ter?a-feira, 25 de fevereiro de 2020
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

DISCO VOADOR apavora Serrinha e Lobisomem reúne Conselho no Teco

O dia em que um disco voador deixou população de Serrinha temerosa de uma ocupação dos marcianos e o Lobi preparou sua tropa de choque para defesa da cidade com cabo Tadeu no comando
05/08/2015 às 10:18
Boquinha da noite, fumava um Dom Cardin - charuto dos melhores - deitado na rede do alpendre do nosso sítio, quando Ester entra esbaforida na casa, sequer tinha conseguido estacionar corretamenrte a sua Bis no passeio, e tropeçou no batente ralando o punho e o braço esquerdo numa queda com pernas para o alto, dizendo que os 'ETs' estavam chegando em Serrinha, ao que tudo indicava marcianos, e eu quase caio da rede pra socorrer a esposa temendo que ela tivesse um infarto.

   - Calma mulher, segurei-a pelo braço dando uma sacudidela, e foi nesse momento que o 'disco voador' sobrevoou nossa toca e um luz intensa cegou nossos olhos vindo lá do céu e era uma zoada infernal sobre nossas cabeças que, mal deu tempo de calçar as botas e procurar minha lazarina com o fito de nos defender do pássaro voador e seus alienígenas, quando ele mudou de rota e se afastou em direção ao Estádio Marianão.

   Que foi de arrepiar isso não tenham dúvidas e pela primeira vez na vida, depois de tantos anos ouvindo falar em marcianos, em gente de outro planeta, tive medo de ser levado para Marte ou até mesmo Plutão, quiçá para outro luar mais distante, deixando minha querida Serra de lado, minhas vaquinhas, meu milho verde que tá florando, meus amigos lá do Boteco do Teco, meus correligionários, meu povo querido, a pró Eru, o compadre Soté que corta meu cabelo há anos, dona Luciana de Sêo Eliseu, os papos com Sêo Edmundo Bacelar, a cerveja sempre gelada do Telebahia, o Natal na casa de Vovó Queiroz, exames com Saul Boliviano e tanta gente boa que tem por aqui.

   O coração de Ester batia mais forte do que o motor da antiga usina de luz. Corri na cozinha para lhe dar uma água com açúcar, a essa altura o celular da esposa já repleto de mensagens de suas amigas no seu 'zapzap', que parecia um curió cantador, todas preocupadas com suas vidas, temendo um sequestro, sua irmã uma das mais aflitas dizendo que o disco voador quase arranca o teto de sua residência, outra comentando que fizera xixi nas 'caçolas' de tanto medo, uma coisa do outro mundo numa vista na Serra.

   Nesta noite, foi um Deus nos acuda pra Ester dormir. Teve uma insônia dos pecados e viu assombrações por todo nosso quarto a ponto de lhe dar um calmante para dormir, acho que lá pelas 3 da manhã. 

   No outro dia de manhã passei, como faço sempre, na Padaria Baluarte pra comprar uns pães e a conversa no pé-do-balcão era sobre o disco voador. Uma senhora que se chama Cordélia - acho que o nome dela é esse - ainda estava muito assustada e disse que trancara sua casa como no tempo de Lampião colocando umas panelas de aluminio atrás da porta para que, no caso de alguma invasão fosse alertada a tempo.

   O crente dono da Padaria falava em castigo divino: - Isso é um aviso contra a devassidão que se vê nas ruas da Serrinha, asseverava. 

   Um outra cliente, dona Dil dos Paes, se benzia toda dizendo que não era nada disso e sim o uso das novas tecnologias pelos marcianos o que fazia com que eles tivessem vindo a terra com mais frequência. 

   O certo é que o crente recitou uns três versículos do deuteronômico quinto livro do velho testamento contra os ifiéis.

   De volta pra casa, quando passei na Barbearia de Soté a conversa era a mesma; na banca de Mirinha das Verduras, uma roda de senhoras discutia o assunto; no Mercado, em Ancelmo da Farinha, mesmo fato.

   Diante da tanta repercussão, convoquei nosso Conselho Politico para um encontro no Buteco do Teco, no horário da noite, este composto por Teco, o 'boutequier', Alírio Vermelho, o empresário; Tolentino Caneco, o homem das leis; o edil Reisinho e o 'chef de barbacoa' Pinguinha.

   E assim foi feito, abrindo a sessão com doses para São Nicodemus, santo do dia, e franqueada a palavra Alírio disse que, em sendo originário do Cantinho, não via nada demais na presença de um disco voador na Serra, pois, em tempos idos, garantia que por volta de 1929 ou foi 193O, uns marcianos levaram um casal de crioulos lá da Barrocas e só devolveram dois anos depois, com a diferença de quem voltaram gasos. 

   - Daí, meus amigos conselheiros, existe aquela comunidade de galegos na Barrocas, isso quando ainda era distrito de Serrinha.

   - Vou está inventando coisa - rebateu Tolentino - obtemperando que os galegos seriam descendentes de um parente de Mauricio de Nassau, o qual veio do Recife ainda na época do Império, para ajudar na construção da estrada de ferro.

   - Alirio rebateu dizendo que tinha provas, que os pretos que foram para Marte e depois voltaram para Barrocas eram conhecidos, e que não era de invetar lorotas e estava tudo documentado com fotos que foram enviadas a Nasa e ela não divulga temendo um pânico na população.

   Pinguinha interveio na conversa e comentou que Alirio tinha razão, pois, namorara com uma galega da Barrocas e ela não falava coisa com coisa, ou falava uma outra lingua que "eu nada entendia".

   - Você não entendia porque não tem instrução - entrou no debate o edil Reizinho - advertindo que se o Conselho acreditasse nessa conversa de marcianos teria que acreditar que o homem foi a Lua.

   - E não foi! - inquiriu Teco lembrando que, na época o prefeito de Serrinha era Carlos Motas e este decretou feriado municipal diante de tal feito para que a população da Serra acompanhasse a missaão especial.

   - Quá-quá-quá - sorriu Pinguiunha imitando um pato - e destacando que, naquela época, Serrinha só tinhas dois aparelhos de TV, uma na casa do padre e outra na do juiz, e ninguém viu foi nada.

   - Não viu, mas ouviu a narrativa feito por Paulo Teiú pelo Serviço de Alto Falante Urubixaba - lembrou Tolentino.

   Eu fiquei calado astuciando tudo para dar minha opinião no final do encontro uma vez que presido o Conselho, quando Teco recebeu um telefonema e dirimiu todas as dúvidas sobre o disco voador.

   - Pronto acaba de me ligar meu filho que trabalha na Prefeitura dizendo que deu agora na Rádio Continental, no programa de Ferraz, que o disco voador visto na noite de ontem, na Serra, foi um helicóptero do GRAER, da PM, que está na região do Sisal atuando na Operação Guardião, para proteger os cidadãos.

   - Que alívio - ponderei com minha intermediação - acudindo que precisávamos confirmar a informação com o Ferraz, uma vez que já havia mobilizando nossa tropa de defesa da city sob o comando do cabo Tadeu e da catingueira Débora das Mangabas para enfrentar uma eventual invasão dos marcianos. 

   Então liguei para o radialista, o qual, de viva voz passou a informação ao nosso Conselho, afirmando, inclusive, que o major PM Reinaldo, comandante do GRAER havia dado uma entrevista na rádio acalmando a populaçáo da Serra.
  Pinguinha quis saber detalhes, mas, aí a ligação no viva voz caiu. 

   Nisso, destampou lá no Morro do Fundo uma lua imensa, a lua azul, uma maravilha da natureza e não saberia dizer se Pinguinha já tinha tomado umas além da conta, ele, trêmulo, olhando pro céu e gritando: 

   - Vamos nos proteger que uma nave saiu da lua agora em nossa direção.

   -  Aquilo lá que você tá vendo - segurei Pinguinha para ele se acalmar - é o cavalo de São Jorge e o dragão sendo lancetado e até chegar aqui a gente já secou todas essas garrafas do Buteco do Teco.

   - Se esse santo fosse mais inteligente usava a mula do finado João Devoto e chegava aqui rápido a tempo da gente tomar uma - finalizou Pinguinha com sua filosofia popular.