ter?a-feira, 25 de fevereiro de 2020
Colunistas / A Boa Mesa
Dom Franquito

DOM FRANQUITO trata com zelo uma rabuda espiritual no Caminho de Casa

No primeiro Encontro com Jornalistas na Mesa de Botequim, um papo com Otto Freitas e Paulo Bina
27/05/2016 às 10:52
   Convidado para participar da série Encontros de Jornalistas na Mesa de Botequim ao lado dos confrades (como diria o saudoso Édson Alves), Paulo Bina e Otto Freitas estive no Caminho de Casa do Mercado do Peixe, no Rio Vermelho, para para saborear uma 'rabuda espiritual'. 

   Nem combina 'degustar' uma rabada falando do além até porque a conversa base era sobre o jornalismo baiano, lembranças do passado, passagens de uma época que não volta mais, a importância do colunismo, a perda de poder da imprensa e o pouco caso que as autoridades dispensam às criticas, por aí seguindo adiante.

   O gordo Otto, nas suas observações preliminares, lá pras tantas embalado no 'red', observou que esses momentos vividos na gloriosa imprensa baiana serão eternos porque o "espirito plana no universo". Parecia inspirado no mestre Divaldo Franco.

   Por pouco, o 'red cowboy' de Bina não vai ao solo tal o susto que o jornalista tomou, ainda mais quando adiantei trecho de uma observação do inglês Sthepen Hawking que se você tivesse matado seu avô, não estaria nem comentando sobre o jornalismo, nem sequer no Caminho de Casa. Não existiria.

   Bina tomou uma dose moderada, como convém ao bom bebedor, e filosofou: "Você pode não se encontrar a ponto de matar seu avô antes de nascer, mas pode se encontar com você mais velho, pois, é possível adiantar no tempo".

   O garçom que nos atendia chama-se Tiago, nome profético, e tenho impressão que deve ter achado que nós três éramos uns lunáticos. Mas, nos servia com toda atenção.

   Otto completou a frase biniana: "Só pode andar para trás o super-homem que mudou o tempo por causa da mulher".

   "A gravidade dobra o universo", completou Bina chamando Tiago para colocar mais doses de 'red' para nosotros. 

   A essa altura dos acontecimentos tertúlicos-lunáticos pedimos uma rodada de bolinhos de feijoada. Ou seja, voltamos a terra, a real, comentando o jovem Tiago que os bolinhos são excelentes e generosos. Apetitosos dos melhores - recomendarei ao 'chef' para vocês.

   Otto lembrou-se de uma passagem quando era redator do Raio Laser, na Tribuna da Bahia, e Bina contou tambem suas passagens na época do jornalismo boêmio. Falei do Jornal da Bahia, de 1968, do tempo de Béu Machado e Aurélio Velame, em Cabelinho. Otto lembrou das crônicas de Paulo Tavares e Bina destacou que a Tribuna, com Quintino, ajudou a sepultar a boemia no jornalismo.

   Lembrei que a cidade do Salvador havia mudado muito entre os anos 1960/1980 deixando de ser a Província da Bahia, aumentou a violência e isso contribuiu para afastar-nos da noite.

   Mas a conversa sobre a espiritualidade voltou à mesa quando o gordo comentou que "espiritualismo não é fé e sim ciência". E teceu comentarios sobre a relação do corpo com o universo do tempo, lembrando que seu pai era um craque nessa matéria, e citando Gandhy: "Meu corpo é uma merda, mas, meu espirito um facho de luz".

   A nossa frente o mar do Rio Vermelho brilhava de energia. Pescadores puxavam um barco após um dia de pescaria na Colônia da Mariquita. Corpos suados, negros, repletos de vigor. Lembrei-me das canções de Dorival Caymmi e da velha Bahia mundana.

   Vamos ao principal, falei. Passamos todos às vistas no cardápio e optamos por uma rabuda -  850 g de rabada bovina de ensopado, arroz, agrião, pimenta e pirão do próprio caldo. 

   Prato pra nenhum espírito botar defeito, fortíssimo, pleno de enegia, de luz, para o camarada pairar no universo.

   Quando a rabuda chegou à mesa, deliciosa, carne dissolvendo na boca, agrião novinho, pirão de ótima qualidade no ponto em textura e sal, gostoso, caimos na real, de boca mesmo. Entusiasmados.

   Já que o corpo vale pouco, mas é alimentado por essas delícias, colocamos a espiritualidade de lado, mais 'reds' nos copos e a rabuda foi consumida com todo prazer da vida terrena, pois, não temos ainda a experiência entre os espíritos e suas colônias, cujos alimentos são a energia e os fluidos. Daí que um bom ensopado com pirão dá imenso prazer.

   Aos licores - gelados - arguiu no final o gordo para o garçom Tiago.

   - Fico devendo essa parte. Não temos.

   - Que porra é essa meu irmão! - desabafou o pedinte no baianês da cidade baixa.

    Final de tarde nos recolhemos. A conversa foi tão boa que vamos fazer uma próxima rodada, nos derradeiros dias de junho próximo, no Boteco do Jonas, tendo como convidado, entre outros, Moacir Ribeiro, jornalista da velha gurda e da boemia baiana.
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Restaurante Caminho de Casa
Mercado do Peixe
Rio Vermelho - Salvador - Bahia
Bolinhos de Feijodada R$19.50
Rabuda R$48,50
Red dose R$12,50
Não precisa fazer reserva
Atende todos os dias - dia e noite
Estacionamento R$6,00
Aceita todos os cartões
Classificação 3 DONS