ter�a-feira, 07 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Terapia de Risco, um filme para se assistir duas vezes

Tocaia no Asfalto, dirigido por Roberto Pires e produzido por Glauber Rocha, Brasil- Bahia, 1962.
09/11/2013 às 10:59
Tocaia no Asfalto, dirigido por Roberto Pires e produzido por Glauber Rocha, Brasil- Bahia, 1962. Foi um mega prazer rever imagens de minha terra natal, Salvador, nos anos 1960. Pude conferir essa relíquia do cinema nacional no Panorama Internacional Coisa de Cinema, realizado entre os dias 31 de outubro a 7 de novembro no Cine Glauber Rocha em Salvador e Cachoeira. 

No filme podemos ver como a capital soteropolitana juntamente com sua urbanização após meio século, mudou tanto.  Em 1960 tudo era praticamente mato virgem. Se você quisesse pegar um solzinho na orla marítima, era simplesmente estacionar sua carranga na grama verdinha e pouco cuidada mais próxima possível da areia da praia em todo litoral da cidade e já estaria tomando um banho de mar.

 Não existia ainda a orla marítima na cidade com asfalto, parapeitos ou calçadões, o que se via somente nas estradas que davam acesso as praias eram terras de barro batido e muita floresta tropical atlântica sem ainda ser desbravada, e por isso linda por ser ainda intocável  pelo homem ( bem diferente do cenário atual onde cada vez mais prédios gigantescos são construídos a beira-mar sob o importante apoio do novo PDDU.

 O filme ainda nos remete a lugares que de “olhos fechados” vemos como mudaram também, como por exemplo, o Solar do Unhão e sua escultura a beira daquelas águas marítimas calmas sem antes mesmo da existência das comunidades das Gamboas: de cima e de baixo numa cidade baixa bem provinciana. Roberto Pires nos leva a vê o outro lado da cidade na ponta do Humaitá com seu farol descascado, mas elegante e nos finaliza com um presente especial: o farol da Barra, um lugar que na época só existia o próprio e mato pra tudo que é lado, sem sequer um único e mísero prédio, seja este grande ou pequeno.

Ou seja, a cidade do Salvador há 50 anos era mato puro e de certa forma ou sem uma forma de prédios e estabelecimentos comerciais colossais , mais bonita de se apreciar a olhos nus. Entretanto deixando a aula de história arquitetônica que o filme preto e branco nos dá ( esqueci do Pelourinho: de todos os locais rodados foi o que mais continuou parecido com o atual, mas óbvio que não idêntica suas ruas e estabelecimentos bem menores do que hoje, mas ainda com o mesmo piso de pedras atuais ). 

Entretanto vamos a trama do filme em si, porém sem antes parabenizar um dos pioneiros do cinema nacional e baiano: o falecido visionário diretor Roberto Pires. Mas vamos a obra prima de imagens e ousadia para a época que foi Tocaia no Asfalto.

 O filme é permeado e tem como objetivo principal o poder e a política ( alias coisa nada diferente para com os nossos atuais governantes, por isso o filme se torna atualíssimo nesse sentido) , onde um coronel e político do interior do estado contrata um matador de aluguel para fazer o serviço em um político da capital da oposição de seu partido. 

O cabra chega de um lugar bem miserável do interior do Sergipe para fazer o que pediram pra ele fazer, ganhar seu troco e sumir das redondezas por um bom tempo. Só que quando tal cabra matador de aluguel chega a Salvador e se hospeda em um bordel no “Pelô”, acaba louca e ardentemente apaixonado por uma linda “mulher da vida.”. Com isso ele repensa a idéia de matar tal político poderoso da capital e fugir com sua namorada para o mais longe dali possível. Mas quando um cabra da peste só o que sabe fazer na vida é matar gente, o prazer de matar fala mais alto do que tudo, até que dinheiro. Então não teve jeito, o matador cumpriu sua missão, pois seu sangue e suas memórias não deixariam em hipótese alguma aquilo em que deu sua palavra e honra para executar ou fazer. O

 filme nos mostra como o cinema ( não só o nacional, mas a sétima arte mundial ) evoluiu aos longos desses 50 anos, tanto em tecnologias, mas também em idéias e roteiros.
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Amanhecer violento, de Dan Bradley, EUA, 2013. O enredo é o seguinte: O dia estava tranqüilo até um grupo de pára-quedistas aterrissarem no campo de futebol de um colégio. 

Era o início de uma invasão da Coréia do Norte ao território americano, o que gera pânico nos habitantes da cidade. Decididos a defender o local, oito jovens se escondem nas montanhas e adotando o nome de sua equipe de futebol, (The Wolverine ou os Lobos Selvagens ), planejam como revidar à invasão das forças militares inimigas. 

O Filme tem um roteiro e segmento meio fantasioso e sem dúvidas literalmente surreal. Não sou contra os norte-americanos fazer esses tipos de filmes onde se colocam sempre como mocinhos e que possuem “homens que dão a vida pela pátria”. Entretanto como a nação maior produtora de filmes, e nada mais justo, portanto que enaltecer a sua pátria. Cabe a nós então, sabermos distinguir a realidade da fantasia criada pelos norte-americanos. 

Cabe a nós não nos deixar alienar por essas obras cinematográficas. Agora que o filme é meio que surreal para não escrever “culhudeiro”, isso também é de fato. Como adolescentes ainda no ensino médio iriam conseguir disputar com soldados treinados e em bem maior quantidade? Como eles aprenderam a defenderem e atacarem com armas de fogo tão rapidamente? ( Será que os oito jovens salvadores da pátria Norte America fizeram um super curso intensivo de Jiu-Jítsu com os Gracie ou com a máfia mexicana? Vai saber...). 

Assim como no ativo filme, dou-me secamente meu veredicto sobre o tal;Trata-se portanto de um entretenimento audiovisual com um enredo bem fantasioso, com boas atuações da nova safra de atores de Hollywood, e principalmente com a participação do ator Jeffrey Dean Morgan, fazendo um tipo de líder da gangue dos sobreviventes americanos; Sobreviventes estes, guardadas as devidas proporções e filosofias, lembram os “Black  Blocks” atuais nos protestos das ruas de São Paulo e Rio de Janeiro, pois defendem seus ideais ou suas terras a qualquer preço. Portanto se estiveres na pilha de ver algo mais adrenalizante para começar uma segunda-feira o filme vale por ser de mediano pra bom, principalmente se não estiver muito preocupado com desvios nítidos de roteiro e coerência dos seus personagens centrais. Merece uma nota 6 e isso sendo generoso.
 
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Terapia de risco, de Steven Soderbergh, EUA 2013. Não podemos “bater o martelo” e afirmar que este foi o último filme do diretor, porém tudo indica que sim, mas como tal diretor já disse diversas vezes que iria se aposentar e acabava mudando de idéia ( é que bom que isso acontece, pois trata-se de um dos melhores em atividade ), pode ser que ele repense a idéia de aposentadoria. 

Entretanto focando nesse “último” e pretensioso filme( no sentido de chocar, de não deixar sempre claro o objetivo da trama) e altamente meticuloso ( por literalmente brincar com a psique humana ).
Um casal tenta se reerguer após a saída do marido de uma prisão e a sua esposa ao invés de ficar contente, fica depressiva. A idéia da cura a leva a uma médica psiquiatra após ela tentar o suicídio. A médica então receita um novo antidepressivo. 

O que não se esperava é que tal remédio guiaria a complexa trama a partir de então, causando conseqüências a todos: a médica, a mulher e ao seu marido, recém saído da prisão. Ao longo dos seus 106 minutos de projeção somos envolvidos num jogo de quebra-cabeças onde não existem nem bandidos nem heróis, todos são ao mesmo tempo as duas coisas. 

Side Effects (no original) é um filme, portanto que por tantas reviravoltas em seu roteiro escrito por Scott Z. Burns, que não seja tão palatável aos espectadores dos filmes das comédias nacionais, por exemplo. Trata-se de um filme que vai se diluindo aos poucos, colocando o espectador a pensar o porquê uma ação gerou determinada conseqüência ou se essa mesma ação teria sido advinda de uma reação anterior. É um bom filme sem dúvidas, mas definitivamente se puder ver duas vezes será melhor.