ter?a-feira, 25 de fevereiro de 2020
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

Lobisomem de Serrinha dialoga com Ramón, el mexica, em praia

Mexicano Ramón diz que não quer voltar mais pro México porque a Bahia é uma terra buena, abençoada por Dios
18/01/2016 às 17:34
Fui passar uns dias na casa de praia de um compadre, em Vilas do Atlântico, Litoral Norte do município de Lauro de Freitas, com o fito de tomar um banho de mar, saborear um acarajé completo e levar minha esposa Ester Loura e minha neta Sol para fazer umas compras no Outlet Center de Abrantes, quando estando na praia tomando uma fria que desce quadrado encontro com o mexicano Ramón, um forasteiro que havia conhecido em 2015 com uma cuia de queijo vazia em mãos, de sombreiro, pedindo uns trocados para voltar ao seu país.

   Eis que, de novo, Ramón aparece com a mesma conversa arrecadatória querendo voltar para o México, só mudando de cuia..

   - Você novamente com esse mesmo lero compañero Rámon, o que se passa!? - perguntei admirado.
-Nadie se passa. Yo, de fato, retornée al México, pero volvi acá para esa terra buena, maravilhosa, e estoy ahora tentando montar un negócio acá en Buraquinho.
   
   - Que tipo de negócio você esta aprontando? - questionei.

   - Bien, trabalhei na Confraria dos Pães, pero não deu certo, porque era mucho puxado; después atuei na cozinha do Farol de Pizza, e ahora estoy trabajando como cantante con mi guitarra no Buteco do Siri - confessou arguindo que desejava montar seu prórpio negócio, mas faltava-lhe capilé.

   Sugeriu que emprestasse algum do meu dinheiro suado para montar um restaurante e me propôs uma sociedade. Desconversei sabendo de antemão que era uma furada. Depois, o gajo sugeriu se eu não poderia arranjar um emprego (não trabalho) lá na Serrinha, nalgum órgão público, de preferência meio turno.

   - Você está querendo é um cabide e isso eu além de não aceitar, nem comungar, não tenho prestígio nem força política para tal. 

   - Fala lá com seus amigos poderosos, com o vereador Reizinho, com o alcaide Cardozão, com o deputado Lopes, que garanto que eles lhe atenderão.

   - Você deveria era se assuntar e procurar um trabalho decente - interveio Ester já chateada com a nossa conversa.

   - Então, já que a senhora falou dessa forma, que tal o Lobi conseguir com sua força política e de seus amigos poderosos, uma vaga para mim no Tribunal de Contas da Capital, aqui fica mais perto da praia e de Buraquinho - comentou.

   Nisso, Sol que até então estava calada, interveio na conversa e disse: - Ora se essa vaga fosse assim fácil meu avô iria arrumar era pra ele e não pra usted - falou com seu espanhol iniciante.

   - Seria uma maravilha querida Sol, mas, minha idade já passou do limite de ter uma vaga dessas, uma vez que seu vô fará 281 anos em abril - falei.

   - Que bobagem meu vô! Abraão viveu 800 anos e os lobis vivem 400 a 500 anos, ainda daria tempo sim pra conseguir uma boca no TCC.

   - Mas aí eu iria quebrar o Funprevino quando me aposentasse aos 301 anos eles tendo que pagar mais um século, comentei.

   A conversa seguiu nesse tom quando o telefone tocou e era meu compadre chamando para o almoço. Sua esposa havia feito uma moqueca de pescada amarela com camarões, o que eu gosto muito. Então, falei pra Ramón que lhe desejava sucesso, mas não poderia ser seu sócio. 

   - Prazer em revê-lo mas tenho que ir a casa do compadre, pois, uma moqeuca me espera à mesa com pirão do caldo peixe - falei.

   - Seria uma boa oportunidade para eu tirar a barriga da fome. Veja que minha cuia tá vazia e preciso colocar algo na pança - mostrou Ramón pedindo que eu também o levasse a casa do compadre.

   Fiquei com pena do camarada e liguei pra meu compadre perguntando se poderia levar o 'amigo bicão' à sua residência.

   Quando expliquei de quem se tratava o compadre estrilou: - Esse Ramón a gente conhece de sobra. Não é o mexicano com uma cuia de queixo em mãos? 

   - Sim, respondi.

  - É um vigarista. Mande ele plantar batatas na praia e venha com Ester e sua neta, pois, aqui em casa ele não entra.

   Ainda tentei mostrar ao compadre que o mexicano tava passando fome, mas este interveio com veemência: - Essa conversa é antiga. Ele fala isso pra todo mundo e deve seis acarajés completos na banca de dona Crispina, na tenda ao lado da barraca Odoyá, e certa ocasião comeu os camarões todos de uma moqueca na casa de Sêo Zibório.

   - Sinto muito Ramón, mas, o compadre vetou sua presença - avisei ao mexica.

   - Que se há de fazer! Vou seguir com minha cuia até o Buraco da Velha...É provável que lá consiga alguém de bom coração que pague um almoço - falou com compaixão.

   - E você não pretende mais voltar para o México? - argui na despedida.

   - Yo no. Essa terra Bahia és mui buena e por aqui vou ficando até encher minha cuia - soletrou afastando-se.

   Ester que parecia de mau humor comentou: - Vai encher a cuia só se for de água do mar.

   Mi nieta Sol cutucou-me com o cotovelo falando baixinho: - Minha vó, hoje, tá que tá na TPM.  

   E assim seguimos para comer a pescada amarela do compadre, das melhores que já comi. 

   Ainda pensei em fazer um farnel para Ramón esperando encontrá-lo de outra feita, mas, desisti quando o compadre se pôs a orar citando Santo Agostinho: Vós, pobres, que nos falta, se tendes Deus? Vós, ricos, que tendes, se vos falta Deus? 

   Pedi uma seleta depois da oração, nos benzemos e caimos de boca na moqueca.