segunda-feira, 30 de novembro de 2020
Cultura

NO MEU TEMPO DE MENINO, A FOLHINHA COM NEVE MARCAVA A VIRADA DO ANO

Serrinha não tinha réveillon nas associações comunitárias e na praça da matriz, o ano virava virando
Tasso Franco , da redação em Salvador | 28/10/2020 às 07:24
Folhinha de 1955 com paisagem de neve
Foto: DIV
   O jornalista Tasso Franco publicou nesta quarta-feira, 28, a 28ª crônica do seu livro "No Meu Tempo de Menino, o último apito do trem" (a9145/1957), Serrinha, Bahia, e comenta como era a virada do ano naquela época. Leia abaixo a crônica do dia e as demais no aplicativo wattpad.

  NA VIRADA DO ANO O QUE MARCAVA ERA A FOLHINHA

  Nos dias atuais, com as novas tecnologias da internet pode-se assistir a queima de fogos de artifício em várias partes do mundo na virada do ano, com imagens coloridas e transmissões em várias línguas. Diria que nos últimos 75 anos, desde quando vim ao mundo, houve uma transformação enorme nas sociedades, como nunca acontecera em outras épocas da existência do sapiens desde que ele começou a se organizar em comunidades agrícolas há 15 mil anos, domesticando os bodes e cultivando o trigo. 

   Lembro disso, em especial das transmissões ao vivo de festas dos réveillons no Rio, NY, Paris, Londres, Lisboa e de outras cidades do outro lado do mundo Seul, Sidney, Tóquio, etc, para comentar que, no meu tempo de menino, não havia foguetório na virada do ano, brindes de ‘champagne’, festa na praça principal, presentes à Iemanjá, nada disso.

   A gente virava o ano como um outro dia qualquer, salvo que era feriado e o comércio não abria no dia 1º de janeiro.

   O ano virava virando, a roda do tempo, silenciosa, engolindo os dezembros. Somente anos depois vim saber que meu pai ficara contente com os anos pós II Guerra Mundial, a partir de 1946, pois, como tinha uma tipografia e livraria comprava papéis, tintas, tipos, etc, de uma firma alemã, em Salvador, os Westfalen, e sofrera muito durante a guerra na falta de mercadorias. 

   E, também, só anos mais tarde, vim saber que houve uma Copa do Mundo de futebol no Rio de Janeiro, em 1950, quando eu tinha 5 anos de idade, e o Brasil perdera para o Uruguai, dentro de casa jogando no Maracanã.

   Em 1958, com 13 anos de idade, na Copa da Suécia que o Brasil foi campeão do mundo e surgiu Pelé para o futebol, como uma grande revelação, passou batida para nós. Mais tarde, não lembro quando, meu pai mostrou umas fotos no Cruzeiro do feito fantástico do Brasil, em destaque, Belini erguendo a taça Jules Rimet.

   Salvo engano o Serviço de Alto Falante Urubixaba, com Paulo Teiú e Dodó de dona Maninha comentando comemorou-se o Brasil campeão do mundo em futebol. 

   Lembro ainda que na virada do ano havia pelo menos três coisas emblemáticas: a primeira era a troca da folhinha da parede de casa, com propaganda da Bacelar & Bacelar que era uma das lojas que davam folhinhas aos seus clientes, o que significava que o ano havia mudado. 

   Minha mãe sempre lembrava ao meu pai: - Bráulio, não esqueça de trazer a folhinha. 

   E no dia da virada, a folhinha nova tomava o lugar a velha na parede do chalé. Tinha dois modelos: uma chapadona com todos os meses do ano à mostra e uma imagem de paisagem europeia, até campos nevados; e uma outra que continha quatro folhas, em cada uma delas três meses, destacados em grifo vermelho os dias santos e feriados.

    A segunda coisa emblemática é que acabava o queijo de cuia do Natal, em Reis, quando minha mãe havia fatiado o tal de maneira que durava quase oito dias, tiras bem fininhas colocadas nos pães do café da manhã para mim e meus irmãos Bráulio e Celeste.

   Significava dizer que era ano novo e o próximo queijo só chegaria à nossa mesa na semana do NataL. A terceira coisa é que tinha a festa dos ternos de reis na praça Luís Nogueira comandadas por donas Pipe Paes e Ivone Maciel Mota, com crianças participando.

   Era a nossa virada do ano. No mais, rotina. Salvo, também, que era a época do ano em que, já garoto depois dos 7 anos de idade até os 15 anos, estávamos de férias da escola primária/ginásio e não precisávamos estudar. 

   Tinha ano em que meu pai colocava toda família num carro-de-bois e levava para a Fazenda Capitão, distante 20 km da sede. E, anos mais tarde, eu já estava adulto, ele adquiriu uma casa no Jorro, numa ponta de rua que dava pra o Tucano, num areião, que a família se dava a esse luxo no final do ano. 

   Em Serrinha, na boca da virada do ano, às vezes em meados de dezembro, aconteciam as trovoadas. O tempo ficava abafado, um calorão infernal, e São Pedro arrumava as mobílias do céu com cada estrondo de trovões e riscos de raios que a gente se tremia todo. Parecia que o mundo ia se acabar. Meu pai, nem tchun, ficava olhando pro céu admirado e querendo mais chuvas. Quando a trovoada era rápida e a chuva não provocava enxurradas ele dizia: - Choveu pouco. Nem sei se barrufou la no Capitão.

   O Capitão era sua fazenda que ficava no distrito de Pedra após a curva da Bola Verde e adiante do Escorrego. Justo porque, quando chovia, até passar com carro-de-bois era difícil.

   Quando fiquei maiorzinho e tinha essas chuvas de verão vestia um calção (ninguém falava a palavra short) e saía correndo pela praça da Usina com meus amigos para tomar banhos nas bicas do Armazém de Sêo Feliciano ou nas bicas do chalé lá de casa. Minha mãe ficava apavorada temendo que um raio nos matasse. 

   O Carnaval era também um indicativo da virada do ano. Dei sorte: em 1952/53 foi inaugurado o Clube, local que se chamava Associação Cultural Serrinhense (ACS), mas, todo mundo só chama 'o Clube' e surgiram os bailes carnavalescos infantis. E lá fui eu com meus irmãos para o baile que era à tarde, no domingo. Não me lembro a fantasia que vestia. Anos depois, adulto, levei minha filha Nara, bem pequenina, para um desses bailes, no alvorecer dos anos 1970.

   A virada do ano trazia novidades na feira livre. Era a temporada das mangas, umbus e cajus. Meu pai trazia uns cajus deliciosos da fazenda. A gente adorava arreliar o padre Demócrito pulando o muro de sua casa, onde hoje é a Insinuante e o Banco do Brasil, para 'furtar' mangas. E, na feira livre, a gente comprava litros de umbu que era barratíssimo.   

   Em 1950, o prefeito era João Barbosa. Seu grande feito foi inaugurar o Mercado Municipal no antigo local do Tanque da Nação e isso marcou minha infância. Era o local mais charmoso da cidade e se situava entre minha casa e a loja comercial do meu pai.

   Da virada do ano, o que mais me lembro, de fato, é da folhinha. Tradição que mantenho até hoje. Agora, com a do Coração de Jesus, que compro todo ano nas Paulinas e fico tirando folha a folha vendo o tempo passando, os dezembros chegando, e esperando abril quando completo 76 anos. 

   Em casa, na parede da cozinha, mantendo a tradição da folhinha com belas imagens de santos e paisagens. De preferência, com neve. Tabaréu adora neve.