Literatura
Rosa de Lima
04/04/2026 às
12:35
ROSA DE LIMA COMENTA A LÓGICA DA PESQUISA CIENTIFICA, KARL POPPER
Na interpretação de Popper, “a objetividade dos comunicados científicos reside na circunstância de eles poderem ser intersubjetivamente submetidos a teste”.
Há na literatura livros de toda natureza alguns dos quais não se enquadram nas expressões clássicas – romance, contos, crônicas, etc – mas são relevantes e devem ser lidos para se ter um conhecimento mais amplo. Há alguns que chamo de livros de alerta como comentei recentemente o trabalho do jornalista Max Fisher, “A Máquina do Caos” – como as redes sociais reprogramam as nossas mentes, os de auto ajuda, os que ensinam os caminhos de como ficar rico ou ter sucesso profissional, enfim, muitas arapucas.
Hoje vamos falar de um dos maiores filósofos da ciência do século XX, Karl Raimund Popper (1902-1994) conhecido por sua rejeição às visões indutivistas clássicas sobre o método científico em favor da falseabilidade. Uma teoria nas ciências empíricas pode nunca ser provada, mas pode ser falseada, o que significa que pode e deve ser examinada por experimentos decisivos. Popper também é conhecido por sua oposição à explicação justificacionista clássica do conhecimento.
Percebe-se, pois, que se trata de um tema árido, de complexo entendimento e a obra de Karl Popper que vamos comentar se intitulada “A Lógica da Pesquisa Científica” (CULTRIX EDITORA, 8ª impressão, 2025, SP, 450 páginas, tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota, projeto editorial Ponto Inicial Estudos Gráficos, R$49,45 + frente Amazon) um ensaio com conceitos filosóficos e analises técnicas envolvendo a física e a matemática. Haja, portanto, paciência para manusear, ler e entender os conceitos de Popper.
Na parte I o filósofo aborda alguns sub temas bem interessantes como a eliminação do psicologismo, a experiência como método, a falseabilidade como critério de demarcação, a objetividade cientifica e a convicção subjetiva.
Diz, a propósito da eliminação do psicologismo que o trabalho do cientista consiste em elaborar teorias e pô-las à prova. – A questão – enumera – é saber como uma ideia nova ocorre no homem – trate-se de um tema musical, de um conflito dramático ou de uma teoria cientifica – pode-se revestir de grande interesse para a psicologia empírica, mas não interessa a análise lógica do conhecimento científico.
Por conseguinte, segundo o autor, existe o processo de conceber uma ideia nova e os métodos e resultados de seu exame sob um prisma lógico, “A visão que tenho do assunto, valha o que valer, é a de que não existe um método lógico de conceber ideias novas ou reconstruir logicamente esse processo. Minha maneira de ver pode ser expressa na afirmativa de que toda descoberta encerra um elemento irracional ou uma intuição criadora no sentido Bergson”.
Sobre a objetividade científica e a convicção subjetiva destaca que as palavras “objetivo” e “Subjetivo” são termos filosóficos pesadamente onerados por uma tradição de usos contraditórios e de discussões intermináveis e inconcludentes.
Situa que o uso que faz dos termos “objetivo” e “Subjetivo” não difere de Kant: ou seja: o conhecimento científico deve ser justificável, “independentemente de capricho pessoal; a uma justificação será objetiva quando submetida à prova e compreendida por todos. Ora, eu sustento que as teorias cientificas nunca são inteiramente justificáveis ou verificáveis, mas que, não obstante, são suscetíveis de se verem submetidas à prova”.
Na interpretação de Popper, “a objetividade dos comunicados científicos reside na circunstância de eles poderem ser intersubjetivamente submetidos a teste”.
Adverte que todo físico experimental conhece os surpreendentes e inexplicáveis “efeitos” aparentes que, no laboratório, “podem talvez reproduzir-se por algum tempo, mas que no final desaparecem sem deixar traço. Nenhum físico, naturalmente, dirá num desses casos ele realizou uma descoberta científica, embora possa tentar dar nova fisionomia aos experimentos, de modo a torno o efeito suscetível de repetição”.
Lembra que Kant compreendeu que da requerida objetividade dos enunciados científicos decorrem que eles devem ser intersubjetivamente testáveis, a qualquer momento, e que precisam, por isso, tomar a forma de leis universais ou teorias”.
Para Popper, uma “experiência subjetiva de convicção jamais pode justificar um enunciado científico e de que, dentro dos quadros da ciência, ele não desempenha papel algum, exceto o de objeto de uma investigação empírica (psicológica)”.
Na parte II do livro ele aborda alguns componentes estruturais de uma teoria da experiência, a causalidade, a universalidade estrita e numérica, conceitos universais e conceito individuais, e o livro entra num campo bastante técnico, o que não é agradável de ler, porém, para os cientistas bem interessantes.
No capitulo IV, o autor aborda o cerne da sua obra, a falseabilidade, tema, também, bastante árido, mas extremamente novo para a maioria dos leitores. Eu mesma me senti assim lendo algo que nunca havia pensado, que, a rigor, se trata de uma tese diametralmente oposta a filosofia convencionalista.
Popper destaca que “a fonte da Filosofia convencionalista parece residir no espanto diante da simplicidade austeramente bela do mundo, tal como se revela nas leis da Física. Os convencionalistas parecem achar que esta simplicidade seria incompreensível e, em verdade, miraculosa, se nos inclinarmos a crer, com os realistas, que as leis da natureza nos revelam uma simplicidade interior estrutural do mundo, sob sua aparência exterior de exuberante multiplicidade”.
O autor estabelece que na concepção convencionalista não é possível dividir os sistemas e teorias em falseáveis e não falseáveis, “como consequência o critério de falseabilidade por nós proposto se torna inútil, como critério de demarcação”.
E o que firma o filósofo é exatamente o oposto do tradicional assegurando que “o critério de demarcação da ciência não é a verificação, mas sim o falseamento”. Ou seja, por mais dados singulares que um cientista acumule na verificação, não há uma garantia lógica de que o enunciado universal daí inferido seja verdadeiro.
Haja, pois, complexidade para se entender a lógica pooperiana e o autor aprofunda sua teoria mostrando em subitens a investigação lógica da falseabilidade, a distinção entre falseabilidade e falsificação e a falseabilidade e a compatibilidade.
Popper conceitua que se pode chamar de “empírica” uma teoria sempre que dela coubesse deduzir enunciados singulares. “Essa tentativa falha – comenta – reduz enunciados singulares que necessitam de outros enunciados singulares – as condições iniciais, que nos informam acerca de como substituir as variáveis da teoria”.
No capitulo V, o autor analisa os conceitos da base empírica, as sentenças protocolares, a objetividade da base empírica e os experimentos. A partir daí até o capítulo X, quando o autor encerra seu trabalho analisando como uma teoria resiste a testes – verificação de hipóteses, probabilidades de uma hipótese, a lógica indutiva e a lógica probabilística, etc, a obra fica mais ainda mais técnica, embora os leitores que não são estudiosos da filosofia e da física possam acompanhar os raciocínios do autor.
O importante a destacar nesta obra é observar que a pesquisa científica é uma atividade muito intensa e de longa duração e quando se estabelece uma teoria – filosófica, matemática, física, quântica, etc – até que se prove a sua efetividade demora anos, séculos, etc, e nada está imune aos princípios da falseabilidade, entendendo que falseabilidade não representa o falso, ou propositadamente falso (um engodo, uma mentira) mas algo que pode ser modificado com novas teorias e experimentos.
Não é à toa que Karl Popper é considerado um dos mais significativos filósofos do século XX senão o mais importante.
Seu livro “A Lógica da Pesquisa Cientifica” tem dois tempos ou serve a dois campos de interesse, o dos leigos, leitores normais que vão conhecer essas análises e novos conceitos filosóficos; e dos estudiosos e cientistas que vão se debruçar diante das formulações técnicas que expõe com bastante firmeza, incluindo muitas fórmulas e são reservadas a esse público leitor.
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