segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
Cultura

É NATAL E O FUTURO PEDE XEQUE-MATE, por SAMUELITA SANTANA

Samuelita Santana (romântica) é jornalista
Samuelita Santana , Brasil | 23/11/2020 às 10:48
É natal
Foto: OG

  Fora do meu habitat, sem direito a algumas boas regalias que a terrinha de São Salvador me proporciona, como o sol nosso de quase todo dia, o vento fresco, os burburinhos da noite chegando pela varanda, o saboroso acarajé na esquina que bem escolher e a praia logo ali, me pego aqui e acolá nos sobressaltos que esse "fuori posto" (fora de lugar) me traz. Como boa notívaga, depois de maratonar madrugada a dentro minha série preferida do momento - O Gambito da Rainha - , sorvendo meus lentos goles de vinho rosé acompanhado de pedacinhos de nozes e castanha de caju, decido puxar as cortinas da noite e dormir. Antes do gesto mecânico, algo da vidraça da janela me surpreende e paralisa. 

  Num quadro sincrônico, avisto de golpe uma linda Árvore de Natal piscando majestosamente na varando envidraçada do vizinho à minha frente. . Como assim É Natal? Sim! É Natal. O Natal chegou e eu, de quarentena, nem vi. A realidade me sacudiu em baque. Praticamente um ano inteirinho havia passado enquanto eu, prudentemente, assistia a vida passar pelas telinhas virtuais e da TV. Que surreal. 

  Fiquei pensando na estranheza dos últimos tempos, em como o mundo inteiro, em todos os continentes, se igualou, se identificou ou se solidarizou com algo que avassalou simultaneamente todas as divisões desse espaço terrestre. Um fenômeno que impôs ao mundo a desaceleração do seu ritmo alucinado, isolou pessoas, quarteirões, cidades, famílias, desaqueceu a vida, a economia, polemizou, dividiu, meteu medo, pânico e matou. Fez desaparecer milhares de seres humanos. Tristemente e sem aconchego.

  Ainda em estado de perplexidade, fui iluminada pelos primeiros claros da manhã que se avizinhava. Olhei pro céu alaranjado e pensei: tá nascendo um novo dia. Meu coração se aqueceu porque ali, naquele momento, apesar do instante de tamanha reflexão e lucidez, senti uma amplidão e tive fé no futuro.

  E ali, do choque à animação, eu decidi: QUANDO CHEGAR EM SALVADOR VOU APRENDER A JOGAR XADREZ.