quinta-feira, 24 de setembro de 2020
Cultura

NO SÃO JOÃO MEU PAI DESENHAVA BIGODES E COSTELAS COM CORTIÇA QUEIMADA

No São João a Prefeitura deixava o motor que iluminava a cidade, nas ruas, até a meia noite.
Tasso Franco , da redação em Salvador | 05/08/2020 às 10:28
Meu irmão Bráulio, minha irmã Celeste e minha prima Nonô, em 1947, no portão do chalé
Foto: Arquivo do autor
 O jornalista Tasso Franco publicou nesta quarta-feira, 5, no aplicativo literário wattpad sua 4ª crônica do livro No Meu Tempo de Menino, Serrinha, 1945/1957, sobre o São João de sua época. Leia abaixo. Todas as outras crônicas estão no ewattpad, leitura gratuita.

 NO SÃO JOÃO MEU PAI DESENHAVA BIGODES E COSTELAS COM CORTIÇA QUEIMADA

 
    No meu tempo de menino, em Serrinha, 1945/1957, a festa que a gente mais curtia era o São João. Não somente o dia consagrado a João Batista, o judeu que teria batizado Jesus Cristo no Rio Jordão, mas todo o mês junino. A paisagem do município se modificava com as chuvas de São José (março) e do inverno e quando se iniciava o mês de junho, a gente não falava noutra coisa que não fosse férias escolares e São João.

   Logo apareciam nas proximidades do Mercado Municipal, hoje, posto no chão, as tendinhas de vendas de fogos e as lojas do Beco da Lama também colocavam os produtos dessa natureza à venda, especialmente os Fogos Caramuru, 'aqueles que não dão chabú', e a gente ficava numa euforia enorme para comprar bombinhas, caixas de traques (bufa de véio) e cobrinhas, para ir promovendo uma prévia do São João.

  Era tempo também de novidades na mesa com a oferta de milho verde nas feiras livres dos sábados (ainda não tinha a feira de quarta) e minha família (como as demais) preparavam bolos de milho, canjicas e pamonhas, mesmo antes do dia de São João.

   Durante o mês de junho as lojas também começavam a promover a venda de roupas caipiras - camisas de quadros, vestidos com estamparias também com quadros coloridos, etc - e nas feiras livres surgiam as vendas dos chapéus estilo roceiros enfeitados, dos licores, das laranjas e dos amendoins. Surgiam do nada. De uma semana pra outra as feiras estavam repletas desses produtos.

   Quando se aproximava da data do São João, 23, aí é que havia uma fartura enorme desses produtos nas lojas e nas feiras. Meu pai mandava Pedro Carreiro trazer no carro-de-bois da sua Fazenda Capitão, no distrito de Pedra, uma carrada de lenha para abastecer o fogão do chalé e uns tocos para a fogueira. 

  Quando o carro-de-bois chegava era uma festa e trabalho dobrado para Pedro, o qual tinha que manobrar os bois e descarregar a carga levando a lenha até a cozinha. Os tocos ficavam no jardim à espera da noite junina.

   Na praça aonde a gente morava, da Usina, Sêo Antônio Nunes que era o maior festejador do São João, na véspera lançava bombas de bater enormes nas paredes do armazém de Sêo Feliciano e acordava todo mundo. Parecia que o mundo ia se acabar. Era cada pipoco estarrecedor. Meu pai acalmava a gente em casa: - É Antônio Nunes soltando bombas - comentava.

   Na data propriamente dita do São João a gente ficava numa ansiedade enorme pra a noite chegar logo para acender a fogueira e tocar os fogos. 

   Logo cedo a canjica já estava sendo mexida no panelão. Zildinha, minha mãe, não era de cozinhar. Mas, pra fazer uma canjica igual a dela era difícil. Macia, fina, delicada, uma delícia. Com um pó de canela e café com leite era de “matar” de boa. 

   Meu irmão Bráulio, já rapazote, era o rei dos balões do Largo da Usina. Era craque em confeccionar e soltar os balões. Fazia de tudo e na hora de soltar os balões para acender a bucha tinha a nossa ajuda, discreta, e de meu pai. E lá se ia para o céu os balões sempre em direção da Bomba, a perder de vista.

   Por volta das 5 da tarde meu pai começava a armar os paus e tocos da fogueira em frente ao chalé. Por volta das 7 da noite a gente já estava pronto, vestidos de caipira eu e meus irmãos. Meu pai pegava um lápis de cor e rolha queimada no candeeiro e fazia umas costeletas, bigodes e cavanhaques na gente, e minha irmã Celeste ia toda caipira de trancinhas na cuca. Minha prima Nonô, também. Laiz ainda era pequena e só entrou na folia junina quando eu já tinha 9 a 10 anos de idade.

   Todo mundo paramentado a família ia para a frente do chalé, meu pai acendia a fogueira e começava a lambança. Não tinha música junina, até porque meu pai só comprou uma vitrola em Salvador quando eu já era rapaz. Aliás, não tinha música de forró em lugar algum: nem na casa de Sêo Antônio Nunes, nem na casa de Sêo Addon Costa, nem na casa de Sêo Neco Bilheteiro, nem na casa de Sêo Torquato sacristão; nem na praça, nada. 

   O gostoso mesmo era acender a fogueira e tocar os fogos. Era uma alegria que durava pouco tempo. Por volta das 9 horas da noite já tínhamos tocado todos os fogos que eram poucos.

   Meu pai às vezes levava a gente até a casa de Sêo Abdon Costa, onde foi a casa de Silvio Cachoeira, e depois a gente voltava pra a fogueira para assar algum milho. 

   Meu pai nunca gostou de soltar foguetes e só comprava fogos bobinhos: chuvinhas, rodinhas, etc - com medo da gente se queimar. Salvo pequenas queimaduras nos dedos ou de alguma ‘cobrinha’ que caia dentro da camisa, nada de grave aconteceu. 

    No São João a Prefeitura deixava o motor que fornecia luz aos postes até meia noite. Mas, ai por volta das onze da noite a gente já estava era na cama prontos para dormir. Ao longe, creio que na rua da Rodagem, a gente ouvia senhoras cantando músicas de roda.

   No outro dia ainda tinha o rescaldo que a gente fazia nas fogueiras, conferindo uma a uma pra ver se encontrava alguma bomba que não explodira e saia futucando as cinzas com pedaços de paus. 

   Minha mãe ficava preocupada e dizia: - Você não vá lá na fogueira de Sêo Antonio Nunes procurar bombas. A gente nem ligava. O conselho entrava por um ouvido e saia pelo outro. 

   Normalmente, a gente não achava nada. Só cinzas. Nessa época do ano também costumava chover ou garoar bastante e as fogueiras amanheciam com pequenos pedaços de tocos e cinzas molhadas. Mas isso também fazia parte da festa.

   Ainda tinha o São Pedro. Mas, em Serrinha, sempre foi fraquinho. Meu avô Jovino, o qual fora viúvo e tinha uma imagem de São Pedro que foi dada a minha irmã Laiz, estava casado com Roza de Lima, e não reverenciava o santo. Em seu sitio, na descida para o tanque das Abóboras, nada de fogueiras. 

   Quando fiquei homem, minha tia Celina (irmã de minha mãe) já viúva e boa licorista, o melhor da Serra durante anos, esta sim, acendia uma fogueira para São Pedro e minha mãe e minha irmã Celeste iam na casa dela, mas, essa é outra história.