ter?a-feira, 25 de fevereiro de 2020
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

MULHER do lobisomem Serrinha veta mexicano Ramón no Bacalhau da Barão

Bacalhau da Barão é um evento cultural, gastronômico e etílico que acontece em Serrinha durante a Semana Santa
27/02/2016 às 21:38
 Esta semana fui com Ester Loura, minha consorte, comprar uma peça de tecido na Soberana para ela providenciar junto a costureira Cordélia Mãos Mágicas um vestido estiloso para irmos ao Bacalhau da Barão, evento que acontece em nossa city durante a Semana Santa, depois passei na tenda de Soté barbeiro para aparar uns 'pés-de-galinha' que saiam por minhas orelhas e segui para casa. 

   Ju Fraldas, nossa secretária gastronômica, havia preparado um risoto de raposa com picadinho de folhas de alecrim ao molho pesto e estava doido para saborear esse prato. 

   A demora dele ir a mesa era esperar a chegada de minha neta Sol provinda do colégio onde estuda, na gloriosa cidade de Teofilândia, para verificarmos se essa comidinha estava saborosa mesmo como propagava Ju. 

   Pasei no Baratão de Sêo Marcolino Queiroz e levei comigo meia dúzia de latões porque embora todo mundo fique falando nessa crise medonha, meu capilé ainda se dá a esse luxo.

   Sentados à mesa, eu, Ester e Sol já saboreando o risoto meu 'whats app' dispara e era um recado do meu compadre Perremptório Segundo, o pessimista, morador de Vilas do Atlântico, Lauro de Freitas, onde recentemente eu e Ester estivemos veraneando, dando conta de que o verão estava acabando e o mexicano Ramón ainda se encontrava em sua residência, a pedido de sua esposa Florzinha de Jesus Amado Sarney, desta feita trabalhando como auxiliar de pintura, lixando paredes.

   Logo depois - Sol de olho no meu ipad só perguntando quem era - outro zap de Perremptório inquirindo que Ramón soube através de um amigo (lá dele) que mora em Jauá, um tal de Ruizito de Nequinha, que vai haver uma festança no Bacalhau da Barão, na Serra, e se eu poderia hospedá-lo. 

   Diante de tal pedido do compadre tive que explicar a Ester o que se passava e se ela consenteria tal empreitada, uma vez que Florzinha se prontificou a pagar a passagem de ônbis do mexicano até Serrinha.

   - Aqui em casa, nem por sonho. Já imaginou esse mexicano aqui na rede tocando viola não vai querer voltar para o México nunca mais.

   Sol ponderou: - Minha avó! Outro dia ouvi minha mãe dizendo que se Ramón quizesse vir para a Serra passar uma temporada ela arranjaria um emprego para ele na Casa Rei dos Bolos e não teria despesa nehuma. 

   - Esse Ramón que Florzinha está protegendo é um picareta, não diria isso, mas um malandreco e quer viver numa boa nas custas dos outros, beber de graça e comer o bacalhau da Barão e só.

   - Ele iria trabalhar fazendo bolos, poderou Sol.

   - Que bolos ele sabe lá fazer. Ele sabe, muito mal é tocar uma guitarra e cantar 'malaguena salerosa' no Buteco do Siri, em Vilas, isso a pedido de Florzinha pois o mesmo desafina mais do que Adele.

   Ju Fraldas entra na conversa: - Tenho um parente que toca violão e vai cantar no Bacalhau da Barão juntamente com Mazinho do Violino e Zaraúna da Gaita, de sorte que ele poderia dar uma canja.

   - E onde esse malandro ficaria hospedado inquiriiu Ester perguntando: no Grande Hotel da Serra, no Diamantino?

   - Ele poderia ficar uns dias na casa da costureira Rosa de Pi que ela mora perto donde vai ter o evento - sugeri.

   - Você tá doido meu véi...Rosa é uma viúva donzela e de repente esse mexicano, o qual deve estar numa secura daquelas, mais do que a grande seca de 1930, vai querer dar em cima da senhora e vai ser um escândalo, justo na Semana Santa.

   - A gente paga duas ou três diárias e ela o coloca num quarto isolado no fundo da casa. Não teria perigo algum. Até porque, Ramón é um mexica educado. Agora, se ela simpatizar com o latino, se ela tiver alguma querência, é até bom para ambos - ponderei.

   - E se eles se casarem, Ramón pode trabalhar na fábrica de bolos da amiga de minha mãe e está tudo em casa - sorriu Sol dando seu pitaco.

   - Nada disso, minha amiga Rosa não é mulher de entrar numa barca furada dessas. O que já teve de gente lá cortejando ela não está no gibi, mais de olho na herança, na casa dela do que nela - disse Ester.

   - Que linguagem antiga é essa minha vó, de gibi, nós estamos na era da web, da internet, de bites, do relacionamento sustentável - ironizou Sol.

   - Não tem relacionamento sustentável certo, na casa de Rosa é que ele não vai ficar. Por que você não coloca esse malandro na casa de seu amigo Jorge Cuc que também fica na rua do bacalhau? - sugeriu Ester.

   - Porque na casa do homem da madeireira tem gente que não acaba mais.

   - Então que ele fique lá por Lauro de Freitas fazendo bicos na casa de Florzinha, que continue tocando no Buteco do Siri e esqueça o Bacalhau da Barão, Ester deu ponto final.

   Então passei um zap para meu compadre Perremptório dando conta de que Ramón estava vetado no Bacalhau da Barão, salvo se ele viesse por conta própria. E assim ele transmitiu a Flrozinha, a qual coversou com o mexica, ficando tudo em paz. 

   Ramón, o próprio, disse a Florzinha que assim que terminar o verão vai voltar para Merida, sua terra natal, reconciliado com a esposa para participar do casamento de uma filha. 

   Fez a ressalva, no entanto, de que no próximo verão, com fé em Nossa Senhora de Guadalupe, em 2017, estará de volta com sua cuia de queijo vazia e a viola.

   Noutro almoço, quando Ju nos serviu carne de jibóia com farofa d'água e leite com mastrúcio, comuniquei a Ester e a Sol o ocorrido, incluindo uma despedida para Ramón na casa do compadre com Florzinha em lágrimas e seu retorno ao México.

   ​- Sol lamentou: - O Bacalhau da Barão perdeu o show de um grande artista e a fábrica de bolos da amiga de minha mãe um confeiteiro de mão cheia.