quarta-feira, 22 de maio de 2019

AHLIKUM SALAM, NA ROTA DE TANGER, MARROCOS

Dimitri Ganzelevitch
06/06/2009 às 09:11

Foto: Arquivo
A encantadora Tanger, no Marrocos
 

Ir de Gibraltar a Tanger? Nada mais fácil. Pegue sua mala - só uma, é melhor - entre no ônibus que lhe deixará perto da fronteira com Espanha, ande a pé umas centenas de metros, mais um ônibus, desta vez para Algeciras onde finalmente pegará outro ônibus até Tarifa. Do terminal até o porto é mais um bom kilômetro. A pé. Contando que não chova nem haja aquele solzão de agosto.

Com o passeio revestido de placas quadriculadas de cimento para evitar algum escorrego em tempo de chuva, a barulheira das rodinhas de sua mala será antecâmara do Inferno. Se não acabar quebrando, sorte sua! Preferível pegar um táxi desde a fronteira inglesa.


Serão 50 euros muito bem gastos.


Voltarei a falar da charmosa Tarifa. Por enquanto só temos tempo para comprar as passagens (pouco mais de cem reais) e correr até o ferry-boat. Levará uma grande meia-hora para alcançar Tanger. Talvez vinte vezes o trajeto para Itaparica. O bom da concorrência.


Com os marroquinos, volta a velha prática dos formulários, corriqueira aporrinhação para quem freqüenta as fronteiras tupiniquins. Suspeito que os milhões de formulários acabem na lixeira, lá como cá. Ferry superconfortável, dois andares para os passageiros, imensas janelas, amplas poltronas, bares, câmbio e lojas.


Com o falecimento de minha tia Nadia no ano passado, pela primeira vez na minha longa vida, tive que reservar hotel nesta cidade que fora minha por alguns anos. Escolhi o Hotel Rembrandt que minha mãe freqüentava quando em Tanger. Construído no final dos anos 40, daquela próspera época guarda muitos elementos. A entrada, a bela escada e uns banheiros absurdamente espaçosos. Novos edifícios ao redor da piscina ainda não escondem totalmente a vista sobre a praia, confirmando, porém, o que uma amiga me revelou.

Um dos responsáveis pelo novo planejamento da cidade - porto exclusivo para navios de cruzeiros e iates, enquanto os cargueiros estarão escondidos em outra enseada, novo aproveitamento(sic) da orla - como ela se queixava dos espigões erguidos a beira-mar sem a mínima coerência nem criatividade, lhe respondeu: "Estamos fartos desta lengalenga de Memória, de História, estas velharias. Chega! Agora nosso projeto é mais ambicioso: transformar Tanger numa nova Miami". Qualquer semelhança com o PDDU de Salvador é mera coincidência.


Já pensou? Miami não é do todo ruim, convenhamos, mas usá-la como parâmetro para avacalhar tão bela cidade deixa qualquer um deprimido. Não é por acaso que os pintores Delacroix e Matisse aqui passaram longas temporadas e muito nela se inspiraram.

Durante muitos anos foi refúgio de intelectuais. A Beat Generation não teria sido o que ela foi se não tivesse passado por Tanger. Kerouac, Burrough, Ginsberg... Outros como Tennessee Williams, Paul Bowles, Jean Genet, Gysin e até os Rolling Stones viveram na deslumbrante cidade, agora reduzida á uma macaquice miamesca, rendida à especulação imobiliária movida pelo narcotráfico e outras lavagens.

Nem o Hotel Minzah, onde passou a nata do jet-set, espiões e gangsteres nos anos 40-50, resistiu à renovação mesquinha dos "tempos modernos". O célebre bar perdeu, não só sua autenticidade, mas também a qualidade do serviço. As sombras de Elizabeth Taylor e Forbes devem se esconder de vergonha.


Como refúgio, Blanche e eu vamos ao centro cultural italiano, magnífico palácio mourisco, onde ocorre uma Feira do Livro. Espero encontrar Pauline de Mazières, née princesa Cheremeteff, que está escrevendo sobre os russos de Marrocos.

Surpresa! O primeiro fascículo sendo lançado no local e é sobre minha família. Terei enfim meus quinze minutos de (relativa) fama.

Mais emocionante é encontrar um calígrafo, erudito filósofo, que, após uma boa prosa, resolve me ofertar a frase "Ninguém pode fazer de mim um escravo, se não me penso escravo" escrita no ato, nesta elegante grafia árabe que sempre me fascinou.


É sempre uma curiosa experiência reencontrar seu passado, pisar os mesmos passeios, reconhecer os mesmos cheiros, saber ainda onde se encontra aquele velho cinema, hoje fechado, abandonado e poeirento, percorrer as coloridas ruelas do mercado municipal onde acompanhava minha tia. Reencontrar seu passado, mas não mais pertencer à cidade. Não irei ao cinema, não terei nada para comprar no mercado - minha fome saciarei num restaurante próximo - nenhum chaveiro soará no meu bolso.

Sou um estranho no meu ninho...


Ahlikum Salam.