segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Fogo no museu e triste sina do Rio

O que diria agora a nobre Leopoldina ao ver sua casa em chamas? Duzentos anos de história transformados em cinzas?
04/09/2018 às 16:18
O Museu Nacional não tinha cara de museu. Era imponente, mas sem formalidades. Não nasceu como museu. Foi casa de um traficante de escravos e depois residência da família imperial brasileira. A Quinta presenciou momentos importantes da nossa história. Lá nasceu Dom Pedro II, que quando garoto, tinha toda a Boa Vista para brincar. Em uma das salas, Leopoldina assinou a independência do Brasil. Por não ser um museu e sim um palácio, tinha grandes janelas que permitiam aos visitantes ver palmeiras pela janela. Não era frio, enclausurado. Tinha também grandes salões, sacadas para sentir a brisa quente da cidade, dinossauros, pedras, meteoros, múmias, tronos, quadros... 

O Museu Nacional era patrimônio da cidade e do Brasil. Muito da história da colonização portuguesa no país pode ser visto no Rio de Janeiro e a Quinta era emblemática por ter sido casa de personagens simpáticos da nossa história, como a Princesa Leopoldina, uma amante das artes e da ciência que possibilitou à cidade ter a jóia rara do Museu Nacional. 

O que diria agora a nobre Leopoldina ao ver sua casa em chamas? Duzentos anos de história transformados em cinzas? Muitos anos de descaso transformados em discursos demagógicas e desculpas eleitoreiras? Eu senti uma dor no coração ao ver as labaredas lambendo a história do Brasil e o trabalho de vidas inteiras. Senti revolta ao ver na internet que até uma tragédia se torna palco da ridícula briga em que se transformou esse país; onde qualquer argumento te joga para a direita e para a esquerda e queima-se a razão. 

Em respeito a Princesa Leopoldina tínhamos que velar o museu em silêncio e ter vergonha da nossa omissão. Nossa mesmo. Minha, sua, de todos nós. Porque todos os anos tragédias como essas acontecem e nos calamos. Aceitamos tudo, resilientes que somos, e colocamos a tranca no portão depois que o ladrão entra. 

Não cuidamos do passado e muito menos do futuro. Não temos espaços dignos que revereciem o que temos de melhor. O museu Carmem Miranda é uma vergonha. O Palácio do Catete, onde Getúlio morreu com um tiro no peito, escora-se em madeiras. O Museu da Imagem e do Som é um elefante branco em plena Copacabana, fruto da quadrilha do seo Cabral. Sem falar na Casa de Rui Barbosa, o Museu do Índio, a Casa de Villa Lobos, que apenas sobrevivem. 

É para refletir porque a terra de Machado de Assis não dedica ao Bruxo do Cosme Velho sequer um casebre. A casa onde nasceu, no Morro da Providência, não passa de um monte de entulho. 

Se o estado não cuida - e nunca vai cuidar - que privatizem o que nos resta para lembrar. Minha última lembrança foi há um ano quando passei um tarde curtindo e lamentando o museu, visivelmente carente de atenção, mas lotado de gente. 

Triste Brasil. Tristíssimo Rio de Janeiro. Terra de hidrante sem água, de museu sem vida, de gente que anda a cada dia mais cabisbaixa. Pobre Leopoldina.