sexta-feira, 18 de setembro de 2020

POR QUEM os sinos dobram no São Bento e 100 anos da Avenida Sete

Tasso Franco
18/09/2015 às 09:21
  A Avenida Sete de Setembro completou 100 anos no último dia 7. Construida no primeiro governo de José Joaquim Seabra (J.J. Seabra foi governador da Bahia duas vezes 1912/1916; 1920/1924) foi a grande obra que modificou o perfil da cidade ainda com ares de Colônia, inspirada na obra que modificou o centro do Rio de Janeiro na gestão do engenheiro Pereira Passos, então Distrito Federal, no governo do presidente Rodrigues Alves, 1904.
 
   O 'seabrismo' dominou a política baiana por quase duas décadas e Seabra não mediu esforços em modernizar a cidade do Salvador no estilo Av Rio Branco e dos boulevards parisienses erigidos pelo barão Haussamann (Georges Eugnène Haussamann, o prefeito demolidor, grande remodelador de Paris no final do século XIX). A antiga e desconectada Av do Estado, que basicamente percorria um trecho estreito e sinuoso, entre o São Bento e o Campo Grande, daria lugar ao projeto do Plano Jerônimo Teixeira abrindo 
caminho entre o São Bento e o Farol da Barra.

   Nos primórdios de fundação da cidade fortaleza esse era o trecho percorrido pelos homens e a armada de Thomé de Souza quando chegou a Bahia em 1549, aportando em frente a Vila Velha do Pereira, hoje, Porto da Barra.

   Obra custosa e polêmica a Avenida Sete. Para sua realização derubou-se uma ala do Mosteiro de São Bento, uma banda do prédio do Senado, foi abaixo a igreja de São Pedro Velho, o Convento das Mercês e outros prédios ao longo do antigo Caminho do Conselho (Ladeira da Barra) enfrentando o governador resistência da igreja e de segmentos do comércio e da burguesia local. 

   Seabra era, no entanto, um obstinado, um político acostumado ao embate e venceu todas as resistência para concluir parte da obra até o final do seu governo. A nova igreja de São Pedro, por exemplo, só foi concluida em 1917.

   Por pouco, a Basílica de São Sebastião do Mosteiro de São Bento não foi abaixo. Não caiu devido a luta do abade Dom Maiolo de Cagny, o qual mobilizou a população com manifestos escritos distribuidos nas ruas, a imprensa (a maioria 'seabrista') apoiava a demolição. A basílica continua de pé até hoje e não teve o mesmo destino da Sé Primacial, derrubada no inicio dos anos 1930 para dar passagem a uma linha do bonde circular. 

   Veja que, saindo-se do início da Ladeira do São Bento, a Av Sete faz uma curva à direita e poupa a nave da basílica, mas, ainda assim foi abaixo parte das arcadas do convento à esquerda do templo, para dar passagem a via, na altura do Beco Maria Paz.

    Seabra era polemista, brigador. Bem nascido em Salvador cursou direito em Recife, uma das melhores escolas do país na época, e aproximou-se do marechal Deodoro da Fonseca na instalação da República. Apoia o "Manifesto so 13 Generais" contra a permanência de Floriano Peixoto no governo, indo parar no exílio. 

    No retorno ao país é eleito deputado pela Bahia e nomeado Ministro da Justiça no Governo Rodrigues Alves (1902/1906). Esteve envolvido no episódio do bombardeio à cidade do Salvador, em 10 de janeiro de 1912, e derrota os conservadores (Ruy Barbosa, José Marcelino e Severino Vieira) e se consagra como governador.

   Discutiu-se, na época, que nome dar a nova avenida e pravaleceu (dedo de Seabra) Avenida Sete de Setembro derrotando a possibilidade de sê-lo Avenida 2 de Julho, data magna da independência da Bahia. 

   Sagrou-se com esse nome como é conhecida até hoje, embora tenha trechos em que a população não a considera assim. O Largo do Campo Grande passou a ser 2 de Julho, nome que nunca pegou. Todo mundo só chama Campo Grande. E, outro largo, a Praça Inocêncio Galvão, ao lado da Av Carlos Gomes, acabou sendo consagrado como Largo 2 de Julho. São os mistérios baianos.

   Curioso é que embora a Av Sete vá da boca da Praça Castro Alves até o Farol de Santo Antonio, a população, ainda hoje, acha que a Avenida Sete é só o trecho que vai do alto da Ladeira do São Bento até as Mercês.

    Pois bem, a Ladeira do São Banto, inicio da Avenida Sete, o povo só chama Ladeira de São Bento; um trecho da Sete que vai da Praça Rio Branco até o Instituto Geografico e Histórico da Bahia é chamado pelo povo de Relógio de São Pedro; a seguir, a Piedade, deriva do Convento de Nossa Senhora da Piedade (Capuchinhos Menores), mesmo estando também nesta praça a Igreja de São Pedro; a seguir volta a ser na boca do povo Av Sete até o Palácio da Aclamação; daí segue com o nome de Campo Grande, Corredor da Vitória, Ladeira da Barra, Porto da Barra e Farol da Barra.

    Portanto, é uma avenida que tem várias denominações, pra não falar no Rosário, Mercês, Politécnica, Relógio e Maria Paz.

   Ainda hoje se questiona se o nome deveria ser 2 de Julho, mas, Seabra optou por 7 de Setembro, medida considerada acertada uma vez que homenageava o 7 de Setembro de 1822 data da Independência do Brasil de Portugal. 

    O 2 de Julho vem depois, em 1823, e consolida a independência, isso apenas no plano formal, em termos, uma vez que as lutas na Bahia - que foram poucas em relação ao heroismo que se fala - sob o comando do brigadeiro português Madeira de Melo e sua Divisão Auxiliadora não tinham forças sequer para manter uma provável "República Bahiense", desgarada do Brasil, e muito menos derrubar o governo imperial de Dom Pedro I.

   Primeiro que D. João, o qual havia retornado para dirigir Portugal, não iria mandar reforços em tropas contra seu filho porque estava fragilizado e não tinha essas tropas; e segundo que Madeira não tinha forças suficientes para se manter de pé na Bahia, quando mais para expandir uma revolta pelo Brasil. A logistica era complicada e não havia recursos nem gente interessada nisso.
 Daí que os poderosos baianos instalados no Recôncavo vendo seu negócios de engenhos minguarem fizeram uma guerra de cerco a Madeira de Melo, dom Pedro I apoiou mandando Lima e Silva e Crochane, Madeira resistiu o que pode em Pirajá e quando viu que estava cercado de vez, colocou suas tropas e alguns comerciantes portugues nos barcos que estavam ancorados na Ribeira do Góis e se mandou para Portugual. 

   Quando o Exército Libertador entrou pela Estrada da Rainha (hoje, Av Lima e Silva, bairro da Liberdade) não deu um tiro. Madeira e os seus já estavam na altura da Praia do Forte. Crochane fez uma presepada dizendo que estava seguindo-os e adeus. Viu apenas os navios de Madeira de longe.

   Essa é um pouco da história da Avenida Sete. As tropas do Exército Libertador quando conquistaram a cidade em 2 de Julho de 1823 só foram até o Terreiro de Jesus onde participaram de um Te Deum. Na Basília de São Sebastião os beneditinos dobraram os sinos e estão por lá até hoje.