sexta-feira, 27 de novembro de 2020
Cultura

CRÔNICA: LUBI DE SERRINHA PREOCUPADO COM SUA FORTUNA E A ONDA DIVÓRCIO

A onda ainda não chegou a Serrinha, mas em Sorocaba o aumento de divórcios foi de 900%
Tasso Franco , da redação em Salvador | 25/10/2020 às 09:25
Uma onda divórcio pegou os brasis diante da pandemia do coronavirus
Foto: Seramov
  O jornalista Tasso Franco publicou neste domingo, 25, a 30ª crônica do seu livro "O Lobisomem de Serrinha, a nuvem de fogo e o fim do mundo" no aplicativo wattpad abordando o tema a onda de separações de casais provocada pela pandemia do coronavirus. Leia abaixo e as demais no wattpad.

  

   LUBI PROMETE NOVAS ENTREVISTAS COM ALMAS DO ALÉM
 
  Alguns leitores e leitoras, poucos (as) que são, me pediram para fazer mais entrevistas com personalidades do além, almas que estão noutra esfera espiritual e digo-vos que até gostaria de fazer tantas mais, porém não depende de minha pessoa que estou sempre à disposição ou no meu sitio Lar Doce Lar, no Oséas, ou na Praça Luís Nogueira onde retornei a passear desde que a pandemia do coronavirus diminuiu e onde bati um papo, recente, com o fundador da Serrinha, Bernardo da Silva e o alcaide Nogueira.
 
   Há a promessa de Bernardo de que sua esposa Josefa Maria do Sacramento inspiradora para que ele erguesse a capela em louvor a Senhora Sant'Anna, nossa igreja matriz da praça, venha do céu onde mora conversar comigo, até para explicar de viva voz donde trouxe consigo essa fé em Sant'Anna e qual a imagem que utilizou na época, em 1780.
 
 Estou também com promessas de um papo com Ruy Barbosa, o eminente jurista baiano que esteve conosco na campanha de Paulo Pontes a governador da Bahia, adversário de J.J. Seabra, no inicio do século XX, foi recebido na gare do trem e desfilou em carroça ornamentada - quase uma carruagem dos contos de fadas - e recebeu flores e o carinho da população, discursando em comício e jantando e dormindo na casa de Agenor de Freitas.
  
  Vão ser conversas admiráveis assim como espero um encontro com Joaquim Hortélio, pai da Alice, espírita de origem e que deve habitar, provavelmente, os anéis de Saturno, para contar-me como construiu o Tanque das Abóboras pagando os trabalhadores com esse alimento diante da seca inclemente que aconteceu na Serra. Há outros nomes na fila a espera de um contato com esses mensageiros da alma, espíritos de branco, para apreciar uma iniciação profunda de alguém do outro mundo.
  
  Estava, pois, a conjecturar esses anseios, a por minha imaginação a trabalhar, essa faculdade divina que precisa de estímulos para produzir e anteceder visões na ficção e na realidade, nesse mix que se molda com o tempo, o senhor de todas as razões, e liga-me o poeta Serafim Alves - sempre ele a atormentar-me - para dizer que está indignado com a ideologização da vacina para combater o coronavirus e sem entender os argumentos superiores de que a chinesa não fora testada e aprovada cientificamente, quando a divindade receitava a plenos pulmões a cloroquina, um vermífugo e até um laxante anal como efetivos e bons.
  
  Ponderei ao poeta que vivemos no país dos sonhos e não sabemos o que é a realidade e o que representa a fantasia. E que o importante é manter os procedimentos da OMS, as recomendações dos infectologistas, usar máscara, não participar de aglomerações, ter cautela e beber caldo de galinha, porque o vírus segue matando pessoas em todo mundo.
  
  - E os políticos respeitam esses procedimentos que V.Sa. fala? As campanhas políticas no interior da Bahia estão lotadas de gente, sem máscaras, sem nada de proteção, grupos aglomerados e vai ficando por isso mesmo, pergunta e pondera o poeta.
 
   - Ora, meu sagaz vate, os políticos são uma categoria à parte, deuses do olimpo, e nada contra eles acontece. Eu é que não posso me expor dada a minha idade em anos avançada, a comorbidades que enfrento, stentes nas artérias ascendente e descendente do coração, portanto, fico no Lar Doce Lar com a minha Ester Loura adorada.
 
  - A propósito meu gigante da colina as manchetes da imprensa gossip estão a alardear que nesta pandemia o número de separações de casais, alguns casados há muitos anos; outros, nem tanto estão a se separar. Preocupante, imagino?
 
  - Meu sábio vate das sextilhas não é o meu caso. Vivo love a cada dia mais intenso com a Ester, amor profundo, estamos mais unidos do que nunca e esse modismo ou sei lá o que classificar, a pandemia levando fama sem proveito, tudo ela, não nos atinge, não nos preocupa.

  A Ester que já me chamara para o almoço duas vezes volta a sala e diz: - Pare de ficar arengando com esse poeta sem luz, sem brilho, e venha comer o mangalô com maxixe, asinhas e barriguinhas de gafanhotos dos pampas temperadas no óleo e alho.

  Ponderei ao poeta que teria a obrigação de desligar o telefone, mas, ainda assim, o senhor das rimas perfeitas informou-me que alguns casais que estão se separando arrolam fortunas em mansões e capilés vultosos, alguns falando na casa de milhões. Pilheriando, o vate completou: - Quem me dera uma 'viúva' dessas milionárias, a sobrar de uma desdita, a apaixonar-se por minha pessoa.

  - Meu soberano das estrofes perfeitas, cada pé só cabe na sua forma, e o nossos são da pobreza. Então, acostume-se com a Guiomar. 

  Dito isso, desliguei e fui almoçar com meu love. Narrei as ponderações do poeta e ela retrucou com assaz inteligência. 

  - Ele dê graças a Deus ter a Guiomar. Uma senhora distinta e que o sustenta porque, salvo um cabide que esse versejador fajuto tem no serviço público, barnabé relés que é, ela, sim, que é mestra, pedagoga, tempo integral 40 horas em trabalho, põe as comidas e as necessidades de sua casa, paga água e luz com o seu soldo.

  - Minha Ester, isso é coisa que se diga do renomado poeta!

  - Falo porque sou amiga da Guiomar e ela me confidencia as coisas. Já esteve para mandá-lo às favas. Qual o livro desse chinfrim que vendeu 100 exemplares, salvo o cordel do Cu Guloso de um político, lançado em oportunismo que deve ter chegado, em vendas, a 300 a 400 exemplares, cada a 1 real, dinheiro que mal dá para uma feira depois que se paga a gráfica sobrando não mais do que 100 pilas.

  - O importante não é o que se tem no banco, mas a extensão de sua obra, o épico a Viúva Ruiva e os Seios de Prata é citado pelos enciclopedistas alhures; o poema louvado a resistência dos jegues obra prima que se iguala ao corvo de Poe (never more); A Jurema de Folhas Milagrosas, extraordinário...

  Ester interrompe minha fala: - Não me venha com esses salamilaques porque poesia não enche barriga de ninguém e se ela pedisse a separação com base na estresse da pandemia, o correto seria esse enganador das letras pagar-lhe uma indenização, que não fosse os milhões que os artistas famosos pagam, mas, algo expressivo.

  - Tenha dó. Esforça-se, labuta, peregrina em editoras. Não é fácil vida de escritor.

  - O Alves passa a maior parte do seu tempo a se balançar numa rede dizendo-se em busca de inspiração no embalado da preguiça. Agora - diz-me a Guiomar - dedilha um bandolim imaginando ser um Holanda, um Jacob, um virtuoso para ganhar boladas em concertos parisienses. Tudo um embromatório geral enquanto a Guiomar, no tempo que lhe sobra, nos finais de semana, faz bolos para vender ao público que comparece aos babas no campo do Bahia da Rodagem e amealhar alguns recursos extras para o esmalte, para uma escova no cabelo.

  Imagino então que, se a senhora (usando tratamento respeitoso) se separasse de mim por admirar-se com algum vitão, eu estaria ferrado e minhas finanças iriam para o brejo, minhas economias em barras de ouro para as calendas, minhas ações do petróleo e do minério de ferro pulverizadas como agrotóxicos para peras e uvas.

  - Só rindo. Que finanças são essas que desconheço depois de mais de 100 anos de casados? Que barras de ouro são essas enterradas n'alguma quintal do além porque no Lar Doce Lar não é! Que ações são essas do petróleo, salvo o querozene que armazenas para os fifós, e do minério de ferro em pasto de calangos! Poupe-me e fiquemos juntos para a eternidade.

   - Ainda bem, assim preservaremos nosso tesouro.

  - Que não me deixes dívidas e preocupações finais - concluiu a Ester abrindo um Malbec - e recomendando que providenciasse, o quanto oportuno, o pagamento de uma gaveta no Jardim das Acácias da Loja Maçônica.