ter�a-feira, 07 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Poesia, uma obra prima sul-coreana

Lore, Reino Unido, Austrália, Alemanha, 2012, com uma mão firme em detalhes a diretora e co-roteirista australiana Cate Shortland
06/12/2013 às 20:26
  Poesia, de Lee Chang-Dong, Coréia do Sul, 2011. Continuo com a tese de que os melhores filmes saem dos lugares menos inesperados, pois não existe a tal cultura de fazer filmes bons e bem remunerados, aí o que os caras fazem? Usam a criatividade e saí coisa de prima.

    Poesia é uma dessas fitas que ficam ecoando nossas almas por um bom tempo. Trata-se de uma lindíssima estória cotidiana de uma mulher que vai perdendo sua memória e por isso se matricula em um curso de poesia para entender o que está acontecendo com seus lapsos de memória ainda existentes antes do Alzheimer chegar e tomar conta, e paralelo a esse problema de saúde, o seu neto que ela cria se vê dentro de um suposto estupro e assassinato de uma colega de escola. Uma película realmente tocante. 

   Quando o filme é muito bom por vezes letras serão sempre poucas ou inexpressivas para explanar tamanho sentimento que tais fitas provocam. Se puder ser tratado como uma referência, Poesia está na seleção oficial do festival de Veneza de 2011: Um dos melhores e poucos festivais de cinema ainda em atividade que não se deixa influenciar literal ou totalmente pela mega indústria cinematográfica, permitindo assim que filmes de artes ainda tenham “seu lugar ao sol”.

    Para uma explanação maior ou mais completa da obra-prima vista, quero expor o que sua protagonista (Yoon Jung-hee em estupenda atuação ) nas “entrecenas” do filme deixa escancarar com seus diálogos e indagações existenciais, pois para a protagonista a poesia é pura e simplesmente o ápice racional e irracional que o ser humano pode chegar e  ultrapassar seus limites.

   Para ela, é na poesia que podemos exponenciar nossos sentimentos guardados, pois tais sentimentos , por vezes e por fatores externos ficam inviáveis de nos desnudarmos e expormos tudo que pensamos por termos uma sociedade ainda provinciana no sentido de enxergar e valorar pensamentos que vão de encontro contrário ao que a sociedade estabelece como correto. Para nossa protagonista é exatamente com a poesia que percebemos que dor e amor são sentimentos que andam juntos, assim como doença e cura. 

   Segundo a atriz, melhor é se deixar perder por linhas tortas do que sempre seguir as mesmas linhas retas estabelecidas por sei lá quem ou quando. Se ser doente é “viajar” em livros que poucos lêem ou gostam, ela prefere morrer disso ao invés de ser curada. A coisa mais valiosa que o ser humano tem é o seu poder de escolha, a sua liberdade da trilhar seus caminhos. Ser livre, para a protagonista, é mais complexo do que podemos imaginar: Não se restringe apenas em ter ou não religião, gostar ou não dos seus parentes, ter ou não amigos de verdade.

  Segundo ela a liberdade é um estado de espírito e de conquista; e a poesia, de certa maneira, é um oxigênio que pegamos para sermos a cada dia mais livres das convenções morais a anacrônicas que nós mesmos criamos e obedecemos. Não é que a protagonista queira ser uma “Black Block” ou anarquista do século XXI, mas ela não abre mão de ser uma errante e por consequência dessa escolha : um ser pensante. Belo filme, recomendadíssimo.
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   O amante da rainha, de Nikolaj Arcel, Dinamarca, 2013. Sobre o enredo do filme já estamos carecas de ouvir e assistir que é: uma princesa sendo obrigada a casar-se com um príncipe ou rei de outra nação e com isso fortalecer seu país em épocas distantes na Europa.

   E por se tratar de um casamento de sacrifícios e acordos políticos, um ou o outro, ou talvez os dois acabem tendo relações extras, pois bem meus caros(as): não querendo ser repetitivo e já sendo o enredo do filme é basicamente esse; A rainha tendo um amante, por isso o nome óbvio do filme: O amante da rainha. O que é para se elogiar e sair dos “filmes comuns” é a estupenda fotografia de época do filme, nos transportando para belas paisagens da Dinamarca quando os amantes se encontravam escondidos fora do palácio. 

  Com quase duas horas e meia de belas paisagens e diálogos previsíveis a fita tem como seu ponto positivo principal o focar na entrada do movimento do Iluminismo, oriundo da França, na Dinamarca e Europa, deixando a questão do romance dos protagonistas em segundo plano, fato este que comprova a decisão do diretor em valorar mais o movimento cultural-político da época do que propriamente focar em uma estória de traição amorosa, ainda que essa tenha sido verídica e um dos grandes episódios da história da Dinamarca no final do século XXVIII.
 
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   Lore, Reino Unido, Austrália, Alemanha, 2012, com uma mão firme em detalhes a diretora e co-roteirista australiana Cate Shortland consegue mostrar a segunda grande guerra com um olhar arguto sobre o ponto de vista do povo alemão alienado pelo seu Führer. Quando a Alemanha perde a guerra o seu povo demora um pouco para sair de suas casas e saber o que de fato se sucedera. 

Eles imaginavam tudo, menos que algum dia sua raça seria derrotada por qualquer outra em qualquer situação. Pois bem: é com esse viés de pensamento que apresentamos a protagonista: Lore (Saskia Rosendahl); Uma adolescente filha de um general do Führer que certo dia após acordar se vê sem seus pais e tendo de tomar conta de mais quatro irmãos, sendo um desses ainda de colo. Lore e os irmãos são obrigados a atravessar praticamente toda a Alemanha destruída afim de não ter o mesmo destino dos seus pais, ou seja, a vala ou nem isso como se vê na fotografia do filme com corpos carcomidos por todos e quaisquer tipos e tamanhos de insetos. 
A miséria na Alemanha pós-guerra era total e isso é mostrado genialmente, porém para Lore o mais horrorizante não era os corpos nus mutilados nas ruelas barrentas e sujas, mas sim as mudanças dos paradigmas de poder em que a protagonista se encontrava naquele período; Antes ela era filha de um importante e prestigiado nazista, mas agora com quatro irmãos nas costas ela é obrigada a se deixar ajudar para não morrer de fome e de bala por um judeu, logo a raça que foi ensinada a odiar em qualquer circunstância. 

Os 110 minutos de projeção é dirigido com o ímpeto do inesperado, do novo desconfortável, da situação de impotência sob um caos estabelecido; E assim vão Lore e seus quatro irmãos menores com a ajuda de um judeu (que inesperadamente apareceu e desapareceu com a mesma rapidez) a atravessar seu “país-nação modelo” para tentar ainda entender o que estava acontecendo ou até procurar seus pais, mas antes de tudo fugindo porque seu instinto pedia que o fizesse e mesmo sem entender ela fazia. Quando o seu instinto de sobrevivência “baixa a guarda” e Lore cai na real, aí é que fica surreal sua situação. Belo filme que mostra como os ditos alemães comuns reagiram com o final da segunda guerra.