ter?a-feira, 25 de fevereiro de 2020
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

NETA DO LOBI quer lançar seu nome para presidente da República em 2018

Lobi desiste de ser candidato a prefeito diante da falta de apoio e de votos
06/06/2016 às 20:01
Creio que acertei em não ter aceito ser ministro do novo governo. Nosso Conselho Político reunido no Boteco do Teco criticou a minha decisão, porém, hoje, vejo que foi acertadíssima. De repente, estaria sendo grampeado e as gravações poderiam resultar, quem sabe, num escândalo aqui na Serra, o que não seria bom para nossa 'city'. Poderia ser demitido como já foram dois ministros, embora eu não tenho qualquer ligação com a Transpetro, a Petrobras, nada disso.

   A única pessoa que conheço ligado a essa estatal é Sêo Elísio, o bombeiro que põe gasolina no meu veiculo no antigo posto de Sêo Misael Cunha. E os ex-petroleiros Gaika e Nicolau com quem, de vez em quando, tomo uma gelada no Bar Iguatemi de Sêo Edmundo. 

   Pra falar a verdade nem me recordo quando foi que alguém por acá foi grampeado. Nos idos dos anos 1960, quando se instalou a Cotese, a Companhia Telefônica de Serrinha, diz-se que o então prefeito Carlos Mota encontrava-se com o comerciante Edmundo Veloso na rua e dizia: - Vá pra casa que vou lhe telefonar. Isso porque, eram poucas ligações e o telefone preto e robusto das residências era mais um enfeite do que qualquer outra coisa. 

  Certo dia uma senhora do Largo da Usina tomou o maior susto e saiu correndo quando ouviu o trinado do telefone que parecia um urubu.

   As ligações na Cotese eram raras e passavam por uma telefonista que ficava instalada na central da Barão de Cotegipe, daí que tinha essa arte. A moça da central era um baú de segredos porque ela sabia, quem ligava para quem, embora não ouvisse as conversas. Outros dizem que ouvia, mas, os segredos na Serra eram tão poucos que ninguém se incomodava.

    Só na época das campanhas políticas é que rolavam uns panfletos apócrifos embaixo das casas comerciais e das residências revelando algumas ousadias que candidatos faziam (ou ainda fazem) fora do casamento. Mas, nada que abalasse a nobre sociedade serrinhense, nem que causasse qualquer separação. E esse negócio de politico ter duas esposas ou uma esposa e uma amante nem é tão estranho assim. O coronel Nenenzinho, o qual foi prefeito da Serra, tinha uma esposa na sede e uma outra na roça, numa boa. 

   Hoje, as coisas mudaram muito, todo mundo tem smartphone e a vida das pessoas virou uma bisbilhotice imensa, a gente recebe parabéns pra você de pessoas que a gente nunca deu bom dia, um monte de ofertas de todo tipo de produtos e as telefônicas irritaram qualquer um oferecendo a cada dia um adicional ao seu plano, sempre ao que dizem baratinhos, mas, que viram uma fortuna ao longo do tempo.

   Por isso mesmo ando de boca fechada, nada WhatsAap para estranhos, facebook discreto, compartilhamentos limitados e assuntos mais caudalosos ficam restritos às reuniões do nosso Conselho Politico, lá em nossa sede, do PSN, Partido dos Sem Netos, ou no Boteco do Teco.

  A propósito ontem passei por lá e a conversa era uma só: a queda de dois ministro 'temistas' em menos de 20 dias e a volta de Dil, dada como certa, e a sucessão eleitoral na Serra.

   Pinguinha mexeu com meus brios de forma elogiativa: - Se V.Exa. estivesse na capital governamental jamais seria grampeado porque sei de sua honradez e honestidade.

   - Se é pra puxar meu saco ou pra eu pagar uma gelada peça logo uma a Teco e deixe de falar bobagens, comentei.

   - Estou falando a verdade que vem do fundo do meu coração pois não sou homem de puxar saco de ninguém, replicou Pinguinha.

   - Já souberam da última - alcavitou Alírio, o empresário, que acabara de chegar da Praça Luis Nogueira.

   - Desembuche e deixe de suspense - comentou Teco.

   - O PT não abriu mão da candidatura de prefeito e vai mesmo com o deputado Gika, o Bezerrão, à sucessão, anunciando um governo participativo.

   - Participativo pros mesmos, pra panelinha, arquitetou o edil Reizinho que faz oposição na Serra, comentando que essa conversa de participativo é antiga, para enganar os bestas.

   - O certo era se V.Exa (apontou para mim) fosse candidato a prefeito pra consertar um bocado de coisas que tem por aí, retirar o lixo das ruas, revitalizar a Bomba, soerguer o velho prédio da Prefeitura - comentou Pinguinha.

   - Isso não tenho dúvida. Poderiamos até fazer uma campanha com o slogan 40 anos em 4 pelo progresso da Serra - analisou Teco dando uma de marketeiro.

   - Governar é abrir estradas pro Cantinho, pro Mato Fino, pra Chapada, pro Cantagalo e muito mais - discursou Alirio pedindo mais outra gelada e dizendo que suas máquinas iriam ter trabalho.

   - Você quer é colocar seus tratores na boquinha - arreliou Pinguinha - e encher as algibeiras.
   E eu calado, matutando, ouvindo a conversa, até que dei minha opinião: - Eu até toparia. Mas, onde achar os votos para eleger-me se mal tenho o meu, o de vocês (veja lá) e de minha esposa Ester (há duvidas) que é contra esse pleito.

   - Isso é de menos, ponderou Reizinho - dizendo que era só conseguir apoio dos 'home', de Dr. Carneiro, de Dr. Silva, de Dr. Lima, de Dr. Serra e pronto estaria resolvido.

   - E o povo onde entra nessa história com tanto doutor na parada - sorriu Pinguinha.

   - O povo sempre foi massa de manobra - advertiu Alirio - e na Serrinha o povo 'amassa barro pra Faraó' - como diria o finado radialista Alvaro Martins, desde o tempo da construção do Tanque das Abóboras.

    - Faço outra condição para candidatar-me - afiancei - desde que não coloque nenhum de vocês na Prefeitura como assessores. Nem vocês, nem parentes e aderentes, frisei.

   - Aí não dá, porque tenho uma cunhada que está precisando de emprego e um primo de minha mulher que deseja ingressar na boquinha da 'viúva' - obtemperou Pinguinha.

    - Meu povo do Cantinho também quer um emprego. Diria a V.Exa. que parente distante não é da familia e resolveriamos a parada dessa forma.

   - É, sem ajuda aos parentes não dá - ponderou Reizinho - admitindo que o melhor mesmo era abdicar da candidatura.

   E assim, minha candidatura a prefeito foi pro beleléu. Quem gostou foi dona Ester, pois, além de limpar a toca do lobi como sempre faz, ainda temia uma romaria de gente em nossa porta.

   Voltei para casa e encontrei minha neta Sol estudando, oh! menina estudiosa! e cometei com Ester: - Minha candidatura a prefeito não vingou.

   - Graças a Deus e Senhora Sant'Anna benzeu-se de alegria Ester.
    Sol que ouvia conversa fazendo deveres de espanhol arrematou: - Meu avô pra prefeito, jamais! Meu avô tem que ser candidato a presidente.