ter�a-feira, 30 de novembro de 2021
Cultura

LIVRO: BLINK - A DECISÃO NUM PISCAR DE OLHOS, COMENTA ROSA DE LIMA

Livro editado pela Sextante no Brasil do jornalista inglês Malcolm Gladwell
Rosa de Lima , Salvador | 28/10/2021 às 08:04
Blink - a decisão nm piscar de olhos
Foto: BJÁ
    
  O jornalista britânico Malcolm GLadwell tem uma enorme capacidade de perceber os acontecimentos mais sutis da vida norte-americana - foi criado no Canadá e mora em NY onde é colunista da The New Yorker desde 1996 - e colocado em livros muitos dessas análises da vida do cotidiano numa mescla de vivências comportamentais do homem contemporâneo (psicologia) e marketing. Quem já leu "Fora de Série" e "Ponto da Virada" sabe que Gladwell não é marketeiro - nem da política; nem de produtos de consumo - e não expõe suas ideias com observações que devam ser seguidas porque são um roteiro a ser seguido, algo relacionado a autoconhecimento.

Nada disso; pelo contrário. Suas ideias repletas de 'insights' são exposições dentro da psicologia comportamental - se é que podemos chamar assim - de 'cases' que acompanha, estuda, verifica os possíveis ângulos de abordagem, revela algumas contradições próprias de processos psicológicos e nos oferece livros com fatos populares envolvendo o homem comum.

Em Blink (Editora Sextante, 239 páginas, R$24,90 em portais da internet, tradução de Nivaldo Montigelli Jr, 2016) ele aborda casos que envolvem tomadas de decisões rápidas - o subtítulo do livro é "A decisão num piscar de olhos" - uma técnica de cognição ágil denominada 'fatiar fino'. Ou seja, como o cérebro de um indivíduo funciona diante da necessidade de tomar uma decisão e porque algumas pessoas são racionais e operam essas atitudes com brilhantismo, acertos; e outras são incapazes de fazê-lo, às vezes, comentando barbaridades indo parar em bancos de réus em frente a juízes.

Ele cita, entre outros, o caso da tentativa de assassinato de Ronald Reagan, em 30 de março de 1981, no Washington Hilton Hotel, quando o jovem John Hinckley sacou uma pistola calibre 22 e disparou à queima roupa contra a comitiva presidencial, uma das seis balas acertando na cabeça de James Brady, assessor de imprensa, mais dois agentes secretos sendo baleados nas costas e no peito, e o presidente Reagan tendo seus pulmões perfurados a bala passando a centímetros do seu coração.

Como Hinckley chegou tão perto de Reagan? Os guardas costas são treinados para ler rostos e mentes e por que não conseguiram perceber o atirador? 

Gavin de Becker autor do livro "As virtudes do medo" ensina que a questão principal no que diz respeito à proteção é a "quantidade de espaço em branco" - a distância entre o alvo e o agressor em potencial. No caso Hinckley/Reagan não havia espaço em branco. Hinckley se misturou a um grupo de repórteres próximo ao presidente e no momento em que os seguranças do Reagan perceberam que um atentado estava em andamento (momento de reconhecimento) passou-se apenas 1.8 segundos. 

Blink traz outras 'cases' bem emblemáticos como a compra de uma estátua de mármore datada do século VI a.C (um kouri) após 14 meses de investigações e, posteriormente, três especialistas, em poucos segundos determinaram que a estátua era falsa. Segundo o autor, isso significa dizer que "decisões tomadas muito depressa podem ser tão boas quanto decisões tomadas de forma cautelosa e deliberada". 

A parte do cérebro que chega rapidamente a conclusões é chamada de "inconsciente adaptável" e os estudos deste tipo de tomada de decisões é um dos mais importantes novos campos da psicologia.

Há, no entanto, no inconsciente coletivo da população de que a "pressa é inimiga da perfeição". Isto é: não julgue um livro pela capa; ou uma pessoa por sua aparência. E Gladwell advoga que é importante colher o máximo de informações para se tomar uma decisão, mas há casos - e muitos deles - em que uma tomada de decisões tem que ser rápida, num piscar de olhos. 

O exemplo do atentado a Reagan é emblemático: no momento do reconhecimento a proteção ao presidente foi automática e tomada em segundos, tanto para quem atirou como para quem defendeu. Assim, dois agentes de segurança foram baleados nas costas e no peito na cobertura (escudo) ao presidente.

Gladwell também relaciona o caso de Amadou Diallo que aconteceu em 1999, na Wheeler Avenue no South Bronx, NY, bairro pobre da classe trabalhadora (uma boa parte, informal) quando esse imigrante da Guiné foi assassinado por uma patrulha do Departamento de Polícia ocupada por 4 integrantes jovens entre 27 e 36 anos de idade. Diallo era apenas um suspeito que zanzava pela rua tarde da noite e foi abatido a tiros porque os policiais suspeitaram de que ele estava com uma arma no bolso.

Houve, neste caso, um julgamento prévio errado formado sobre uma pessoa (forma mais comum de cognição rápida), uma leitura de mente distorcida. Em posterior análise desse caso que acabou no tribunal do júri (os policiais foram absolvidos de homicídio, mas condenados em outras penas) tanto os policiais; quanto a vítima sentiram medo, mas não conseguiram ver nada disso durante a ação. A morte de Diallo caiu numa espécie de área cinzenta entre o deliberado e o consciente, e os disparos foram realizados e o imigrante morto. 

O livro aborda o dilema de Kenna, filho de imigrantes etíope, um promissor compositor e cantor do 'rytm and blues' que teve uma carreira meteórica e ascensão diante de uma análise rápida (fatiamento fino) de suas canções, tinha tudo para decolar e ser um grande astro pop, mas isso não aconteceu e sua carreira evaporou. O que aconteceu com Kenna (há outros casos frequentes nesse campo) são pré-julgamentos iniciais favoráveis, alguns até com fortes investimentos, mas que não se sustentam ao longo do tempo.

Blink é um livro para pensar, refletir. O autor referenda que para tomar uma grande decisão não é necessário processar muitas informações ou deliberar a partir de uma análise com maior tempo, e sim desenvolver a arte de filtrar, a partir de inúmeras variáveis e analisar as poucas informações que realmente importam. Atitude que requer bom senso, experiência e sangue frio.

Pensar rápido não é uma coisa fácil e acessível (com acertos) para todos os mortais. Daí que diante de alguns sucessos; e de fracassos são aprofundados estudos psicológicos, pesquisas, experimentos em grupos, testes, para tirar lições que sejam úteis a fatiar fino com êxito.