quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Las Acacias, um argentino muito especial

orge Mautner – O filho do holocausto, do Pedro Bial, Brasil, 2012; É um documentário que conta a vida do multi-artista brasileiro
02/11/2013 às 06:22
 Las Acacias , de Pablo Giorgelli , com Germán De Silva e Hebe Duarte, Argentina;É um filme selecionável pelo festival de Cannes em 2011, porém lançado em setembro desse ano. Se tem uma coisa que os sul-americanos sabem fazer são filmes de baixo orçamento (excluindo-se o Brasil) com bons roteiros, em especial Uruguai e Argentina. 

   Como a grana é curta os diretores dessas películas limitam as cenas e locais para que o filme não saia tão caro, porém em compensação eles focam nas personalidades dos protagonistas e para quem curte um filme mais contemplativo é um prato cheio. 

   Esse em questão é quase todo rodado dentro de uma boleia de um caminhão onde existiam três personagens: o caminhoneiro, uma “caronista” e sua filha de 5 meses. Em mais ou menos uma hora e meia observamos que o silêncio por vezes fala mais do que palavras. 

   Com poucos diálogos e um respeitando o “tempo” do outro, os dois personagens vão se conhecendo , sabendo um da vida do outro. E isso por si só é muito bonito de se ver. Constroe-se um laço afetivo sem promessas de um para com outro. Enquanto o caminhoneiro revela sua vida a sua carona esta também faz o mesmo, afinal todos nós temos uma estória a contar, querendo ou não. Uma carona pegamos ao ver esta fita para chegarmos a uma conclusão: as coisas mais valiosas da vida são as que tocam nossos corações.
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    Jorge Mautner – O filho do holocausto, do Pedro Bial, Brasil, 2012; É um documentário que conta a vida do multi-artista brasileiro; E talvez um dos artistas mais completos que nossa terra tupiniquim já produziu, pois além de cantar e compor fazia poesias e por isso e outras coisas foi um dos principais nomes da música brasileira com parcerias com Tom Zé, Gil e Caetano.

   O documentário mostra a sua vinda ao Brasil pelo motivo de seus pais fugirem do Nazismo na Europa. Já aqui no Brasil ele teve uma babá filha de santo, o que contribuiu para suas miscelâneas culturais ainda bebê de colo. Quando se torna mais velho se muda de São Paulo para o Rio de Janeiro, porém sem antes esfaquear e quase levar a morte um amigo são-paulino que zombava de seu time, Corinthians, por uma derrota e vejam bem: o Jorge tinha apenas 19 anos de idade e já se via com aquela personalidade: uma coisa genial e visceralmente forte de artista de fato e natureza que lia tudo de interessante que procurava ou seus pais que seus pais presenteavam. 

   De lá pra cá suas parcerias só aumentariam e a música o chamava ainda mais, e o mais rápido possível. Não deu outra: Se tornou uma das principais reverências musicais brasileiras na época do presidente estadista Tancredo Neves. 

  Logo após vieram a ditadura militar sub-humana e perversa que dominou nosso país com o famoso e vergonhoso golpe militar de 1964 O artista por sua vez teve participação efetiva nas ruas lutando contra a ditadura. Em tese podemos afirmar que Jorge Mautner será sempre um artista além dos outros “normais” ou os que produzem muito pouco ou somente porcarias. 

   Trata-se de uma privilegiada cabeça pensante artística brasileira e por isso é tão agradável  assistir seu documentário. Além disso, o documentário tem a felicidade de mostrar detalhes e conversas íntimas com a filha do artista: Diretora artística de novelas da Globo, fato este que dá a Mautner bastante orgulho ao ponto de chorar ao falar da filha com detalhes super interessantes como pegá-la diariamente em uma escola burguesa no Leblon invariável e diariamente de sunga, fato este que sua filha Amora ( que é o feminino da palavra amor no latim); A filha obviamente teve muitos traumas escolares por seu nome exótico e pela sunga do pai, apesar dele ter tido sempre um corpo atlético. 

   A psicanálise infantil aos 7 anos de idade foi à salvação da filha Amora para a organização da filha  para que ela não fosse como o pai, que era de outra filosofia e época, ela mesma menciona isso e coberta de razão, escreva-se de passagem, pois no mundo dos artistas hippies não se tinham nenhum cuidado com o futuro de seus filhos, pois sobrava loucura e também amor, todavia faltava planejamento para a criação de um filho. 

   Se pudéssemos resumir o documentário escreveríamos que a fita é completamente guiada pelo sentimento de amor perante as pessoas ( sendo esses filhos ou amigos) e por isso é muito lindo de se assistir porque conta com dignidade e acima de tudo amor aos ideais artísticos da vida de um dos artistas mais completos da música brasileira de todos os tempos, mesmo que infelizmente tendo a direção do global e rabugento Pedro Bial, porém ainda assim vale ver a fita mesmo sendo do Bial, mas não obviamente pelo seu diretor, mas sim pela história de vida desse multi artista que foi e ainda é o nosso sempre renovável, imprevisível e claro genial Jorge Mautner do Brasil.
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    O Conselheiro do Crime, dirigido e produzido por Ridley Scott , com Michael Fassbender, Javier Bardem, Penélope Cruz, EUA , Reino Unido , Espanha, 2013. Acho que as maiorias dos freqüentadores dos cinemas multiplex não estão preparadas para assistir tal filme. Acho também que os críticos de cinema não captaram a mensagem do filme, então este em que vos escreve tentará escrever o que o filme de fato quis transmitir.

    Tanto publico como critica primeiramente ficaram “com o pé atrás” por se tratar de um filme que aborda abertamente o mundo do tráfico de drogas de uma maneira humanizada, ou seja, nesse meio existem simplesmente pessoas normais que ficam alegres, triste, que choram, riem; Enfim pessoas normais que tem um trabalho fora deste vulgo normal para enriquecer e, diga-se de passagem, fazer muitos usuários felizes, por isso são além de traficantes um pouco de médicos também. 
 Outro aspecto riquíssimo que o filme tem é o seu tom filosófico que os principais traficantes imprimem para fazer seus personagens de uma forma tão humana, que de fato para a maioria “careta”, não consegue enxergar que somente pessoas inteligentes acima da média pode entrar no esquema. Entretanto como um dos personagens do filme diz: “Quando se entra nesse meio nunca nada será como antes para sempre, pois a vida é feita de escolhas e alguma delas são definitivas e irreversíveis”. 

   O viés filosófico do filme vem exatamente destas conversas dos traficantes mais experientes “explicarem” como uma escolha errada na vida pode mudar ela pra sempre. É uma pena que público e principalmente a crítica especializada não conseguiu enxergar a leveza do filme e de seu roteiro, talvez por ligar o tráfico e as pessoas que trabalham com isso de uma forma preconceituosa e pejorativa. 

   O filme trata-se essencialmente de pessoas e seus dramas existências de relacionamentos, ganâncias por querer subir na vida, amores verdadeiros, enfim sentimentos humanos nobres que guia o filme o tempo todo, porém sentimentos bonitos estes que ficam escondidos através do preconceito não velado pelo mundo das drogas por nossa sociedade esquizofrênica em que um rivotril é lícito e outras coisas bem mais leves não são.