quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

AKWAABA OLODUM AO CORAÇÃO DE GHANA

Cristina Calacio
03/11/2019 às 11:14
Akwaaba, significa bem-vindo! Foi assim, que a comitiva da Banda Olodum foi recebida (outubro) no país de Ghana no centro da costa oeste da África.

   Em 2019, “ano do retorno”, faz exatamente 400 anos após a chegada dos primeiros descendentes de africanos que retornaram a suas raízes - à mãe África. Foi com esta grande empolgação e ansiedade que o grupo Olodum faz o “retorno” à terra de sua ancestralidade.
 
   Como em muitas sociedades africanas, o Olodum ao longo dos seus 40 anos de história, respeitou
a ancestralidade africana como um dos princípios básicos para agregar expressoes de vida, tradições
culturais, senso de identidade e continuidade dos valores socioculturais africanos e ao mesmo tempo
transmitir conhecimento, contribuir para promover o respeito à diversidade humana, aglutinando
tradição e modernidade.

   A viagem que levou o Olodum ao “coração de Ghana”, a terra de Kwame Nkrumah, o pai da
independência e co-fundador da Organização da Unidade Africana; o país onde o grande panafricanista Dr. W. E. B. DuBois passou seus últimos anos. A terra onde o Rei Ashanti é o mediador dos conflitos e disputas, celebra tradiçoes e costumes culturais quase indecifráveis (em tempos de globalização), transmitidas de geraçoes em geraçoes.
 
   A visita ao Castelo de São Jorge (St. George's d'Elmina), construído em 1482 na cidade de Elmina, na região central do Ghana, representou um simbolismo significativo e emotivo para a comitiva Olodum descendentes afrobrasileiros, por tratar-se de um monumento que representa a história contínua do encontro europeu-africano ao longo de cinco séculos e o ponto de partida da diáspora africana.

   Em Accra o Olodum foi recepcionado pela embaixadora do Brasil no Ghana, Sra. Maria Elisa de Luna em alomoço de boas vindas, onde estavam presente diversos convidados como a panafricanista Samia Nkrumah, Fabio Camara representante da Contracta Engenharia, empresa brasileira com subsidiária em Accra.

   O show da banda Olodum na capital Accra teve como palco o Kempinski Gold Coast City e estiveram presentes autoridades e convidados ganenses, como o Ministro Mustafa Abdul-Hamid; Nana Akyena Kwagyan Nuama V (Asuonwunhene), representante do rei axante Otumfuo Asei Tutu II; Nii Aruba Kwashie Nelson, chefe da casa Tabom (clã de origem baiana) e muitos convidados importantes.
 
   Em Kumasi no último dia 06 de outubro, o presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues foi o convidado do Rei da nação Ashanti, Osei Tutu II para um encontro reservado onde discutiram projetos de cooperação para um futuro. Foi a primeira vez que um Soberano Africano de Ghana recebe em particular uma liderança do Movimento Negro Brasileiro.
 
   O grande líder Osei Tutu II é o 16º rei dos Ashanti, descendente direto do fundador do Império Asante. Em duas décadas de reinado o Asantehene Otumfuo, combina modernidade e tradição, defendendo as tradiçoes culturais do seu povo como um elo gerador de paz.

  No país Ghana, o domingo é um dia reservado pelos chefes e povos tradicionais Asanti para
invocar seus espíritos ancestrais, aos quais eles buscam orientação e proteção. Foi com este espirito
de respeito e sinergia que a Banda Olodum participou do Festival Akwasidae, uma celebração
rica de herança cultural, respeito a ancestralidade, fortalecimento dos laços tradicionais e demonstração
de unidade. A nação asanteman e seus governantes tradicionais de muitas aldeias, cidades e
áreas vizinhas se fazem presentes para reafirmar sua lealdade ao Golden Stool, magicamente trazido
do céu.

   E essencial conhecer a lenda de Sika’dwa, a banqueta de ouro, para a compreensão da nação
ashanti. No século XVII todos as tribos ashantis foram convocadas para lutar contra o poderoso
estado Akan de Denkyra. Para esse encontro, foi trazida uma banqueta de ouro vinda do céu, a
pedido do sacerdote Okomofo Anokye, o sábio conselheiro, para Osei Tutu I, o primeiro rei ashanti.

   Assim, o Trono Dourado é um símbolo nacional, um objeto sagrado. Os ganenses se orgulham da
história da rainha-mãe Yaa Asantewaa (1850-1921), rainha guerreira e guardiã̃ do tamborete de ouro
que dirigiu sua nação na última guerra ashanti contra os britanicos. 

   A participação de cada membro do Olodum no Adae Festival Kumasi foi com certeza um
momento de reencontro com suas origens, o se reconhecer em traços comuns, reconhecer a sua
herança cultural, a dança, a força do toque dos tambores, uma ligação fortíssima da ancestralidade
africana em cada um. A festa reflete a cultura do seu povo, pessoas únicas e acolhedoras, carregadas
de simbolismo no “coração de Ghana”.