segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

CARNAVAL DE SALVADOR e mudanças ao longo dos anos

ZédeJesusBarrêto
03/02/2016 às 18:38
O carnaval de rua de Salvador reflete sem maiores distorções a realidade da cidade no seu dia a dia. Os espaços da folia tornam-se palco de todas as vivências: desigualdades, conveniências, criatividade, violência, disputas, preconceitos, convivências, encontros e desencontros,  beleza e feiuras... O que somos. Sempre foi assim. E será. 

   O primeiro registro que temos conhecimento de manifestações populares nos dias do adeus à carne que antecedem a quaresma data de fevereiro de 1832, tempos do mela-mela, os entrudos, com escravizados e libertos no brinquedo, mulataria nos furdunços. As anotações do acontecido estão no diário de viagem do cientista Charles Darwin que aportou na cidade a bordo do famoso Beagle, a caminho do extremo sul do planeta em aventura exploratória para seus estudos evolucionistas. Darwin deparou-se nas ruas do Pelourinho, num domingo ensolarado, com grupos de pretos em rostos caiados sacaneando com danças, pantomimas e batuques os brancos senhores, que moravam nos sobrados, e seus costumes europeizados inadequados a esses calientes trópicos ‘infectos’.
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  Nas primeiras décadas do século XX, com a escravidão já oficialmente abolida no país, os periódicos da cidade cobriam o carnaval destacando com fotos nas capas os desfiles dos grandes clubes carnavalescos e seus carros alegóricos, os préstitos na Rua Chile apreciados pelas famílias de bem, a chamada ‘alta sociedade’...  Ao tempo em que registravam em pé de página os saracoteios de grupos de pretos na Baixa dos Sapateiros. 
 
 Macaqueando o Rio de Janeiro, capital e principal exportadora de costumes do país, Salvador cultivou durante décadas o desfile de entidades que representavam as elites, com carruagens puxadas a cavalo, reis, rainhas e princesas em fantasias de luxo. Tempo de glórias do Cruz Vermelha, do Fantoches da Euterpe, Inocentes em Progresso ...  E também dos ‘grandes bailes’, as noitadas nos clubes chiques, com orquestras ao vivo. E até surgiram arremedos de escolas de samba que sobrevêm das batucadas de bairros como Tororó, Garcia, Liberdade, Amaralina... puxando samba na avenida. Então, grupos de negros vinculados às crenças afro-baianas já ousavam por, timidamente, seus afoxés, festança de terreiros nas quebradas da cidade, mal vistos. 
 

 Quem tinha grana brincava nos clubes seletos, bailes a fantasia ou pouco pano, o cheiro de suor se misturando aos olores do lança-perfume, Rodouro metálica, contrabandeada da Argentina. No cair da tarde, centenas de famílias punham bancos e cadeiras sobre os passeios, ao longo da Avenida Sete para apreciar os folguedos, as fantasias, os caretas, os requebros, as ousadias e o frenético  vaivém dos casais e amigos que marcavam encontros em pontos estratégicos, antes dos bailes.

 Pretos e brancos, pobres e ricos, cada qual no seu quadradinho. Negro e pobre só entravam no Yatch Club, na Associação Atlética, no Bahiano de Tênis pela porta da cozinha, como serviçal, sob controle. 

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  Os trios
  O primeiro grande acontecimento democratizante do carnaval de rua da Bahia foi, sem dúvida, a criação do Trio Elétrico, arte de Dodô, Osmar e depois Themístocles, que tiveram a ideia de sair em cima de uma fubica a tocar frevos e marchas animadas em instrumentos por eles criados, eletrificados e amplificados. Arrastaram uma multidão heterogênea pelas vias  do Centro, ganhando espaço dos corsos, um encantamento. 

  Os pioneiros baianos contavam terem se inspirado no grupo pernambucano Vassourinhas que passou por Salvador no ano de 1949, com destino ao carnaval do Rio. Aportados por uns dias na cidade, decidiram tocar para o povão na rua, no chão, como era costume fazer em Recife, e foram acompanhados espontaneamente por centenas de pessoas em êxtase a dançar ou pular no ritmo de frevos e marchinhas. 

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  Não à toa, a ousadia de Dodô & Osmar aconteceu num momento especial da Bahia. No meado do século XX Salvador beneficiou-se do próspero governo Octávio Mangabeira, com Anísio Teixeira à frente da Educação e o professor Edgard Santos estruturando e plantando a Universidade. O estado entrava na era do planejamento  e da modernidade. A população vivenciou o impacto da conclusão da rodovia Rio-Bahia, da inauguração da Fonte Nova e a construção do moderno Hotel da Bahia. Acima dessas realizações acontecia a ‘descoberta’ e a valorização da cultura negra, fruto talvez da integração de grandes mestres nacionais e internacionais à vida de uma capital que se transformou, então, num caldeirão de manifestações artísticas em todas as linguagens, vivendo o seu período de ‘renascença’. E não esqueçamos da influente chegada dos bancos comerciais, estimulando a economia, e do advento da Petrobrás.
  

 Isso possibilitou o surgimento, na década de 1950, de uma classe média assalariada forte, com significativa ascensão de negros e mulatos, o que se refletiu no carnaval.  O trio elétrico misturou cores e estratos sob o eco da guitarra baiana, os afoxés se fortaleceram, as batucadas de bairro, os cordões, os ‘caretas’ e as escolas de samba subiram para a Avenida Sete. No clarão da noite, criaram-se novos clubes populares e de assalariados - como o Palmeiras da Barra, tachado de ‘clube das graxeiras’, o Comercial, o Periperi , o Flamenguinho, o baile do Roma... –, que se impunham como uma resposta racial e de classe aos seletivos bailes da soçaite. 

  O carnaval dos anos 60 já mostrava uma nova cara, retratava uma sociedade com novas estratificações e uma cultura urbana mais diversificada. A tal baianidade estava em alta. Mas, no meio desse caminho aconteceu o estrupício do golpe militar de 1964, mudando a rota, um descaminho.
 Praça do Povo

 Grandes transformações aconteceram na década de 70, plena ditadura militar, época da repressão e do milagre econômico: - Transamazônica, ponte Rio-Niterói, o Banco Central, o BNH, o  Mobral,  o crescimento urbano... E o autoritarismo, a censura, a resistência estudantil, a luta armada, confrontos, a tortura nos porões... E, em paralelo e outras palavras, os hippies, o sexo/drogas/rock, o black power, a tropicália como reação à caretice dominante, a criatividade como forma de resistência e sobrevivência.

  Foi a era das mortalhas como fantasia. Uma veste que tudo escondia e tudo liberava. Pero, a despeito das encrencas e contradições todas, época de grandes carnavais. Caetano exortou ao chegar do exílio em Londres: “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”.  Na Praça Castro Alves, a libertinagem emanava libertação. 
  Chegaram flechando, na cola e no eco, os blocos de Índio, os irreverentes Apaches (mais Tupis, Tamoios...), e a Mudança do Garcia futucando os milicos. E aparecem, com a energia de uma tempestade, os bloco afro Ilê Aiyê, Badauê, Olodum... Manifestações de resistência, de afirmação de identidade, em busca do espaço devido. Estava posto o confronto racial nas ruas. O novo Movimento Negro peitava os discriminatórios blocos de brancos, onde preto não entrava e não saía - tipo Internacionais, Corujas, Jacu, Barão etc...  

  “A Praça Castro Alves é do povo/como o céu é do avião”, o frevo de Caetano parafraseava o canto libertário do poeta da liberdade. E arrematava, no frevo novo, que cabia o mundo inteiro na praça e havia “muita gente sem graça no salão”. 

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  O embate social estava escancarado.  Foram anos explosivos e extremamente instigantes, de carnavais participativos, sonhos, ebulição de demandas, artes e comportamentos, encontros e desencontros. Instante da formatação dos trios elétricos como usinas de sonoridade e alegrias, a postura dos Novos Baianos comandando a massa. Mas nada apagava aquele grito surdo contido, buchichos em tragos: “Pai, afasta de mim esse cale-se”.  O “cálice do vinho tinto de sangue”.  

  A cidade, em função dos pesados investimentos industriais em seu entorno, começou a sofrer uma brutal explosão populacional que lhe trouxe novas configurações urbanas e sociais, com o surgimento e crescimento desordenado de dezenas de bairros populares, muitos sem a mínima estrutura decente de vida para seus moradores. A grande Salvador inchou e sua grandeza expunha as dissonâncias de muitas desigualdades.

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  “Nega do cabelo duro/que não gosta de pentear
   Quando passa na Baixa do tubo/o negão começa a gritar:
   Pega ela aí, pega ela aí... /  Pra quê ?/ Pra passar batom
  Que cor? / Violeta !/ Na boca e na bochecha...”
 (Versos da composição de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, um estalo da ‘axé music’) 

  A voz dos guetos

  Os anos 1980 são de transição, marcados pela chamada redemocratização política do país, por crises econômicas e, baianamente, por substanciais mudanças no carnaval de rua de Salvador, os conflitos urbanos e humanos à tona. 
  Explodiam nos bairros o samba duro junino, de raiz na senzala, os tambores dos bloco afro e a ritmia dos afoxés consagrados por Caetano & Gil em eco país afora. Os trios elétricos tornavam-se a cada ano mais sofisticados. Seus músicos,  os armandinhos,  a tocar de tudo, do clássico ao samba, frevo e o hino do Senhor do Bomfim, forró, rock choro, reggae e o hino do Bahêa, tudo MPB,  como rezou a tropicália. 

 É dessa louca e sadia mistura de sons e gestos que surge o que se chamou de axé music, um carimbo em princípio pejorativo, que viria a ser o tom padrão do carnaval de rua da Bahia até os dias de hoje.  Os ritmos e danças dos guetos e periferias harmonizados por bons e ousados músicos e suas bandas, avalizados nos estúdios da WR, miscelaneando tambores com guitarras e teclados, percussão pesada, talento, tudo bem pra cima pra deleite da massa, na pujança dos decibéis, da luz e movimento dos trios. Ave Tapajós!  
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  O fato é que a classe média mais endinheirada, que curtia os grandes blocos e gostava do som eletrizado, não se sentia à vontade com a mistura humana, o corpo a corpo com a ‘negrada’ pelas ruas, atrás dos trios, sem comandos. E, claro, deram um jeito mercadológico, lucrativo de ‘privatizar’ (ou seria apropriar?)  os caminhões dos trios cada dia maiores e mais potentes, estúdios em movimento com equipamentos de ponta, músicos e técnicos competentes, contratando-os por fortunas para tocar com exclusividade para os associados dos blocos, segregados e ‘protegidos’ por cordas. 
  Dentro das cordas só os ‘eleitos’ do poder aquisitivo, com o carnê em dia e devidamente identificados por vestimentas padronizadas, tipo fardamento – camisetas e abadás adquiridos a preços geralmente inacessíveis aos de estratos mais baixos,  os de cartão de crédito cancelado.  

  Mas que triste ironia: Segurando as cordas estariam os ‘cordeiros’, na sua maioria jovens negros e mulatos precisados a proteger, fazer a segurança dos associados, na sua absoluta maioria de brancos e turistas. Ser cordeiro significa horas a fio de trabalho duro, exposto a atos de desrespeito e violência, de dentro  e de fora das cordas: Trompaços, agressões físicas, xingamentos, brigas, vinganças e a truculência usual da PM. Isso  a troco de alguns reais de diária e uma merenda de pão com refri.  Para muitos desses jovens, a única chance de brincar o carnaval junto de um trio, perto do cantor ídolo, e de defender o ‘de comer’ do dia. 
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  Os blocos de cordas cresceram tanto, os trios ficaram tão imensos que já não cabiam mais nas ruas estreitas do centro da cidade, não conseguiam subir a Praça Castro Alves, cortar a Rua Chile, fazer curvas...  e a disputa por cada palmo de chão ficou acirrada. Batucadas, afoxés e blocos afro restaram espremidos, atropeladas pelas jamantas sonoras. Esse conflito que muitas vezes resultou em pancadarias inspirou o músico Gerônimo a compor o hit “Eu sou Negão”, cobrando respeito e harmonia com um grito de altivez: “Eu sou Negão/ Eu sou Negão/ Meu coração é a Liberdade”!  Pouco espaço para a espontaneidade.


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 O ‘Sai do chão!’ 

 Nos anos 90 desponta a chama dos ídolos, a força das marcas, da tevê, do lucro com os prazeres e produtos da folia. Na mira a virada do século. Novidades e grandezas. Muita tecnologia e desprezo pela vida, preconceitos, distâncias. Tudo espetáculo, sob controle. Interesse de mercado e da política, mãos dadas, transtornaram a Mudança do Garcia, até enquadraram As Muquiranas. 

Nesse se dar bem, crescem as arquibancadas, cria-se o circuito Barra-Ondina, multiplicam-se os camarotes, passarelas, tudo ao vivo e em cores, exibicionismos. O circuito Campo Grande, mais tradição, foi-se escurecendo com a noite. Turistas, celulares, dancinhas coletivas, isopores, latinhas, medos. Um acarajé a ‘dez real, cum camarão’.  Olho na telinha: “Ih! Opaí a porrada, véi ! É ao vivo!” – pode ser em qualquer lugar da cidade. E marcas, marcas, marcas, hotéis lotados... 

Era só o começo da trilha do ‘carnaval Indústria  do entretenimento’ que ainda hoje  vigora.

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  O que acelerou todo o processo foi o uso da internet, a cada ano mais disseminado, impondo outras tecnologias, a informação varando fronteiras, novas linguagens e também outras necessidades, quereres e costumes. Haja ostentação nos camarotes e nos correntões de ouro dos pagodes. Tudo dominado, apenas uma questão de custo e benefício. No bafor do lufa-lufa, o pobre carrega gelo, cata latinha, vende coalho na brasa, ajuda na barraca disputando um trocado enquanto aprecia a festa. A depender da grana, de boa, até dá pra uma baiana sair no bloco, um dia no pagode, outro na sofrência. Tudo nosso, nada deles. Bombando na avenida, tudo de bom.  
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  A vida da cidade se concentra por uma semana ou mais num espaço entre o Centro Histórico e o Rio Vermelho, beirando o mar, passando pela esquina do Farol da Barra.   Não há foco voltado para o fazer do povo, a arte de viver de nossa gente. Os canhões de luz estão nos shows, nos corpos, nas alturas das estrelas e no rasteiro das pancadarias, desatinos, escândalos, vida alheia... Rendem Ibope. Um carnaval de horários, regulamentos, comportamentos, segmentos, programático, até previsível. Drones e GPS, on-line, última geração, uatizape na mão, dinheiro na cueca e bíblia no sovaco. Luxo e lixo, pet e conchas do mar. Love e terror.  
  
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  Sinto escrever que esse carnaval de Salvador não é mais do povo. O fazer criativo voltou-se para a espetacularização, instantânea e global. Sem mais roda de samba, capoeira. É uma festa  brilhosa, uma feira de estímulos para os que chegam. Business, rolos, patrocínios. Djs e mordomia pra uns no ar refrigerado, e no calorão de baixo os foliões se esbaldam sob as palavras de ordem que ecoam de cima dos trios: ‘Mãozinhas pro alto!, Bundinha até o chão!’  É Barril.

  Um outro departamento, outra era. Vem sendo o carnaval dos ‘poderosos’: Ivete, Daniela, Chicletes (ou Bell?), Durval, Brown, Margareth, Caldas e Armandinho,  Saulos, Pisiricos, Pablos ... E noutro patamar o Ilê, Olodum, Gandhi... E mais promoters, celebridades, autoridades, selfies, tribos, correria, olhos acesos, arrastões. 
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   Ah! Tudo está em perene mudança. O tempo, as fisionomias, os hábitos, as cidades, as manifestações humanas. ‘Nosso tempo é agora’, ensina a Yalorixá. Não sei como seria melhor ou diferente, ‘só sei que é assim’. As ruas e ribanceiras de Salvador durante o carnaval são as mesmas da pisada do resto do ano. Com menos enfeites, sem confetes quando a casa resta com poucas visitas.  O carnaval é uma manifestação de vida, até a quarta-feira de cinzas, quando o padre diz pelas escrituras que todos somos pó. 
Evoé!