizarros em todos os cantos do planeta. Mas só posso contar o que vejo, né?

  Hoje, por exemplo, no hortifruti aqui perto de casa, um senhor se gabava de ter saído "escondido". Disse ele pra mim que não passávamos de um bando de frescos. Ele ameaçou falar muito perto de mim, mas logo botei a mão na frente e disse para se afastar. Adoraria viver, como ele, na plena ignorância e fingir que nada de grave está acontecendo. Como jornalista, não me dou esse luxo. 

  Daí que comecei a pensar nos motivos da rebelião da terceira idade. A senhora do meu lado, que passava o dedo na língua para abrir o saco plástico, deve ter estocado em casa todo o álcool em gel que milhares de trabalhadores precisam usar para sair de casa. Com esses frascos em casa, ela deve estar se sentindo a mais segura do planeta. O saco plástico na boca, deve ser apenas um detalhe. Tudo é uma questão de como se vê o problema.

  A pandemia mostrou que a fé na humanidade é difícil de ser mantida diante de tamanho egoísmo. O surto na compra de papel higiênico é a maior mostra que o coronavírus atacou de fato o sistema psíquico das pessoas. Para que tanto papel higiênico se somos obrigados a ficar em casa? 

  O senso de coletividade também se mostra ausente quando este senhor bravateiro leva para sua família o vírus ou a possibilidade de contágio, ao querer ser o mais valente em tempos de cautela. O mesmo posso dizer das famílias quatrocentonas da Avenida Atlântica de Copacabana, mantendo suas empregadas domésticas, em sua maioria residentes de favelas, em barracos onde moram 10 pessoas em apenas um cômodo. O álcool em gel em toneladas, contudo, lhes garante a segurança.

  As senhoras e senhores passeando entre gôndolas do supermercado, mostra que a velhice nos faz perder o medo da morte. Só posso pensar que é essa segurança que garante tamanho descaso com o que vemos na TV: 600 mortes por dia na Itália, pista de patinação de gelo servindo como necrotério na Espanha e o sistema de saúde de Nova Iorque entrando em colapso. 

  Os velhinhos, acredito, ligaram aquele famoso botão do F*da-se que a gente insiste em ignorar. Após os 70 ou 80 anos, eles devem achar esse botão, mais escondido que o Ponto G das mulheres e, literalmente, "cagam e andam" (desculpem o termo) para pandemia, endemia, fim do mundo, apocalipse e afins. 

  A cidade fantasma, que se esconde do vírus e dos desmandos políticos, teme pelos idosos, sabendo que eles não temem nada. Estão nas ruas, passeando, talvez cientes que serão preteridos na difícil escolha dos médicos em trata-los ou deixar lugar para os mais jovens. 

  Não os critico. Apenas peço que eles pensem nos filhos e netos, que podem pagar um preço alto pela teimosia. Espero que sobrevivam e que nós, como país e pessoas, deixemos a crise para trás nos tornando melhores. 

Obs: a foto que ilustra essa matéria é do perfil @xanoquita do Twitter. Uma excelente ideia!