Esporte

HISTORIANDO AS COPAS, CAP 20: ALEMANHA É TETRA E O HUMILHANTE 7X1

A magia baiana teria ajudado e muito a seleção da Alemanha
zédeJesusBarreto , Salvador | 27/12/2022 às 10:18
Os campeões do mundo de 2014
Foto: Extra
     
              
             “Qualquer goleada promove duas vítimas, o que perde e o que ganha 
             Não há raciocínio possível contra a goleada cósmica”. 
                                                                                       (Nelson Rodrigues) 

     Sempre que penso na Copa de 2014, realizada no Brasil, vem-me logo à mente o telefonema de meu filho Theo na tarde fatídica de 8 de julho, eu parado numa sinaleira da Pituba, saindo do trabalho e querendo chegar em casa para ver o Brasil x Alemanha, imperdível:

 - Meu pai, você já viu a escalação do time de Felipão pro jogo? 

Disse ‘não’, ele escalou um por um e eu comentei, “com esse time não levamos menos de três”. Ele, “oxe, por quê?”
 - Entregamos o meio campo aos alemães, é no meio campo que se ganha jogo. 

  Foi muito pior do que eu esperava: 7 x 1. A maior goleada em semifinais nas 20 copas até então realizadas. A mais humilhante das goleadas sofridas pela seleção brasileira em toda sua história. Pior, em casa, pleno Mineirão, cheio, todo de verde-amarelo. Dá pra esquecer? 
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 De quebra, de zica, depois daquilo, os alemães não conseguiram sequer chegar nas oitavas de final das copas de 2018, na Rússia, e a de 2022, no Catar. Nelson Rodrigues, citado acima, sabedoria pura.  
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  “O Brasil saberá, orgulhosamente, fazer a sua lição de casa; realizar uma Copa do Mundo pra argentino nenhum colocar defeito” - discursou o presidente Lula, no auge de seu governo em segundo mandato, no dia 30 de outubro de 2007, quando a FIFA anunciou o Brasil como sede da Copa de 2014. 

  E danamo-nos, por exigências e interesses políticos e financeiros do presidente Lula e do presidente da CBF Ricardo Teixeira, a construir ‘arenas’ de norte a sul e endividar o país. O maior dos legados daquela copa foi, sem dúvida - e só depois ficamos cientes -  uma dívida sem tamanho, incalculável e sem prazo de acabar.  ‘Arenas’, nome importado da Europa, muitas delas com marcas de patrocinadores apadrinhados acoplados, tipo “Arena Itaipava Fonte Nova”, onde era o Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova do povão, uma Vila Olímpica que foi demolida, implodida em 2010. 
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 “Arena era o local em que os romanos assistiam aos gladiadores estriparem-se entre si ou serem estripados pelas feras. Estádio era onde os gregos encenavam as competições esportivas, entremeadas de danças e torneios de poesia. O local onde se jogava futebol era estádio; agora é arena, uma moda que não nasceu no Brasil – foi importada e aqui oficializada pela poderosa FIFA. A truculência romana venceu a graça grega, um espelho dos nossos tempos”

 (Roberto Pompeu de Toledo, em 25/06/2014)
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   Obras bilionárias 

  - Maracanã (Rio de Janeiro), Mineirão (Belo Horizonte), Castelão (Fortaleza), Arena da Baixada (Curitiba), Beira Rio (Porto Alegre) – foram os ‘estádios’ que sofreram reformas, para se tornarem ‘arenas’, dentro dos critérios/FIFA. 

 As novas Arenas, com ‘superfaturamentos’ e custos absurdos, escandalosos: - o Mané Garrincha (Brasília), Arena Fonte Nova (Salvador), Arena Pernambuco (Recife), Arena Amazônia (Manaus), o Itaquerão (São Paulo), Arena Pantanal (Cuiabá) e Arena das Dunas (Natal).
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 Presidenta em maus lençóis 

 A bomba acesa no governo Lula começou a chiar, prestes a explodir no Governo Dilma, eleita como ‘Mãe dos Pobres’ para continuar o lulopetismo. Só que em 2014 o mundo já era outro. Pra se ter uma ideia, em três anos seguidos a América latina crescia numa média de 40 a 50% a mais que o Brasil. Nossa economia entrou em colapso, as contas públicas estouradas, desemprego crescente, a presidenta obrigada a usar as redes nacionais de rádio e tevê por 16 vezes para tentar se explicar perante a nação. 

O anos de 2013 foi de terror para a mandatária, o governo às voltas com manifestações de rua , mais de 690 protestos pelas capitais e grandes cidades, muitos com atos de violência. A Copa viria assim mesmo e a todo custo.  

 Lá pras tantas, com a pressão da FIFA e as tantas cobranças por obras e mais obras, a presidenta Dilma, que dizia fazer um governo ‘padrão Felipão’, chegou a declarar, estressada: “tirem isso das minhas costas!”. Enquanto isso, esperto, Lula decidia que não iria a nenhum jogo nos estádios (medo de se expor, de vaias) e, numa entrevista, quando cobraram a promessa de metrôs até as portas dos estádios, disse que metrô era um luxo e que fossem “à pé, descalços, vão de jumento!”. 

 Dilma, corajosa, foi à abertura da Copa, na Arena Itaquerão (do Corinthians), onde suportou estoicamente ao lado do ‘risonho’ vice-presidente Temer, uma vaia de 62 mil pessoas presentes, além de xingamentos absurdos, inadmissíveis. Os mesmos capazes de tamanha grosseria e falta de educação cantaram nas arquibancadas o Hino Nacional à capela, bonito. O fato é que o Brasil venceria o jogo de estreia contra a Croácia (3 x 1) e o estádio estava mesmo repleto de uma classe média endinheirada, pagadora de ingressos caros, e muitos convidados vips. 

 Tanto que, mesmo vaiada, xingada, abominada... Dilma seria reeleita nas urnas – em disputa acirrada com Aécio Neves do PSDB – por obras e artes do ‘mago’ do marketing João Patinha Santana. Dois anos depois ela seria derrubada por um impeachment manobrado pelo congresso, com a chancela dos togados, o aprovo do vice Temer e, dizem as más línguas brasilienses, o dedão até do ‘padrinho’ Lula, descontente com a candidatura dela. Ele queria o posto de volta.
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“A Copa não é de governo nenhum, nunca será, nem governo nenhum vai ter a desfaçatez de tomar para si um feito que, em última análise, é do povo brasileiro e ninguém mais pode apropriar-se dele. [...] Se ganharmos a Copa, não terá sido o governo, teremos sido nós, como aconteceu todas as vezes em que ganhamos. E- bato na madeira – se perdermos, terá sido o governo, nem que seja por pé-frio”. 

(João Ubaldo Ribeiro, em sua crônica dominical ‘A contratorcida’)

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 Contextualizando  

 O Brasil de 2014 era bem diferente daquele de 1950, quando fizemos a primeira copa no país, e perdemos para o Uruguai no Maracanã. Lá, distante, a nossa população nem chegava aos 52 milhões de habitantes; em 2014 tínhamos mais de 200 milhões de almas. Em 1950, 64% da população era rural, agora 90% dos brasileiros vivem nas cidades. 

Passamos da era do rádio, nem tevê tínhamos ainda, para o futurismo das redes (nets), o mundo on line, conexão global, 1,3 bilhões de humanos conectados pelo facebook, três bilhões mirando a telinha da tevê, ao vivo, em detalhes. A bola era de couro e em gomos (1950), costurada a mão; A ‘brazuca’ (2014), feita sob encomenda para o evento, de material sintético, não molha nem deforma, quica cheia de fascínios.  

  Em 1950, problemas de energia e racionamento, a seca já nos era madrasta. Se hoje a Fifa proíbe até o uso de tablets, computadores e instrumentos sonoros nos estádios, naqueles tempos proibia a entrada de fogos de artifício, garrafas e laranjas, que os torcedores costumavam atirar em campo. O Maracanã, àquela época o ‘maior do mundo’, só foi entregue e inaugurado uma semana antes do início da competição, ainda com andaimes das obras inacabadas à mostra. As arenas ...  nos trinques. 

   Só de sarro, lembremos que, na política, 1950 era ano eleitoral e o general Eurico Dutra estava às voltas com a sucessão e com o ‘queremismo’ do povo a clamar pela volta de Getúlio, enfim eleito. Em 2014, a presidenta-candidata Dilma, derrapando nas pesquisas e na aceitação popular, via sua reeleição ameaçada e uma boa fatia da ‘cumpanheirada’ acenando com o ‘volta Lula’. Meras coincidências ... 

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 Numa entrevista, à época, o ex craque Paulo Cesar Caju, tricampeão do mundo em 70, dizia com sapiência: “Se você não melhorar a saúde no país, a educação, o salário mínimo, se a gente não investir nisso, em cultura, não adianta nada trazer eventos nenhum pra cá, não vai melhorar nada”.

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 Sem favoritismos    

  Mudando pro mundo só da bola, do futebol, vale citar a ‘profecia’ de Rivelino, outro tricampeão em 70, um dos maiores meias-canhoto da história: 

 “A despeito de a copa ser aqui, não vejo o Brasil como favorito. Temos uma safra fraca. Do meio campo para a frente temos o Neymar e ... quem mais?”   

Tinha razão o grande Riva, o ‘bigode’, a ‘patada atômica’ do México, o ‘Reizinho do Parque’ corintiano, campeoníssimo no Fluminense do Rio. 

 Senão, vejamos:

 - No dia 12 de junho estreamos em São Paulo vencendo a então jovem e ingênua Croácia (3 x 1) com um gol contra deles e um pênalti ‘mandrake’ cavado pelo centroavante Fred. Sem brilhos. Empatamos o jogo seguinte contra o México, um empate sem gol murrinha, em Fortaleza, dia 17. Em Brasília, lavamos a égua (4 x 1) sobre o frágil Camarões; estávamos classificados para as oitavas de final. 

 O jogo contra o Chile, dia 28, foi um sufoco, em Belo Horizonte. Empate de 1 x 1 no tempo regulamentar, levamos duas bolas nas traves de Julio Cesar, e só fomos avançar por conta dos tiros livres da marca penal, com o nosso goleiro defendendo duas cobranças e na última, de novo, eles acertaram a trave. Ou seja, seguimos por causa da ‘santa trave’, que esteve do nosso lado. 

  Em lágrimas 

  Na hora dos pênaltis teve jogador nosso se recusando a bater, tremendo, outros no choro, arriados ...  Aliás, os nervos dos nossos atletas afloravam, debulhávamos em lágrimas por tudo, na entrada ao gramado, na execução do hino, na falta sofrida, nos pênaltis, após os triunfos, nos vestiários, affe! Um vexame. Até uma psicóloga foi chamada às pressas para acudir os ‘meninos’ chorões, tadinhos. Um prenúncio do que viria contra ‘os alemão?’
“Guerreiros são pessoas, tão fortes, tão frágeis. Guerreiros são meninos no fundo do peito”  (citando Gonzaguinha) 

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  Quebraram Neymar

 E viria, na sequência, pelas quartas de final, o fatídico jogo contra a Colômbia, que fazia uma ótima copa, tinha o artilheiro James Rodrigues, tinham vencido os uruguaios com superioridade. Colombianos matreiros, rivalidade à flor da pele, jogo duríssimo, catimbado, em Fortaleza, dia 4 de julho.  

 E com que sufoco conseguimos passar adiante, avançar, fazendo 2 x 1 graças a dois gols de zagueiros, em jogadas da dita ‘bola parada’: O primeiro aos 6 minutos de jogo, o capitão Tiago Silva escorando de coxa um escanteio bem executado por Neymar da esquerda; o outro, aos 23 minutos da segunda etapa, quando a Colômbia jogava melhor, numa falta de longe batida com perfeição por David Luiz, a bola descaindo no ângulo feito ‘folha seca’, sem chances para o goleiro. Aos 33 min James Rodrigues descontou, de pênalti, e fomos pressionados até o final, mas conseguimos resistir.  Estávamos numa das semifinais... contra a Alemanha. 

   
 Esse jogo contra colombianos nos deixou bravas sequelas. Uma delas foi a suspensão, por cartão amarelo, do zagueiro e capitão Thiago Silva, o chorão, que faria Felipão escalar um novo miolo de zaga para encarar os alemães. Lançou Dante, que atuava na Alemanha de quarto zagueiro, puxando David Luiz para o lado direito. Nunca tinham atuado juntos. Deu tudo errado. 
 
 O pior de tudo foi a joelhada maldosa, desleal mesmo que o lateral Züñiga deu nas costas de Neymar, por volta dos 40 minutos da segunda etapa, tirando-o do jogo, da copa e quase aleijando o avante brasileiro, provocando lesão numa das vértebras do atleta. 

 Fomos enfrentar a potência alemã na semifinal sem Neymar, sem Thiago Silva, os jogadores visivelmente abalados com a contusão séria do nosso melhor jogador, sem cabeça. Em campo, não tivemos defesa, nem meio campo, muito menos atacantes e ... sem treinadores, sem banco. Deu no que deu. 

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Tragédia anunciada   

 Nosso time em campo: Julio Cesar, Maicon, David Luis, Dante e Marcelo; Luis Gustavo, Fernandinho, Hulk e Oscar; Fred e Bernard. (Ueh! cadê Paulinho, William, Hernandes, Ramires?) 

 Felipão diria, depois da goleada, os 7 x 1 da vergonha: “Deu pane geral”

 Sim, uma pane mental geral, mesmo antes de começar o jogo, já na escalação. Tínhamos um timeco de pelada de várzea, era a real. Ficou provado em campo. 
  
A fragilidade de nossos laterais (Daniel Alves e Marcelo) como defensores, marcadores provocavam um vazio no meio-campo. Havia um buraco na frente do apoiador que era, de fato, um falso terceiro zagueiro, o Luis Gustavo. Então, Felipão escalou Maicon na direita, mais robusto, um fiasco. Os ‘meias’ Hulk e Oscar atuavam abertos, pelos lados do campo, marcando os laterais adversários, apenas. Pôs o nanico e (na bola) insignificante Bernard na frente, adiantado pela esquerda, entre grandalhões. Não viu a bola. Ninguém, pois, havia na meia cancha para marcar, pedir e receber a bola, pensar o jogo, virar, acalmar, dar velocidade e ritmo, puxar os contragolpes, fazer os lançamentos. Sem opções, sem tramas nem contragolpes, optamos pelos chutões na direção de Bernard ou Fred, adiantados, e seja o que Deus quiser. Era, foi a tática, pânica.   

 Os alemães, comandados por um tal Schweinsteiger, ao lado de Kross (então com 24 anos), Ozil (24), Muller (24), Schurle(23), Gotze, Lahm, Boateng, o super-goleiro Neuer... agradeceram, deitaram e rolaram no bom gramado do Mineirão, palco da tragédia. Estavam voando, sobravam fisicamente e jogavam coletivamente com intensidade, aplicação, inteligência.  
 O jogo em si... pareceu uma brincadeira de profissionais contra amadores de várzea.    


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 No calor da pelada 
 Escreveria à época, na quentura do massacre: 

  Sim, amigos. Foi 7 x 1 para a Alemanha. Caiu a ficha? 

  Antes de mais nada, lembrar que foi a maior derrota brasileira de todos os tempos... e numa Copa do Mundo! Pior! Numa Copa jogada em território brasileiro, com um estádio cheio, hino nacional cantando na goela, as arquibancadas em verde-amarelo, um jogo semifinal. Não, nos meus anos de vida nunca tinha visto algo parecido nem imaginava um dia ver. 

  Sim, o Mineirazzo desse 8 de julho de 2014 foi pior, muito mais vergonhoso do que o Maracanazzo de 1950, quando perdemos a final para o Uruguai por 2 x1, de virada, numa partida em que fomos melhores em campo a maior parte do jogo e em toda a competição. Ora, contra a Alemanha não jogamos nada, já perdíamos de 5 x 0 aos 28 minutos do primeiro tempo. Fomos engolidos, vaiados, tomamos olé dos ‘gringos’, um chocolate, ficamos ‘de bobinho’ na roda, sem pernas, sem força mental, entregues e apreciando Schweinsteiger, Kendira, Kross, Ozil, Muller a passear em campo, a trocar passes como se estivessem brincando de baba contra uma equipe de escola primária, tal era a superioridade deles, os ‘alemão’.

... Quando soube que Felipão tinha escalado Bernardo para substituir Neymar, comentei com os amigos: ‘Nos fudemos!’ Mas não imaginava tamanha goleada.

Ora, quem vem acompanhando a Copa sabe muito bem que a força da equipe alemã é sua organização tática, a troca de passes no meio campo esperando a brecha para penetrar e finalizar, a ocupação dos espaços com inteligência e variação de jogadas e jogadores. Por isso, imaginávamos que a seleção de Felipão entraria com três volantes – Luis Gustavo, Fernandinho e Paulinho -, mais Oscar e/ou William um pouco mais adiante, e Hulk ou o inútil Fred (querido do treinador) entre os zagueiros adversários. 
Assim, povoaríamos o meio campo, faríamos pressão marcando a saída de bola alemã e, com o avanço também dos laterais até incomodaríamos o goleirão Neuer. 
Mas... quá!  

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O passeio em campo 

   Até começamos o jogo a fustigar a defensiva alemã, sem proveito nas finalizações chochas, de longe. Mas, já aos 10 minutos, tomamos um gol de cabeça tolo, na cobrança de um escanteio, quando Júlio Cesar não saiu do chão para cortar o cruzamento, David Luis mal posicionado, espiando, e Maicon não apareceu para impedir a testada de Muller – 1 x 0. Pensei: quanta falta faz o Tiago Silva e como o David se deu mal jogando mais pela direita, com o Dante pelo lado esquerdo.

  Mal observava esse problema de posicionamento defensivo na equipe e, em seis minutos apenas, dos 22 aos 28, os alemães fizeram quatro gols tabelando, penetrado com facilidade pelo miolo de nossa defesa como se estivesse passeando num zoológico num domingo à tardinha: Aos 22’, o veterano Klose recebeu livre na frente da pequena área e tentou duas vezes para fazer, após rebote de Julio Cesar, o seu 16 º gol em copa do mundo, transformando-se então no maior artilheiro de todas as copas – 2 x 0. 

Pane Geral! Kross, vindo de trás, livre, marcou aos 24 e 25 minutos, com a defesa brasileira olhando a trama que veio de longe: 3 x 0 e 4 x 0. Todos diante da tela da tevê ainda se olhavam, perplexos, quando Khendira ampliou, fácil, de chapa: 5 x 0. Olhei pro cronômetro, marcava 28 minutos de jogo, somente. 

 Deus’pai!  O que estava acontecendo? Só um time jogava em campo. O outro era um grupo de ‘pernas de pau’ correndo feito malucos, de forma desorganizada, sem ver bola. Um desolo.

  Na segunda etapa, ora vejam, o Felipão trocou Fernandinho por Paulinho e ainda o troncudo e bundudo Hulk pelo lépido Ramires. Mas cadê o Oscar, onde estaria o Fred, o que foi fazer o pequenino Bernardo naquele jogo de adultos?

  Recomeçamos bem, apertando, tentando o gol, chutando, mas então nos deparamos com o paredão Neuer, o melhor goleiro da competição e do planeta. Três ótimas defesas. Os alemães, de rubronegro, já fechadinhos, só esperavam o nosso erro para ampliar o placar em contragolpes, sem fazer muita força: 6 x 0 aos 23’, gol de Schüerlle, que entrou faminto no lugar de Klose, completando um passe rasteiro e limpo do veteraníssimo lateral Lahm. O mesmo Schüerlle, penetrando pela esquerda encheu o pé e Julio Cesar só assustou-se com as redes a balançar pela sétima vez 
– 7 x 0. O gol de honra foi de Oscar, aos 45, fechando o pano. 
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  Dizem, verdade comprovada, que os jogadores alemães, no vestiário, no intervalo, combinaram aliviar o pé, em respeito à história do futebol brasileiro e ao nosso povo, nossa gente que tão boa acolhida lhes deu, sobretudo na Bahia. 

-  Ah, não esqueçamos, ainda levamos 3 x 0 da Holanda, em Brasília, na disputa do terceiro lugar, entregues. Gols de Van Persie, Blind e Wijnaldum. Tomamos 10 gols em dois jogos. 

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  O Axé baiano   

  Os alemães ficaram hospedados, concentrados em Santa Cruz de Cabrália, onde criaram, construíram um moderno centro de treinamento, com campos, concentração, sala de fisioterapia e tudo mais, que disseram ter deixado depois para a comunidade. 

 Lá integraram-se bem com a população, tomaram banho de mar livremente, foram a festas, dançaram com os nativos, fizeram pajelanças com os indígenas, restaram felizes, cheios de axé. Espertamente, usaram em campo camisas rubro-negras, que lembravam as do Flamengo, time de maior torcida do país. Nada bobos. Em campo, deram show, jogaram muito, foram campeões. 

“O que vivemos na Bahia foi inesquecível. Daqui a 20 anos quero reunir com todos os jogadores e voltamos a Cabrália para reviver tudo”
                                                                                          (Thomas Müller)

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 Gols e Pelourinho 

 A Copa na Bahia, Salvador como uma das sedes, foi uma grande festa de congraçamentos, misturas, sem incidentes, a despeito de todas as presepadas e precauções na área de segurança, com direito a forças nacionais, tropas (policias, marinha, exército e aeronáutica), equipamentos de guerra, arsenais antiterror, uma badalada central de monitoramento. Nosso povo queria festa nas ruas e jogo de bola, só. 

Abrigamos a Croácia, na Região Metropolitana de Salvador, Praia do Forte; a Suíça em Porto Seguro e a Alemanha em Santa Cruz Cabrália.  

Digna de louvação a interação da torcida holandesa, os laranjas, com Salvador, presentes no Pelourinho, festejando antes e depois, e na Barra, na praia do Porto, no Fan Fest do Farol, com alegria contagiante e colorido.

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  A Fonte dos gols 

  Nossa Fonte Nova (eternamente assim será chamada) abrigou ótimos jogos e foi palco de goleadas: Holanda 5 x 1 Espanha; França 5 x 2 Suíça; Bósnia 3 x 1 Irã; Alemanha 4 x 0 Portugal. Muitos gols, alguns antológicos, como o de Van Persie, holandês.  

 Aconteceu numa sexta-feira 13, lua cheia e dia de Santo Antônio, um dos melhores jogos de futebol dos últimos tempos: Holanda 5 x 1 Espanha, pela Copa do Mundo 2014, quando a seleção campeã do mundo na África do Sul foi simplesmente desmantelada em campo por uma Holanda que lembrou, e muito, os tempos da 'laranja mecânica' (1974) comandada por Cuijff. Marcação perfeita, o campo inteiro e 90 minutos, velocidade, técnica e golaços! O de Van Persie, de cabeça no primeiro tempo, os de Robben, no segundo. Show.  
 Van Persie fez um dos gols plasticamente dos mais bonitos que já se viu, de cabeça, na goleada contra a Espanha (5 x 1), empatando o jogo em 1 x 1, ainda no primeiro tempo. Um lançamento longo e preciso, de 40 metros, do lateral esquerdo Blind, que encobriu a zaga espanhola e foi acompanhado pelo atacante holandês como um felino, de olhos abertos, que, ao perceber a saída do goleiro Casillas, voou de peito erguido em direção da pelota tocando-a de cabeça, encobrindo goleiro, acompanhando sua trajetória com o olhar até as redes, o corpo impávido já a deslizar no gramado: Um peixinho alado, um gol de pássaro, pintura. Beleza, pura arte.

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 Dentão nervoso 

- De mais inusitado, o lance da dentada do atacante Suarez no pescoço do zagueiro italiano Chiellini, 1 x 0 Uruguai, dia 24 de junho, em Natal. Depois de rusgas, dois catimbeiros, o dentuço uruguaio, troncudo e mais baixinho, abocanhou, mordeu de verdade o ombro do rodado becão italiano, que caiu cinematograficamente em campo, aos berros, mostrando as marcas do vampiro.  Suares foi expulso, suspenso, mas foi recebido como ‘herói’, em Montevideu. 
                             
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  O tango alemão da final  

 A disciplinada e obstinada Alemanha venceu a Argentina de Lionel Messi por 1 x 0, gol saído na prorrogação, no Maracanã, 13 de julho, o Rio de Janeiro coalhado de ‘hermanos’ a berrar e louvar Maradona, sacanear os brazucas e chacoalhar em Copacabana. 

  Os vizinhos platinos fizeram uma boa copa, sim senhor. Na fase de grupos venceram a Bósnia por 2 a 1, o Irã (1 x 0) e a Nigéria (3 x 2). Nas oitavas bateram a Suíça (1 x 0) e nas quartas a Bélgica (1 x 0). Bateram a Holanda nos pênaltis e foram pra cima da Alemanha levando fé na torcida, bagunçando no Maracanã, confiança no talento de Messi e nas ótimas atuações defensivas da equipe comandada por Mascherano. 

 Os alemães estrearam goleando Portugal de Cristiano Ronaldo (4 x 0), na Fonte Nova, empataram com Gana (2 x 2) e venceram os EUA (1 x 0). Passaram pela Argélia (2 x 1) e França (1 x 0). Na semifinal ...  os 7 x 1 nos donos da casa. Alemanha tornou-se o primeiro time de fora a conquistar um título mundial na América do Sul. 
 
  Os argentinos, com a fibra e manha que bem conhecemos, encararam. Como no tango, sabem, até gostam de sofrer. Os europeus tiveram mais volume, domínio e chegaram mais perto do gol na primeira etapa; os latinos equilibraram e também tiveram suas oportunidades no segundo tempo.

  O gol do tíitulo saiu na segunda parte da prorrogação: Schürrie da esquerda levantou na área, o avante Götze (que não era titular) dominou no peito e girou batendo, na saída do bom goleiro Romero - 1 x 0 e bastou. Os alemães comemoraram como nunca. 

 Os campeões, treinados por Joachim Löw, aquele tirador de melecas no nariz:
 - Neuer, Lahm, Boateng, Hummels, Howedes; Krammer, Schurle, Muller, Ozil  e Schweinsteiger, Krosso, Klose, Goetze. Mais Schürrie, Podolski, Draxler, Khedira... 
  
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  Micos
 
- Na entrega da taça, enquanto a ministra alemã sorridente Angela Merkel  era toda simpatia e felicidade, nossa presidenta Dilma carrancuda, de cara enfezada. Mais vaias pra ela. Dona Cristina Kirchner, a presidenta vizinha, cá não veio.  

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 Destaques
      
- A Fifa escolheu o argentino Messi como o craque da Copa; O meia James Rodrigues da Colômbia foi o artilheiro, com seis gols marcados; e Neuer, alemão, o melhor goleiro. 

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 E foi assim. Tínhamos a ‘certeza’ de conquistar o hexa em 2014, ufanismos políticos em alta, Dilma em campanha de reeleição, a copa realizada no Brasil, altos custos, riscos e investimentos, Felipão vencedor no comando... mas quá !  Esbarramos nos alemães, pelo caminho. Um tsunami. Neymar machucou feio e os obstinados e retos germânicos nos atropelaram com aqueles 7x 1 vergonhosos e inapagáveis.

 Depois, lá bem distante, na imensa e estranha Rússia... o que viria?