quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

CINEMA: Menos que Nada, um filme denso de personagens

Capitão Philips, dirigido por Paul Greengrass e baseado numa história real, EUA, 2013
23/11/2013 às 08:53
  Menos que nada, do sempre pesado diretor gaúcho Carlos Gerbase, Brasil, 2012; Mostra de forma visceral e sem redundâncias a degradação mental de um jovem homem.

    A trama gira em torno do tratamento de um doente mental internado há dez anos num hospital psiquiátrico, onde fora esquecido por sua família, pelos pouquíssimos amigos que tinha e principalmente pela nossa hipócrita sociedade. “Menos que Nada” se inicia com um viés filosófico sobre a vida e a morte, porém rapidamente somos fisgados em um tipo de quebra-cabeça. Através de entrevistas realizadas por uma médica (Branca Messina), a trama remonta as últimas semanas de vida lúcida de Dante ( o doente mental a ser estudado ), onde tentamos descobrir como o protagonista parou naquele local e situação.

    O filme tem como base o conto “O Diário de Redegonda”, do médico e escritor austríaco Arhur Schnitzler (1862-1931). O autor nos mostra a história de um escriturário que se apaixona perdida e “edipidamente” pela esposa de um militar e, sem nenhuma possibilidade real de aproximar-se dela, constrói um universo imaginário para viver seu caso de amor de mão única. 

   Dante, que no conto original era um escriturário, é transformado na fita gaúcha em um auxiliar de arqueólogo de pouca ambição, quase um burocrata, que trabalhava com a liberação de obras, redigindo e assinando alvarás para grandes empreiteiras explorarem o nosso solo “Brasilis”, quase a mesma coisa que Portugal fazia com o Brasil na época da sua vulga descoberta. 

  Por ser tímido Dante vive com o pai em um pequeno apartamento e praticamente não tem vida social. Já a mulher por quem se apaixona, que no conto é a esposa de um militar, no filme é uma paleontóloga carioca de destaque no meio universitário na área de pesquisas de fósseis. 

   Dante, com toda sua sensibilidade e carência apaixona-se por esta bela mulher, para ele inatingível, e a partir daí sua vida muda literalmente. E para pior, escreva-se de passagem, se é que isso é possível, pois sua vida já era bastante sem graça, porém ainda tinha certo juízo mental e o perde quando fora enganado por uma vulga vida romântica com a paleontóloga nos EUA com a sua descoberta de um importante fóssil no interior do Rio Grande do Sul. 

   Um filme denso de personagens ( não de imagens ou quaisquer outras enrolações )que envolve caráter, ética, ingenuidade, e tudo desemboca no estado mental do protagonista feito com extrema maestria pelo ator Felipe Kannenberg, pois para fazer um doente mental como ele fez, é definitivamente para poucos atores. O diretor Carlos Gerbase que em regra não “puxa o freio” nos filmes existenciais e viscerais que produz, mas esse superou todos os que já vi dele: Um verdadeiro soco no estômago e sem direito a respirar por nenhum segundo para recuperar o fôlego tamanho o caos mental em que cria seu personagem central.
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   Mato Sem Cachorro, dirigido e co-roteirizado pelo Pedro Amorim, Brasil, 2013. Sem temer estar pedindo algum absurdo, mas a estes que lêem esta resenha, vos lhe peço: Não vá ao cinema e nem alugue essa comédia nacional. Quem sabe assim, com um fiasco de bilheteria, ano que vem o cinema nacional consiga sair dos estereótipos de comédias em que não acrescentam nem em humor e produza mais dramas, documentários e outros gêneros com a mesma estrutura econômica que as comédias têm. 

   Apesar de Mato sem Cachorro tentar fugir das comédias politicamente corretas ( foi o filme em que ouvi a palavra porra mais na vida! ), porém ainda assim o seu final acaba sendo como a de outras tantas comédias cariocas de 2013, ou seja, sem sal e também politicamente corretas. 
A menção da estória em ter um cão como fio condutor para um casal ligado à área das artes pode chamar algum público, afinal: quem não gosta de um cachorrinho? Todavia o filme só fica nisso mesmo, ou seja, faltam argumentos para a existência de um casalzinho tão sem graça, interpretado pela Leandra Leal e o Bruno Gagliasso. Se a intenção era fechar o ano das comédias nacionais, quase que invariavelmente cariocas ( rezo para que seja a última), com o mesmo nível com as quais iniciaram, a Ancine acertou em cheio em patrocinar tal filme chato.
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  Capitão Philips, dirigido por Paul Greengrass e baseado numa história real, EUA, 2013. Encontramos no filme todos os elementos primordiais para a academia da indústria norte-americana de cinema premiá-lo com diversas estatuetas do Oscar em 2014. A priori tem-se um enredo que privilegia a estória “misericordiosa” dos EUA, que é de um navio cargueiro que vai entregar comida na faminta e grande África e no caminho é atacado pelos chamados piratas do século XXI : Os somálies miseráveis; “pescadores” da costa da Somália que resolvem cobrar um dizimo por caçar e navegar em seus mares, embora estes sejam ainda mares de navegação internacional, todavia como o capitão somalie diz em certo trecho: “Na América tem-se a escolha de ser várias coisas, mas aqui não, escolhemos o que tem na mão. Se somente temos Fuzis e navios para roubar em nossos mares, então fazemos isso”. 

  Sem querer julgar atitudes terroristas ou territorialistas, o filme narra uma dessas estórias das centenas de navios que já foram roubados naquela costa africana. Deste em foco no filme norte estadunidense tem-se um capitão e por isso protagonista pra lá de acostumado com a academia da indústria cinematográfica do seu país: Tom Hanks. Pelo orçamento que o filme tem não teria como sair mal feito, e de fato não sai com mais de duas horas de pura tensão e adrenalina em alto mar com atores africanos inexperientes dando mais visceralidade a fita e contrastando as cenas com figurões como Hanks. 

  O filme tem um apelo norte-americano quase que insuportável e talvez por isso tenha grandes chances de fazer sucesso em um premio que premia a indústria de cinema do país mais rico do mundo, mas que não necessariamente premia filmes de fato, mas isso em Hollywood é mera lembrança.