AMÉRICA LATINA NÃO É LEVADA A SÉRIO NA CAMPANHA NORTE-AMERICANA

Rosane Santana é jornalista baiana atualmente residindo em Boston, EUA
| 11/10/2008 às 11:24

  Muita gente se pergunta, por quê, a despeito de o voto de estados latinos, como a Flórida, Novo México, Colorado e Nevada, ser decisivo nas eleições americanas, os candidatos a presidente dos Estados Unidos, o republicano, John MacCain, e o democrata, Barack Obama, não dão ênfase a questões como imigração e regulamentação do mercado de trabalho para o imigrante, vitais para essa parte da população, que guarda fortes laços com a região de origem. Hispânicos representam 12,5% da população, percentual maior do que negros, 12,3% por cento, segundo censo desta década.

 

Mesmo em cidades menos cosmopolistas como Boston, se comparada com NewYork (NY) ou San Francisco, na Califórnia, é fácil cruzar nas ruas com uma multidão de guatemaltecos, portoriquenhos, mexicanos, salvadorenhos, cubanos, jamaicanos, dominicanos, colombianos, brasileiros e até chilenos. Estes íltimos oriundos de um país que, segundo pesquisas, apresenta o melhor índice de qualidade de vida da América Latina.

 

Gente da periferia do capitalismo, na maioria com baixo grau de instrução, que entrou pela fronteira do México a procura de emprego e melhoria de vida, criando laços e constituindo família por aqui e que acabou atraindo um sem número de parentes e amigos. Boa parte permanece ilegalmente nos EUA. Estima-se que 12,5 milhões de pessoas, cerca de 1,5 milhão de brasileiros, estão nessa situação.

 

O assunto ja foi tema de conversas dos candidatos Obama e MacCain com entidades representativas das comunidades hispânicas, mas nada de objetivo foi definido, a não ser que a questão será tratada nos primeiros 100 dias de governo. Por enquanto, tudo e uma icógnita, embora os latinos continuem aguardando, com expectativa, uma solução para o problema, já que negociações nesse sentido foram interrompidas após os ataques terroristas de 11 de setembro e o crescente unilateralismo da política externa americana na Era Bush.

 

É o caso, por exemplo, de acordos que vinham sendo encaminhados com o México de Vicente Fox sobre o destino de centenas de imigrantes daquele país em êxodo para o Norte, onde ocupam postos de trabalho rejeitados pelos americanos. As negociações foram suspensas e o que se viu foi a decisão do governo americano de construir um muro na fronteira entre o Texas e o Méexico, que teve o apoio do senador por Illinois, o democrata Barack Obama - ele votou favoravelmente a liberação de mais verbas para a obra -, apesar do seu discurso de aproximação com o continente, acenando com um tratamento mais amistoso com Cuba da Era pós-Fidel e a Venezuela de Hugo Chaves.

 

Especialistas em política externa advertem que os Estados Unidos precisam encrarar de frente os problemas enfrentados pelos vizinhos México, América Central e Caribe, que teriam seus destinos cada vez mais dependentes da América. Ressaltam que a medida que a imigração aumenta e o comércio, inclusive o ilícito, se expande, os EUA têm reagido com medo (vide construção do muro) ao invés de ajudarem a encontrar uma solução na direção do bem-estar economico e social da região. Isso seria vital também para combater o antiamericanismo no mundo.

 

Há, neste momento, novo agravante que dificulta um entendimento para possibilitar a integração dos imigrantes (boa parte de mão-de- obra ilegal) na economia americana - a crise econômica que sacode Wall Street e o mundo. Em tempos de escassez, provavelmente, os latinos tenham que continuar esperando por um desfecho favorável para o caso, uma vez que medidas nessa direção teriam impacto entre americanos mais pobres e imigrantes legais, segundo especialistas.

 

De uma maneira geral, a América Latina não é uma prioridade para a realpolitik americana (política realista, voltada aos interesses estratégicos dos EUA), mais preocupada com as ameaças que vêm do Oriente Médio, onde fanáticos dizem lutar uma guerra santa contra a América. Isso explica, em parte, o distanciamento do continente pelos candidatos John Maccain e Barack Obama, embora o voto latino seja decisivo hoje na eleição presidencial americana.