sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

CRÔNICA 9: FLOR DO AMANHÃ PAGA RESGATE DO GALO MAIS FAMOSO DA BAHIA

Tasso Franco
18/10/2019 às 12:12
Como vimos nos capitulos anteriores nas aventuras do galo cantor da MPB Bingo ele foi salvo por uma vendedora de cocos verdes que atua no Morro do Cristo, em Salvador, ficou famoso depois que deu uma entrevista num programa de TV interpretando músicas brasis, cantou num festival em Munique onde foi vaiado após interpretar "Paixão de um Homem", de Waldick Soriano, participou de vários festivais em Pindorama, no seu retorno, e quando imaginava comprar um apartamento no Morro Ipiranga, na capital baiana, foi sequestrado.

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Dona Flor do Amanhã chegou cedo em sua tenda de cocos. Era um domingo de sol forte e luminoso. Previa fazer bons negócios. Na noite anterior o galo Bingo havia arrasado no Verão Fest e ela era só entusiasmo. Havia analisado com ele a possibilidade de comprar um flat no Morro Ipiranga - área super chique da capital baiana - para que deixasse sua casinha na encosta do Morro do Cristo e estava feliz da vida. Trouxera, inclusive, dois pães de milho que havia comprado na Pepe Duti do Chame-Chame para Bingo bicar e um saco de milho mexicano da melhor qualidade, além de uma garrafa de água mineral Perrier.

Armou a tenda, organizou os cocos, seu filho Berini veio para lhe ajudar, tudo em cima já atendendo os clientes quando sentiu falta de Bingo, que, até aquele momento - ela já tinha mais de 40 minutos na tenda - não viera cumprimentá-la. nem bicar os pães, mesmo ela chamando por ele em voz alta: bingo!...bingo!...bingo!...

Sem resposta aos seus apelos resolveu descer a encosta até a casinha do galo e, para sua surpresa, o animal não estava. Desceu mais até a beira da praia para verificar se ele tinha se afogado e nada encontrou. Falou com um barraqueiro que comercializa "piriguetes" de cerveja na prainha o Deusuito, o Dé de Agnaldo da Oficina da Sabina, disse que não vira o galo, mas, não falou com consistência, com firmeza, o que levou dona Flor do Amanhã a deconfiar dele.

Voltou para sua tenda e comentou com Berini que presentia que Bingo tinha sido sequestrado e Dé poderia etar envolvido. Pediu a Berini para falar com doutor Vence e sua esposa Vice, padrinhos de marketing do galo, para que providenciassem um investigador desse tipo de crime, comum na Bahia para que seja pedido um resgate em vultosa soma de recursos, com o fito de apertar Dé, dar um tranco nele como faziama os "meganhas' da antiga DP Misericórdia dando taponas do tipo telefonema nos ouvidos dele, que tinha certeza abriria o bico. 

Não diria que assim foi procedido até porque o detetive contratado pelo casal Vence usa novas tecnologias, um choque eletrizante emitido por um celular. Não deu outra. Dé abriu a boca sem precisar de muito aperto e disse que o galo tinha sido sequestrado por um indivíduo chamado Miro, residente no Cafofo do Calabar, e deu o endereço mais ou menos certo para que dona Flor fosse buscar um entendimento, pois, o tal do Miro, conhecido como "Cabeção de Ferro" era violento e não admitia lero-lero.

Assim procedeu dona Flor ao Amanhã se dirigindo ao Calabar acompanhada de um guarda-costa chamado cabo Fiuzão, de um advogado de renome o doutor Coimbra e do seu braço direito em finanças Gumercindo Bina. A valorosa comitiva foi até a residência de Miro, de fato, mais conhecido no local como "Cabeção de Ferro". Registrou-se fácil achar seu endereço quando citou esse epíteto na barbearia de Celso Gordo, o mesmo dizendo que a casa do "empresário', apontado como sequestrador virtual, era a quinta na Rua A, na segunda curva da Ladeira a Este do Campo Santo, fácil de achar porque pintada de verde limão com portas de marrom tabaco.

Comitiva posta à frente da porta principal da casa de "Cabeção de Ferro", Fiuzão acionou a campainha e apareceu na porta uma sirigaita para atendê-los, uma pessoa robusta, dentes com aparelho ortodóntico, louraça de salão com mechas, salto alto e quadris avantajados, a qual perguntou o que desejavam. Doutor Coimbra respondeu dizendo que gostariam de ter um encontro com o "distinto senhor Miro" - assim o tratou - e a moça respondeu que iria consultá-lo, pois, o tal, encontrava-se em descanso numa rede da varanda ouvindo seus curiós e pitando uma cigarrilha Talvis.

E mais perguntou a exuberante atendente querendo saber o assunto a ser tratado e a resposta foi dada por dona Flor do Amanha, sem rodeios, dizendo que viera buscar o seu galo, pois, tinha informações precisas de que ele esta presente naquela residência, sido que fora sequestrado.

A distinta repassou a informação da inicial ao senhor Miro, o qual determinou que fosse aberta a porta principal de sua casa e que a comitiva fosse levada para seu gabinete de negócios, o que de fato aconteceu, o grupo sentando-se em cadeiras de madeira com almofadas adquiridas no bazar do China, com a senhorita oferecendo Q-suco, broas e cafezinho aos convivas.

Em instante chegou ao local o senhor Miro, fina flor da picardia, tragando o fumo Talvis de uma imensa piteira e lançando rodelas coordenadas de fumaça no ambiente, sincronizadas e parecendo nuvens com formato de passarinho, apresentou-se e mais comentou que, de fato, o galo cantor da MPB estava no seu poleiro, mas que ele havia comprado o animal de um cidadão que não poderia revelar o nome, direito seu de preservar esse anonimato e que, se a senhora For do Amanhã o quizesse de volta teria que pagar o valor que dispensara na compra do mesmo e mais os juros e os dividentos em lucros estimando o repasse no valor de R$500 mil, em dinheiro vivo, dada a importância do galo como cantor. 

Também disse que desonhecia a imputação referida a sua pessoa dando conta de um sequestro pois era um conceituado homem de negócios, todos limpos e transparentes como poderia ser atestado em qualquer cartório da cidade.

Dona Flor do Amanhã estrilou, comentou que a proposta era absurda, que o galo lhe pertencia (de fato e de direito, emendou doutor Coimbra) e até entendia que o galo era merecedor desse valor pedido, mas, ela não possuia esses recursos em caixa. Sendo que, após longas negociações, fixou-se o valor de R$100 mil, sendo R$50 mil no ato da devolução do galo e o restante em cinco notas promissórias de 10 mil reais cada, a vencer a primeira no dia 30 próximo e as demais nos 30 vindouros mês a mês.

E o homem das finanças Gumercindo, já sendo chamado pelo empresário Miro de doutor Bina, retirou de uma pasta preta 50 mil reais em notas de 100 reais cada, novinhas como se tivessem sido sacadas do caixa eletrônico naquele dia e mais as notas promissórias que foram assinadas pelas partes e carimbadas.

Jogo feito, o galo foi devolvido a quem de direito e ao recebê-lo, dona Flor viu que Bingo estava deprimido, mas isso seria outro problema a ser resolvido adiante, n'algum consultório psiquiatra, e sairam dali sem mais delongas, acomodados na van de doutor Coimbra e zarpando para o Morro do Cristo.

Durante todo o percurso Bingo não deu uma palavra. Fiuzão, com sua filosofia popular deconfiou que o galo não só estava depré mas ficara mudo para sempre.